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Golpismo em Brasília: 5 indagações sobre as forças de segurança e 5 tarefas do Governo Lula

Uma coisa é certa: acabou o período de contemporização do governo com os militares
Luís Nassif
GGN
São Paulo (SP)

Tradução:

Peça 1 – o golpe mais anunciado da história

Foi a tentativa de golpe mais canhestra da história da República. Uma manifestação com algumas mil pessoas, reunidas e estimuladas através de redes sociais, passando despercebidas da inteligência da Polícia Federal, da Política Rodoviária Federal, das três Forças Armadas, da Presidência da República.

Mesmo assim, caravanas de ônibus de diversas partes do país, financiadas por golpistas, transportando baderneiros contratados, atravessaram rodovias federais, entraram no Distrito Federal e foram gentilmente escoltados até a Esplanada dos Ministérios.

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Peça 2 – os preparativos contra o golpe

Juntam-se o Ministro da Justiça, a Polícia Federal e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. A responsabilidade maior pela ordem fica com Ibaneis, que tinha como Secretário de Segurança Anderson Torres, um policial federal de baixíssimo nível, que havia sido Ministro da Justiça de Jair Bolsonaro.

A tentativa de golpe era tão previsível que, dias antes, Jair Bolsonaro e família se mandaram para Flórida, para conseguir um álibi. Ao que consta, na véspera do golpe Anderson Torres seguiu o mesmo caminho, deixando a Polícia Militar acéfala.

Primeira questão: a troco de quê deixou-se a responsabilidade pela segurança da capital da República nas mãos de Ibaneis Rocha? O que explicaria esse cochilo?

Houve o óbvio: os baderneiros vindo de ônibus se encontrando com os baderneiros abrigados nas portas dos quartéis, invadindo a Esplanada e promovendo atos de vandalismo inéditos contra a Presidência, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.

Peça 3 – poderes indefesos

Aí se entra em um campo escorregadio. Como foi que encontraram os prédios vazios, sem policiamento, sem ninguém e simplesmente abriram as portas e depredaram tudo? 

Cada poder tem sua própria polícia especial, incumbido da sua proteção. Aliás, a quantidade de polícias especiais do país é imensa.

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Presidência da República – tem o Comando Militar do Planalto, cuja missão é “contribuir com o Exército Brasileiro para a garantia da Soberania Nacional, dos Poderes Constitucionais, da Lei e da Ordem; cumprir atribuições subsidiárias, cooperando com o desenvolvimento nacional e o bem estar social; contribuir com a Segurança Presidencial; realizar a Guarda e o Cerimonial Militar da Presidência da República

Supremo Tribunal Federal – tem a Polícia Judicial, principal responsável pela segurança do STF. Segundo a Folha, “Em meio às recorrentes ameaças contra o Judiciário incentivadas pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), o STF (Supremo Tribunal Federal) tem apostado em maior especialização na segurança dos seus prédios e também na dos ministros.

Em 2021, os funcionários responsáveis pelo setor de segurança tiveram cursos aplicados pelos fuzileiros navais, pelo Comando de Operações Táticas (COT), que é a elite da Polícia Federal, e até pela Interpol.

Senado Federal – Tem uma Secretaria de Polícia, composta pela seguinte equipe: 

Onde estava essa multidão na hora da invasão?

Câmara Federal – Em dezembro, apenas para reposição dos quadros, houve concurso para 140 vagas da Polícia Legislativa da Câmara de Deputados. Questão central: onde estava todo esse pessoal quando os invasores chegaram?

Uma coisa é certa: acabou o período de contemporização do governo com os militares

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Se Lula não mudar radicalmente sua política de segurança, será devorado pela esfinge




Peça 4 – a reação das instituições

Em um primeiro momento, poder-se-ia pensar que todos os quadros policiais estivessem cooptados pelo golpismo. Depois que o próprio Ministro da Defesa admitiu como normal os acampamentos golpistas, indicando que até parentes seus frequentavam, tudo se podia esperar. Além disso, havia informações de oficiais da ativa participando das badernas.

De repente, não mais que de repente, a polícia começa a agir. A PM do Distrito Federal entra em campo, com cavalaria e batalhão de choque; Ibaneis Rocha dá uma entrevista trêmulo como um bambu ao vento, centenas de baderneiros são presos e algemados.

O Ministro da Justiça, Flávio Dino, dá uma entrevista denunciando a postura de Ibaneis, Lula assina um decreto de intervenção na segurança do GDF, a AGU (Advocacia Geral da União) pede a prisão de Anderson Torres, Bolsonaro se pronuncia, em um Twitter em que cada palavra denotava seu medo. E as imagens das depredações indignavam todo o país civilizado. As televisões passavam a tratar os baderneiros como terroristas.

No final do dia, Dino anunciava ter apreendidos os ônibus, levantado a lista de passageiros e identificado os financiadores. Foi além: garantiu que outros baderneiros seriam presos no dia seguinte, estivessem na frente ou do lado dos quartéis.

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Nesse movimento, o bolsonarismo foi se esfarelando na frente de todo o distinto público. Partidos aliados pularam do barco, o ex-ministro da Casa Civil, o indizível Ciro Nogueira, condenou as manifestações. Não se ouviu um pio dos militares de Bolsonaro, generais Braga Netto e companheiros.

E terminou com um pedido de desculpas do próprio Bolsonaro, jogando todos seus seguidores ao mar, e fugindo em um bote vazio.


Peça 5 – os desdobramentos

O que pode ter acontecido? O despertar tardio, mas ainda em tempo, no poder civil? As cenas escandalosas, capazes de constranger até o impassível general Heleno? Uma estratégia de Alexandre de Moraes, desarmando as polícias dos três poderes, para que a serpente pudesse esticar seu pescoço e ser degolada?

Confesso não ter resposta.

O que sei é que há uma conjunto de consequências óbvias:

  1. Acabou o período de contemporização do governo com os militares. Se, nos próximos dias, houver um acampamento de pé, na frente de um quartel, o comandante terá que ser responsabilizado pelo Ministro da Defesa. Será um ato claro de insubordinação.
  2. Foi antecipado o fim da blindagem dos Bolsonaro. Especialmente sabendo-se que já há uma investigação em curso, quebrando o sigilo telefônico dos 8 baderneiros que se envolveram nos ataques à Polícia Federal. Mais que isso: foi autorizada a quebra do sigilo telefônico das pessoas que se comunicavam com eles.
  3. Haverá uma aceleração da desbolsonarização da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da PM do Distrito Federal.
  4. Terá que haver uma ação rápida contra os CACs, base das milícias bolsonaristas.
  5. O período Lulinha-paz-e-amor terá que ser substituído por uma ação severa e rápida de defesa das instituições. Haverá uma mudança drástica na forma de relacionamento com o arco de alianças que sustenta o governo.

Por todos esses desdobramentos, reforço minhas indagações: o que explica todos os edifícios dos 3 poderes sem suas próprias polícias defendo-os? Se Lula não mudar radicalmente sua política de segurança, será devorado pela esfinge.

Luis Nassif | Jornalista do Portal GGM


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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