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Governo Petro dispensa política de guerra contra ELN e fortalece diálogo de paz

Em mais recente ciclo de conversas, delegações de ambas as partes emitiram declaração que inclui a suspensão de sequestros praticados pela guerrilha
Jorge Enrique Botero
La Jornada
Bogotá

Tradução:

Depois de um tenso debate entre o governo da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional (ELN), a guerrilha aceitou suspender a prática do sequestro enquanto se mantém o cessar-fogo entre as partes, pactuado até o final de janeiro do próximo ano.

Ao término, no México, do quinto ciclo de diálogos de paz, as delegações de ambas as partes emitiram uma declaração de seis pontos, o segundo dos quais se refere à “suspensão das retenções com fins econômicos, segundo o ELN, no âmbito do prolongamento do cessar-fogo”.

Este anúncio ocorreu apenas dois dias depois de o presidente Gustavo Petro advertir que não tinha sentido manter um cessar-fogo sem que as organizações insurgentes, com as quais há conversações de paz, renunciassem a todo tipo de economias ilícitas, incluindo o sequestro e o tráfico de cocaína.

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Segundo fontes próximas às negociações, até a madrugada deste domingo (17), as delegações do governo e da guerrilha não haviam conseguido chegar a um acordo sobre a inclusão do tema do sequestro na declaração final da quinta rodada, até que surgiu a fórmula de vincular a exclusão dessa prática ao cessar-fogo. “Às três da manhã, ainda não havia consenso entre as partes”, relatou à La Jornada um diplomata testemunha das discussões.

Iván Cepeda Castro, senador e membro da equipe negociadora do governo da Colômbia, afirmou que neste ciclo de conversações se conseguiu passar de uma crise a fortalecer o processo de diálogo com o ELN.

“O ELN se comprometeu a suspender a prática de sequestro com fins econômicos, e foram firmados outros cinco acordos nos quais se reforça a participação, o cessar-fogo nas zonas onde ocorrerão as transformações sociais, o processo de alívio e as ações humanitárias”, acrescentou.

Por sua vez, Pablo Beltrán, representante do ELN nestas mesas, afirmou que com este encontro se avançou para uma solução política do conflito, ou seja, que as soluções de guerra, militares, policiais, repressivas, deixem de ser o centro da política colombiana.

Analistas locais advertiram que os titulares da maioria dos meios de comunicação locais – que mencionam que o ELN abandonará o uso do sequestro para financiar suas operações – podem levar a equívocos e gerar uma falsa sensação de otimismo. “O certo é que o governo perdeu o controle sobre o ELN, pois o que se pretendia era chegar a zero sequestros e à libertação de todos os sequestrados”, comentaram especialistas em temas de paz.

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Em mais recente ciclo de conversas, delegações de ambas as partes emitiram declaração que inclui a suspensão de sequestros praticados pela guerrilha

Foto: Delegación ELN/X
As partes anunciaram que o sexto ciclo de negociações de paz terá lugar em Havana entre 22 de janeiro e 6 de fevereiro de 2024

“Entendo que essa suspensão é temporária, não definitiva, apenas possível no âmbito do prolongamento do cessar-fogo”, disse ao La Jornada o ex-comissário de paz, Danilo Rueda.

Para o acadêmico e jornalista Germán Ayala Osorio, o anúncio deixa muitas perguntas em aberto: “Quantos sequestrados o ELN tem em seu poder, quando os vão liberar, há sequestrados que morreram em cativeiro ou foram executados?”, questionou em sua habitual coluna do blog A Outra Tribuna.

A declaração conjunta emitida na Cidade do México também se referiu à “criação de condições para a prorrogação do cessar-fogo, o mecanismo de verificação e medidas diante do acionamento de forças paramilitares e de diferentes grupos armados”.

Os temas da participação da sociedade no processo de paz e a criação de uma rede nacional que facilite a chegada de iniciativas civis à mesa de negociações, assim como a formação de oito zonas críticas para implementar ações humanitárias, também foram incluídos no documento final.

As partes anunciaram que o sexto ciclo de negociações de paz terá lugar em Havana entre 22 de janeiro e 6 de fevereiro de 2024.

Jorge Enrique Botero | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Jorge Enrique Botero Jornalista, escritor, documentarista e correspondente do La Jornada na Colômbia, trabalha há 40 anos em mídia escrita, rádio e televisão. Também foi repórter da Prensa Latina e fundador do Canal Telesur, em 2005. Publicou cinco livros: “Espérame en el cielo, capitán”, “Últimas Noticias de la Guerra”, “Hostage Nation”, “La vida no es fácil, papi” y “Simón Trinidad, el hombre de hierro”. Obteve, entre outros, os prêmios Rei da Espanha (1997); Nuevo Periodismo-Cemex (2003) e Melhor Livro Colombiano, concedido pela fundação Libros y Letras (2005).

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