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Foto: Daniel Alejandro Martínez / Flickr

Governo Petro reivindica 122 peças de ouro “doadas” ilegalmente a Espanha em 1892

Artefatos históricos foram descobertos em 1890 em Filandia, município do departamento do Quindío, e correspondem à cultura Quimbaya
Jorge Enrique Botero, Armando G. Tejeda
La Jornada
Madri

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Jorge Enrique Botero, em Bogotá:

As 122 peças de ouro do Tesouro dos Quimbayas que estão no Museu da América em Madri devem ser devolvidas à Colômbia, pois foram doadas ilegalmente em 1892 pelo então presidente Carlos Holguín (1888-1892) à rainha Maria Cristina, opinou o advogado Felipe Rincón, autor de um recurso legal que resultou em uma decisão da Corte Constitucional que obrigou o governo a iniciar o processo de recuperação.

Rincón explicou ao La Jornada que as peças, descobertas por volta de 1890, foram levadas a Madri em 1892 para comemorar os 400 anos da chegada de Cristóvão Colombo às terras americanas, mas o presidente Holguín decidiu presentear a rainha com elas. “Holguín não tinha capacidade constitucional ou legal, pois as peças faziam parte do patrimônio da nação e qualquer doação eventual deveria ser aprovada pelo Congresso, o que não ocorreu”, explica. Ele lamenta que desde 2017 nenhum governo tenha dado seguimento à decisão da Corte Constitucional, até que em setembro passado o presidente Gustavo Petro declarou o interesse da Colômbia em repatriá-las.

Reação de William Ospina

A atenção voltou para as peças após as declarações da delegada de Cultura da prefeitura de Madri, Marta Rivera de la Cruz, às quais o escritor William Ospina, vencedor do Prêmio Rómulo Gallegos (2009) por seu romance “O país da canela”, não escondeu seu espanto e disse ao La Jornada: “Acredito que há coisas que não podem ser objeto de debate. Se a Espanha saqueou e pilhou na América, é algo que não pertence à ordem da discussão, tão grande é a evidência.

Urna cinerária dourada com cerca de 22 cm de altura e 1,1 kg de peso. Faz parte do “Tesouro dos Quimbayas”, o conjunto de objetos de ouro e ligas de ouro e cobre saqueados em duas tumbas pré-colombianas por volta de 1890 (Foto e texto: Ángel M. Felicísimo / Flickr)

“O tesouro obtido com o saque de Tenochtitlán viajou de fato para a Espanha, o tesouro obtido com o sequestro de Atahualpa foi levado à Espanha por Hernando Pizarro. Os galeões viajaram para a Espanha levando o ouro e a prata da Nova Granada, México e Peru. Essas evidências não dependem das opiniões dos funcionários”, acrescentou.

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Ospina mencionou as ilustrações da Expedição Botânica “pelo retorno das quais eu advogo em meu romance ‘Porei meu ouvido na pedra até que ela fale’. Não são apenas um patrimônio cultural inestimável, mas também pertencem à memória americana de forma indiscutível. A cada dia são mais importantes para nós, foram roubadas quando já tínhamos declarado a independência, e quem as embalou rumo a Madri fuzilou os artistas”. “Isso basta para que a justiça espanhola, a de Lope de Veja e a de Cervantes, odeie essa rapina especialmente reprovável. Voltarão alguma vez a nosso território? Não sei. Creio que desejá-lo é justo, que argumentá-lo é o correto e que não é nem um assunto bélico, nem um assunto de tribunais: é um assunto de retidão da consciência humana. Nada mais”, concluiu o também poeta e ensaista.

Petro reforça busca da recuperação

Armando G. Tejeda, em Madri:

O Tesouro dos Quimbayas faz parte das coleções do Estado Espanhol desde que, em 1893, foi doado à rainha Maria Cristina pelo então presidente colombiano Carlos Holguín, mas em setembro passado, o governo de Gustavo Petro insistiu em sua intenção de recuperar o tesouro, preferencialmente por meio do diálogo, mas sem descartar a via legal.

É uma obra composta por 122 peças de ouro que foi descoberta em 1890 em Filandia, município do departamento do Quindío, e que corresponde à cultura Quimbaya, que após a conquista espanhola foi confinada ao centro da Colômbia até desaparecer no século 17. O presente do presidente Holguín pretendia agradecer a ajuda da coroa espanhola na disputa de fronteira da Colômbia com a Venezuela. Outras 90 peças do mesmo tesouro estão conservadas no Museu Field de Chicago.

Descolonização dos museus

Há um debate aberto na Espanha sobre a “descolonização” dos museus estatais, que não apenas pretendem a devolução de algumas peças artísticas e arqueológicas que estão sob posse do Estado espanhol, mas também, e sobretudo, assumir uma nova forma de entender a arte, que não se baseie exclusivamente nos cânones ocidentais.

“Não se trata de uma revisão colonial porque na Espanha não foi praticado o colonialismo nos museus. A Espanha não tinha colônias, tinha vice-reinados“, afirmou Marta Rivera de la Cruz, vice-prefeita da Prefeitura de Madri e delegada de Cultura, Turismo e Esportes.

Em uma entrevista à agência de notícias Europa Press, Rivera de la Cruz, que também é escritora e ocupou vários cargos públicos, o último dos quais foi o de Conselheira de Cultura da Comunidade de Madri, afirmou também categoricamente que nas colônias da Espanha na América também não houve “espoliação”.

Esta funcionária madrilenha e escritora iniciou sua carreira política no partido liberal Ciudadanos, já à beira da extinção, e a partir daí passou a ocupar cargos públicos nos governos do Partido Popular (PP). A Prefeitura de Madri, governada com maioria absoluta pelo PP, a nomeou como máxima responsável pela Cultura da cidade, daí sua referência às questões do patrimônio e às políticas públicas em torno dos museus.

Nova política cultural

Ao ser questionada precisamente sobre essa política que o ministro da Cultura do governo espanhol, Ernesto Urtasun, da coalizão de esquerda Sumar, pretende aplicar, Rivera de la Cruz afirmou que isso “não faz sentido” e que “é um tema que na Espanha não se sustenta”. Ela disse, literalmente: “É que para mim não faz sentido nenhum”.

Na Espanha, não se trata de uma revisão colonial simplesmente porque na Espanha não foi praticado o colonialismo nos museus. A Espanha não tinha colônias, tinha vice-reinados e quando alguém viaja pela América Latina, percebe que tudo o que foi obtido em escavações, que, aliás eram custeadas pelo reino da Espanha, ficou no local, ou seja, não foi trazido para cá. A Espanha não espoliou seus países para trazer as coisas que encontrava.”

Diferenças

A funcionária madrilenha comparou o que aconteceu durante a época colonial na América Latina ao que aconteceu na Bélgica e suas colônias, sendo esta última o referencial para esse tipo de políticas públicas nos museus por parte do ministro da Cultura. Rivera de la Cruz explicou que “o que aconteceu na Bélgica não tem nada a ver com o que aconteceu na Espanha. Por exemplo, a peça mais valiosa da arte colonial que existe na Espanha, o Tesouro dos Quimbayas (que atualmente está no Museu da América, que depende do Governo central) não foi adquirida por uma expedição espanhola, mas sim foi um presente de um governo para outro governo”.

Precisamente em relação a esta peça arqueológica, o próprio governo espanhol reconheceu recentemente que “não há dúvidas” sobre a legitimidade da propriedade espanhola da obra, mas que também é legítima a reivindicação por parte do Estado da Colômbia para sua devolução.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Jorge Enrique Botero Jornalista, escritor, documentarista e correspondente do La Jornada na Colômbia, trabalha há 40 anos em mídia escrita, rádio e televisão. Também foi repórter da Prensa Latina e fundador do Canal Telesur, em 2005. Publicou cinco livros: “Espérame en el cielo, capitán”, “Últimas Noticias de la Guerra”, “Hostage Nation”, “La vida no es fácil, papi” y “Simón Trinidad, el hombre de hierro”. Obteve, entre outros, os prêmios Rei da Espanha (1997); Nuevo Periodismo-Cemex (2003) e Melhor Livro Colombiano, concedido pela fundação Libros y Letras (2005).

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