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Guatem-mata, uma mensagem nem tão subliminar

A Guatemala é o exemplo do que um país não deve ser, cujos melhores cidadãos são ferozmente perseguidos e obrigados a abandonar sua pátria para sobreviver
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul
Cidade da Guatemala

Tradução:

Para explicar o estranho título desta coluna, devo dizer que se refere à mais recente ação da secretaria de comunicação da presidência da república da Guatemala onde ocorreu a algum gênio do desenho criar um logotipo enganoso onde se lê, claramente: Guatemmata. Ou seja, uma tentativa grosseira de incluir a ideia de Giammatei (o m duplo) na identidade do país. 

Não é demais dizer que este é só um exemplo mais da incapacidade daqueles que cercam esse projeto de ditador, próprio de uma república bananeira. O que chama a atenção neste passo em falso, é a veracidade implícita nesse logotipo. Na Guatemala, efetivamente, o Estado e seu governo matam. Matam suas meninas, meninos e adolescentes; matam qualquer oportunidade de desenvolvimento; extinguem uma justiça frágil e enganosa por meio de um sistema de corrupção nunca visto antes, apoiado por todos os poderes do Estado e, das sombras, pelo setor empresarial organizado, aliado a organizações criminosas. E matam também aqueles que lutam para proteger sua terra e sua democracia.

Impossível deixar de dizer o que ocorre atualmente na Guatemala. Um país abandonado pela comunidade internacional, mas, pior ainda: abandonado por seus habitantes das áreas urbanas, divorciados de seus conterrâneos do setor rural a partir de estratégias divisionistas carregadas de racismo.

A Guatemala é o exemplo do que um país não deve ser, cujos melhores cidadãos são ferozmente perseguidos e obrigados a abandonar sua pátria para sobreviver

Piqsels
Guatemala hoje é um país abandonado pela comunidade internacional

A Guatemala é o exemplo do que um país não deve ser. Seus melhores cidadãos são ferozmente perseguidos e obrigados a abandonar sua pátria para sobreviver. Jornalistas e comunicadores éticos, empenhados em uma luta sem trégua por investigar e divulgar a verdadeira tragédia nesta nação castigada, sofrem todo tipo de pressões e ameaças, são impedidos de acesso à informação pública, são perseguidos; e, como se fosse pouco, desde suas mais altas instâncias o setor político organiza uma massiva campanha de desinformação, à qual alguns meios de comunicação se unem sem hesitar, fazendo uso dos abundantes fundos do Estado.

Delinquentes processados por delitos de alto impacto -muitos vinculados ao poder econômico- refugiaram-se em um sistema jurídico desmantelado de propósito e povoado de juízes e magistrados corruptos, com o propósito de criminalizar os poucos juristas probos que restam e evitar assim a ação da justiça.

Em meio a esta decomposição extrema, é suspeito o silêncio da comunidade internacional. Sugere que o colapso de um país do Terceiro Mundo poderia ser benéfico para suas empresas dedicadas a saquear recursos naturais, para seus planos de expansão econômica ou para a mais que óbvia oportunidade de influir em suas políticas internas. Porque é assim que funcionam as dinâmicas do poder e, também, o colonialismo solapado por planos de desenvolvimento. 

O criador do novo logotipo para a Guatemala fez, sem querer querendo, uma dessas revelações inconscientes que costumam ser definidas como um ato falho. Na verdade, não há engano e este país abundante em recursos e riqueza, mas governado por uma pandilha de empresários, políticos, narcotraficantes e militares corruptos, é agora o exemplo mais lamentável de como é possível saquear uma nação diante de um mundo impávido, mantendo divididos seus cidadãos para conservar a impunidade absoluta de seus crimes.   

O colapso de um país do Terceiro Mundo diante do olhar passivo do mundo.
elquintopatio@gmail.com @carvasar
www.carolinavasquezaraya.com
Tradução de Ana Corbisier.



As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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