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Há 20 anos Putin subestimou o imperialismo, hoje nos mostra que é possível derrotá-lo

A intervenção militar na guerra da Ucrânia completa dois anos demonstrando ao mundo que a Rússia aprendeu a lição
Eduardo Vasco
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Em sua entrevista com o jornalista americano Tucker Carlson, o presidente Vladimir Putin (2012-) mencionou um fato que, para aqueles – como eu – que não acompanhavam a política internacional 20 anos atrás, parece uma coisa surrealista.

O líder russo se referiu a uma reunião que teve com o então presidente americano, Bill Clinton (1993-2001), no Kremlin de Moscou, em 2000.

“Eu perguntei a ele: ‘Bill, se a Rússia levantasse a questão da adesão à OTAN, você acha que ela seria possível?’”, disse Putin à Carlson. “Clinton respondeu: ‘seria interessante, acho que sim!’”, continuou. Na noite daquele mesmo dia, quando os dois se encontraram novamente, para jantar, a opinião de Clinton havia mudado radicalmente. “‘Eu conversei com a minha equipe. Agora não é possível’”, disse Clinton a Putin, segundo este último.

“Se ele tivesse dito ‘sim’, começaria o processo de aproximação, e, no final das contas, isso poderia ter acontecido se víssemos um desejo sincero dos parceiros”, explicou à Carlson.

Alguns dias depois dessa badalada entrevista que rodou o mundo, a BBC veiculou uma entrevista com um ex-chefe da OTAN confirmando as intenções de Putin em se unir à aliança militar no início dos anos 2000. “Nós tivemos uma boa relação”, revelou George Robertson.

O Putin que ele conheceu “queria cooperar com a OTAN” e “era muito, muito diferente desse quase megalomaníaco de hoje”, recordou o histórico membro do Partido Trabalhista britânico, ferrenho defensor da escravidão da Escócia sob o jugo inglês – embora ele seja escocês – e que não percebe que lhe falta absoluto moral para criticar a intervenção russa na Ucrânia.

Com toda a arrogância de um britânico que ainda se acha dono do mundo, Robertson indicou que as potências imperialistas que, sob o seu mandato à frente da OTAN, terminavam de agredir a Iugoslávia e iniciavam as invasões ao Afeganistão e ao Iraque não queriam tratar a Rússia como um igual, mas sim como um vassalo dentro da organização.

Putin talvez não tenha entendido plenamente o recado naquela época. Ele ainda não percebia as aspirações expansionistas da OTAN. Lutava contra os separatistas muçulmanos chechenos, que praticavam atentados terroristas em território russo. Logo, sentia a necessidade de apoiar a famigerada “guerra ao terror” de George W. Bush.

De fato, até então as relações entre Rússia e o Ocidente eram relativamente boas desde a dissolução da União Soviética, em 1991. Yeltsin era um queridinho da “comunidade internacional”, assim como havia sido Gorbatchov. Mas a devastação econômica causada pelo choque neoliberal não agradou uma parcela importante da elite russa, particularmente os militares.

A crise política, econômica e social não se resolvia. Em 1998, oito em cada dez fazendas haviam falido e 70 mil fábricas estatais haviam fechado. Em 1994, um terço dos russos vivia abaixo da linha da pobreza e, mesmo dez anos depois, ainda eram 20% nessa situação. A Rússia perdera 10% de sua população devido à selvageria capitalista. Os índices de suicídio, assassinato, alcoolismo, consumo de drogas, doenças sexualmente transmissíveis e prostituição haviam aumentado exponencialmente. Enormes manifestações de rua expressavam o descontentamento da população, que quase levou à volta do partido comunista ao poder. O presidente do país era um beberrão e a Guerra da Chechênia ameaçava se espalhar por outras regiões e balcanizar a Rússia – a divisão da Iugoslávia ocorria paralelamente à crise russa.

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A intervenção militar na guerra da Ucrânia completa dois anos demonstrando ao mundo que a Rússia aprendeu a lição

Foto: Kremlin
A ação de Putin contra a velha ordem internacional é uma ajuda preciosa aos demais povos que nos anima a acreditar que outro mundo é possíve

Putin subiu ao poder como um sucessor natural de Yeltsin. Mas as condições reais da Rússia (internas e externas) o obrigaram a tomar um caminho oposto. As pressões sociais internas se somavam ao tratamento de segunda classe recebido das potências ocidentais e às movimentações da OTAN em direção à sua fronteira.

Ele começou estabilizando a situação interna. Reestatizou empresas-chave dos setores de gás, petróleo e aviação, como a Rosneft, a Yukos (incorporada à Rosneft), a Gazprom e a Aeroflot e criou a RZD para controlar o sistema de transporte. Também beneficiou os capitalistas nacionais (ou “oligarcas”, segundo a propaganda dos banqueiros internacionais) em detrimento dos estrangeiros. Ao mesmo tempo, combateu os separatistas com “mão-de-ferro”, retomou o controle do Cáucaso, pacificou a região e unificou plenamente o país.

Apesar de apoiar oficialmente a guerra de Putin contra os chechenos, na verdade, os EUA tinham uma política dupla. Ao mesmo tempo, interessava às potências imperialistas dividir a Rússia para enfraquecê-la ainda mais do que fizeram com a queda da URSS. Afinal de contas, ainda que o governo de um determinado país seja um aliado, sempre é preferível ao imperialismo reduzir o seu território para facilitar a sua dominação.

Enquanto não aceitavam a integração da Rússia, as potências imperialistas compravam os antigos aliados de Moscou e os integravam à OTAN. Em 1999, República Tcheca, Hungria e Polônia entraram para a aliança, 5 anos depois foi a vez de Bulgária, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Letônia, Lituânia e Romênia, e em 2009, Albânia e Croácia.

A Rússia estava cercada militarmente, com armas apontadas para o seu território, pelos mesmos que, àquela altura, já haviam devastado o Iraque e o Afeganistão.

A Revolução Laranja na Ucrânia, em 2004, e a Guerra da Ossétia, em 2008, reforçaram os argumentos daqueles que avisavam sobre uma ameaça real à Rússia. Mas, aparentemente, essas vozes ainda não eram dominantes no Kremlin. Moscou – e também Pequim, diga-se de passagem – permitiu os bombardeios de EUA, Reino Unido e França contra a Líbia e a posterior execução de Muammar Kadafi, acreditando ingenuamente que o imperialismo ocidental pararia por aí.

Mas os russos estavam aprendendo com a experiência recente. O famoso discurso de Putin na Conferência de Segurança de Munique, em 2007, durante o qual o mandatário criticou a demagogia pseudodemocrática, o modelo unipolar e o expansionismo imperialista e suas guerras de conquista, indicou que a Rússia já estava entendendo o que realmente é o imperialismo. Putin falou pela primeira vez ao conjunto das lideranças mundiais sobre o perigo da expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia. Ele também mencionou a injusta e extrema desigualdade nas relações econômicas entre as nações ricas e as pobres e citou o exemplo de seu país.

“Mais de 26% da extração de petróleo na Rússia é feita pelo capital estrangeiro. Tentem encontrar um exemplo semelhante onde empresas russas participam tão extensamente em setores econômicos nos países ocidentais. Esses exemplos não existem. Eu também recordaria a paridade de investimentos estrangeiros na Rússia e aqueles que a Rússia faz no exterior. Ela é cerca de 15 para um. Durante um longo tempo nos falaram mais de uma vez sobre liberdade de expressão, liberdade de comércio e oportunidades iguais, mas, por alguma razão, exclusivamente em referência ao mercado russo.” – Essa declaração é de um significado que, ainda hoje, a maioria das pessoas não têm capacidade de compreender.

A Rússia mudou definitivamente de posição a partir da completa destruição da Líbia. De uma crença na colaboração com aqueles que buscavam lhe oprimir, passou a uma política de defesa contra essa opressão. Quando EUA, Reino Unido e França tentaram repetir na Síria o que fizeram na Líbia, Moscou e Pequim finalmente utilizaram seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU. Perceberam que a crise de 2008 obrigaria as nações imperialistas a aprofundar a exploração do restante dos países para salvar os seus monopólios e assegurar a manutenção da velha e apodrecida ordem mundial. E Rússia e China, com suas riquezas naturais, amplo mercado consumidor e, ao mesmo tempo, potencial econômico e bélico, seriam certamente grandes alvos dessa investida.

Contudo, a Rússia ainda não estava à altura de combater as ameaças iminentes. Por isso não impediu o golpe de 2014 na Ucrânia. A partir daí, ela aprendeu a adaptar sua economia às sanções impostas por EUA e Europa devido à reincorporação da Crimeia e acelerou o desenvolvimento e a modernização de seu poderio bélico.

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No entanto, ao mesmo tempo, em que a agressão imperialista aumentava contra as pequenas nações – com a invasão parcial da Síria pelos EUA e total do Mali pela França e com os golpes de Estado na Ásia e principalmente na América Latina –, a crise no centro do sistema imperialista se agudizava. Ela se expressou principalmente no Brexit e na polarização política nos EUA. A crise iniciada em 2008, ao contrário de ser superada, mostrou sinais de retorno. As forças imperialistas davam demonstrações de fraqueza.

Finalmente, a brusca expulsão dos Estados Unidos pelos talibãs no Afeganistão, em 2021, abriu o caminho que a Rússia tanto almejava para responder à asfixia que lhe foi imposta. A intervenção militar na guerra da Ucrânia (iniciada, a guerra, em 2014) completa dois anos demonstrando ao mundo que a Rússia aprendeu a lição dos últimos 30 anos. O governo de Vladimir Putin já não confia mais no imperialismo e tenta contra-atacá-lo. E, ao assistirem, estupefatos, como o exército russo peitou a OTAN e disse “não” à sua captura da Ucrânia para agredir a Rússia, os povos do mundo descobriram que já é hora de fazer como fizeram os russos – e antes, os afegãos. A espetacular operação Tempestade de al-Aqsa e a heroica guerra de resistência dos palestinos contra os sionistas só foi possível porque os talibãs abriram o caminho e os russos o expandiram, fazendo estremecer todo o sistema imperialista mundial.

Não restam dúvidas de que outras nações oprimidas seguirão o exemplo da Rússia. Na verdade, desde 2022 Moscou vem atraindo um número crescente de adeptos à sua proposta de combate à hegemonia ocidental.

Putin pensou que poderia participar de igual para igual na repartição do mundo, como Stálin havia pensado. Mas o clube imperialista está fechado para novos sócios há muito tempo. Como Putin é mais inteligente que Stálin – e que quase todos os líderes nacionais contemporâneos –, abandonou as perspectivas de cooperação com a OTAN e (graças a Deus!) se transformou em um “megalomaníaco”, nas palavras de George Robertson.

Falta apenas um obstáculo a ser ultrapassado para que os russos recebam uma nota dez em sua lição de casa: a independência completa da Rússia em relação às grandes potências capitalistas. Esse, na verdade, é o maior dos obstáculos. Ainda há uma importante influência da velha ordem imperialista sobre a economia, a política e a sociedade russas, apesar dos avanços espetaculares dos últimos anos.

Esse nível de independência só poderá ser alcançado com uma vitória sobre as potências imperialistas. Isto é, uma vitória sobre o domínio mundial do imperialismo. A “multipolaridade” verdadeira apenas será viável quando não houver mais potências imperiais, ou seja, quando os atuais regimes políticos e econômicos das grandes potências capitalistas, EUA e Europa, deixarem de existir. Quando o sistema capitalista internacional for superado, encerrando assim a era da exploração de uma nação por outra. Infelizmente, isso já não depende mais da Rússia. Mas sua ação contra essa ordem internacional é uma ajuda preciosa aos demais povos, que acelera o processo de decomposição dessa velha ordem e nos anima a acreditar que outro mundo é possível.

Eduardo Vasco | Jornalista especializado em política internacional.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Eduardo Vasco Jornalista, trabalhou como enviado especial no início da intervenção russa na guerra da Ucrânia e escreveu o livro "O povo esquecido: uma história de genocídio e resistência no Donbass".

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