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Há 47 anos, o mundo perdia Violeta Parra

Vanessa Martina-Silva

Tradução:

Vanessa Martina Silva*

Vanessa Perfil DialogosNesta quarta (5) completam-se 47 anos da morte da cantora, compositora, poeta, artesã, artista plástica e folclorista, Violeta Parra. A autora de Gracias a la Vida se suicidou, aos 49 anos, em sua casa em Santiago do Chile um ano após compor o hino que se eternizou e transcendeu o Chile, a América Latina a alcançou todo o mundo. Apesar da morte precoce, Violeta Parra deixou uma enorme contribuição à arte e à cultura chilenas e latino-americana.

Enterro na Rua - Violeta Parra
Enterro na Rua – Violeta Parra

Seus trabalhos foram a base para o desenvolvimento do movimento estético-musical-político chamado de Nova Canção Chilena, do qual fizeram parte também Victor Jara, Rolando Alarcón, e Patricio Manns, além dos grupos Inti-Ilimani e Quilapayún. 
Para criar seus recitais, Violeta Parra recolheu histórias e canções de várias localidades chilenas. Pode-se dizer que sua obra está dividida em dois momentos: a primeira desde 1954 que se dedica à recopilação do folclore, criando canções como La jardinera; La Juana Rosa; Me voy, me voy; Parabienes al revés. A segunda se dá a partir de sua segunda viagem a Paris. A partir de 1962 passa a aperfeiçoar sua poesia, seu canto até chegar à sua obra principal: As últimas canções de Violeta Parra.

Obrigado à vida, que me tem dado tanto,

Me deu o coração, que abala seus limites
Quando olho o fundo do cérebro humano
Quando olho o bem tão longe do mal
Quando olho o fundo de teus olhos claros
Obrigado à vida, que me tem dado tanto,
Deu-me o riso e me deu o pranto,
Assim eu separo felicidade de quebranto,
Os dois materiais que formam o meu canto,
E o teu canto, que é o mesmo canto,
E o canto de todos, que é meu próprio canto.
(Gracias a la Vida – Violeta Parra)

Apesar de conhecida por suas músicas, seus quadros contém um estilo pessoal muito característico — parecido com o naif — que representa o mesmo mundo de suas canções. Escreveu os livros Décimas – autobiografia em versos, um marco na literatura chilena.
Em 1965, juntamente com seus filhos Ángel e Isabel Parra e os folcloristas Rolando Alarcón, Víctor Jara e Patricio Manns, criou, próximo a Santiago, uma grande tenda cultural chamada de Comuna de la Reina. Parra alimentava o sonho de convertê-la em um centro de cultura folclórica e de referência para a cultura do Chile, mas não obteve o apoio que esperava para seu projeto.

Prisioneiro inocente - Violeta Parra
Prisioneiro inocente – Violeta Parra

O grupo musical Inti-Illimani, um dos mais famosos fora do Chile, descreveu Parra da seguinte maneira: “é a única pessoa, na história do Chile deste século, que soube valorar, colocar em sua justa dimensão o que é a arte dos camponeses do Chile. Antes de Violeta, conhecia-se como música camponesa aquela visão que a burguesia tem dos seus latifúndios. O riozinho perfumado, o arbusto chorão… Canções assim. Canções que não eram mais do que uma visão classista do que é o povo. Com Violeta, as coisas começam a se redimensionar, porque ela começa a entender o amor, a vida, as lutas… Tudo com um ponto distinto de vista de classe. Isso é o mais genial que tem Violeta, o que ela pode falar em canções como Gracias a la vida ou Corazón Maldito, de problemas dos que têm cantado milhares de canções que se dizem populares, mas que não têm esse ângulo do povo que têm as canções de Violeta. Isso constituiu, para nós e para muitos outros, algo especial, uma grande descoberta. Era ter um padrão, uma escala de valores para saber distinguir o comercial do autêntico. Violeta Parra começou fazendo um amplo trabalho de pesquisa e, com essa experiência adquirida, compôs suas primeiras canções. Parte de sua criação é dirigida para a luta social. Os problemas da miséria… Toda sua vida é um peregrinar constante, em meio a uma incompreensão oficial de todo o seu trabalho. Daí também a referência, em algumas de suas canções, ao problema da burocracia. Toma muitos exemplos que são parte do nosso sofrimento diário e faz canções. Belas canções!”.

Violeta Parra durante ato político da revista El Siglo
Violeta Parra durante ato político da revista El Siglo

O ideal da integração latino-americana e a luta contra o imperialismo esteve presente em toda a sua obra. Suas canções mostravam as semelhanças dos processos históricos dos países da América Latina e, por conseguinte, as semelhanças dos seus processos de lutas populares, sempre exaltando o antiimperialismo e a vida, o trabalho e a luta dos camponeses pobres, povos indígenas e estudantes.

América aqui presente

Com seus irmãos de classe
Que comece a grande festa
De corações ardentes
Abracem-se os continentes
Por este momento elevado
Que surja uma perdição
De lágrimas de alegria
Que baile e cante a resistência
Que se acabem os lutos
Entremos na coluna
Humana neste desfile
Milhares e milhares de milhares
De vozes fundidas em uma.
De todas as partes os urra
Aqui todos são irmãos,
E assim estarão: de mãos
Como formando uma corrente
Porque o sangue nas veias
Fluirá de amor sobre-humano
Tudo estará em harmonia
O pão com o instrumento
O beijo e o pensamento
A caneta com a alegria
A música se desliza
Como carinho de mãe
Que se embelezem os ares
Esparramando esperanças
O povo terá mudança
Digo isto com muita honra.
(Canção final – Violeta Parra e Luis Advis)
Seus trabalhos inspiraram muitos artistas que vieram depois dela. Pode-se dizer que sua maior contribuição é o entendimento da música como uma ferramenta de denúncia, longe das trivialidades e versos fáceis, mas sem sacrificar a beleza, poesia e conteúdo. “A obrigação de cada artista é a de colocar seu poder criador a serviço dos homens. (…) Hoje a vida é mais dura e o sofrimento do povo não pode ficar desatendido pelo artista”. Pensamento presente em suas Décimas Autobiográficas:

Eu não protesto por mim

Porque sou muito pouca coisa,
Denuncio porque para a sepultura
Vai o sofrimento do mendigo.
Ponho Deus por testemunha
Que não me deixe mentir,
Não é preciso sair
Um metro fora de casa
Para ver o que aqui nos passa
E a dor que é o viver.
(Décimas )

Em 2013 foi lançado o filme “Violeta foi para o Céu”, de Andrés Wood, o mesmo diretor de “Machuca” (2004), que conta a história de Violeta. O filme pode ser visto aqui, em espanhol:

* Vanessa Martina Silva é colaboradora da Diálogos do Sul.
*Fontes: A Nova Democracia, Cancioneros, www.violetaparra.cl e Latino Americana – Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Vanessa Martina-Silva Trabalha há mais de dez anos com produção diária de conteúdo, sendo sete para portais na internet e um em comunicação corporativa, além de frilas para revistas. Vem construindo carreira em veículos independentes, por acreditar na função social do jornalismo e no seu papel transformador, em contraposição à notícia-mercadoria. Fez coberturas internacionais, incluindo: Primárias na Argentina (2011), pós-golpe no Paraguai (2012), Eleições na Venezuela (com Hugo Chávez (2012) e Nicolás Maduro (2013)); implementação da Lei de Meios na Argentina (2012); eleições argentinas no primeiro e segundo turnos (2015).

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