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História: O retorno do Talibã ao poder nas páginas da Cadernos de Terceiro Mundo

Trechos das edições 21, 76 e 235 da Revista Cadernos do Terceiro Mundo mostram contexto da situação atual do Afeganistão

Gabriel Rodrigues Farias
São Paulo (SP)

Tradução:

Os trechos que vocês lerão a seguir são de, respectivamente, 1980, 1984 e 2001:

‘’EUA enviam armas contra Cabul: O jornal norte-americano Washington Post revelou na sua edição de 15 de Fevereiro que a administração Carter está a fornecer por intermédio da CIA e a partir do Paquistão, armamento aos inimigos do regime de Cabul. 

Embora afirme que os envios só foram iniciados após a chegada de tropas soviéticas ao Afeganistão o jornal informa que anteriormente já era prestado auxílio aos “rebeldes” em forma de “medicamentos e material de telecomunicações”. 

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Segundo o Washington Post, as armas, sobretudo ligeiras e anti-tanque, seriam de fabrico soviético para esconder a sua origem norte-americana e permitir que os “rebeldes” possam apresentar à opinião pública internacional armas “soviéticas” capturadas ao exército de Cabul.

Trechos das edições 21, 76 e 235 da Revista Cadernos do Terceiro Mundo mostram contexto da situação atual do Afeganistão

Montagem: Diálogos do Sul
Montagem de o médico e o monstro

Noticia ainda este jornal que se encontra presentemente em Washington, onde foi recebido na Casa Branca, um dirigente “rebelde” – Zia Khan Massry – que apresentou a fatura necessária para pagar as despesas da sua ‘’causa’’ entre 20 a 40 milhões de dólares. A CIA terá já prestado informações desta operação a algumas comissões do Congresso norte-americano.‘’ (1980)

‘’No Paquistão, funcionam cerca de 120 campos de treinamento de “combatentes pela fé”, sustentados pelos EUA, Inglaterra, Alemanha Federal e países conservadores da região. No Irã e China, também há tais campos, embora em menor número. Os assessores militares, encarregados de preparar a chamada “resistência afegã”, são norte-americanos (mais de 300), paquistaneses, egípcios, israelenses, chineses e outros. […] Em novembro de 84, calculava-se em mais de um bilhão de dólares o montante de recursos aplicados, em seis anos, pelos EUA e aliados na “guerra santa” e não-declarada contra o Afeganistão. O governo afegão, por seu turno, estimava em 700 milhões de dólares os prejuízos diretos provocados pelas hostilidades, que procuram desestabilizar o país ‘’ (1984)

Leia também:
A espiral de uma guerra sem fim entre Estados Unidos, Talibã e Afeganistão

‘’Nesse sentido, o caso do Afeganistão é ilustrativo. Os talibãs foram recrutados, treinados e armados no Paquistão com dinheiro e armas norte-americanos, Bin Laden inclusive. A missão que lhes atribuíra a CIA era enfrentar o regime socialista e simpatizante da União Soviética que tinha se estabelecido em Cabul. O regime talibã não teria tido como se firmar sem o apoio do exército paquistanês e dos Estados Unidos. Só que Washington desconheceu um dado importante: os talibãs tinham os seus próprios objetivos, e aceitaram a “ajuda” da CIA em função deles, não para submeter-se aos desígnios norte-americanos pelo resto da vida. ‘’ (2001) 

Como vocês podem perceber, a situação encontrada hoje no Afeganistão é o fruto das ações norte-americanas no país. Com o objetivo de derrubar um governo de orientação socialista apoiado pela União Soviética, o governo norte-americano, junto com seus lacaios, financiaram grupos insurgentes contrarrevolucionários. e9ffc302 5877 42cc a620 7c97262ad452 Os Mujahidin, como ficaram conhecidos, ou ‘’Guerreiros da Liberdade’, chamados assim por Ronald Reagan, eram, na verdade, combatentes ultrarreacionários contrários a qualquer tipo de modernização no país (como, por exemplo, o fim da submissão da mulher afegã às leis tradicionais e tribais). Uma dessas lideranças financiadas pelos EUA foi Osama Bin Laden (que anos depois se revoltaria contra os próprios americanos, causando o atentado de 11 de setembro).

Durante a década de 1990, alguns anos após o fim do governo socialista afegão, surgiu o grupo fundamentalista Talibã, que nada mais é do que um legado do dinheiro americano aos grupos reacionários na região. Em 2001, os EUA decidem derrubar o Talibã do poder no Afeganistão. No entanto, 20 anos depois, o Talibã consegue retomar o poder após a retirada das tropas norte-americanas. 

Em resumo, os EUA, em nome da ‘’liberdade’’ (isto é, do anti-comunismo), criaram uma criatura poderosa, que foi capaz de expulsar o Urso da Sibéria de suas terras. Anos depois, o monstro se volta contra o próprio criador, tornando-se o seu inimigo número um. Muito tempo depois, quando o criador desiste de arcar com as consequências de seus atos, a sua criação volta ainda mais forte. O que talvez esse modesto criador não saiba (ou se nega a saber) é que Dr. Jekyll (EUA) e Mr. Hyde (Talibã) são a mesma pessoa.

Os trechos selecionados são encontrados, respectivamente, nas edições 21, 76 e 235 da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. O primeiro trecho se encontra em português de Portugal.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Gabriel Rodrigues Farias

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