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“Honduras romperá com dívida que consome metade do orçamento”, afirma líder do Livre

Segundo Rafael Alegria, Xiomara Castro anunciou medidas para combater a agiotagem e fortalecer os investimentos na área social e na produção
Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

“Honduras romperá as amarras da dívida contraída pelos governos da ditadura e que atualmente consome metade do seu orçamento. Isso é impagável”, afirmou o ex-deputado Rafael Alegria, dirigente histórico do partido Liberdade e Refundação (Livre) e coordenador-geral da Via Campesina.

Para o combatente, “o desenvolvimento da nação centro-americana passa pelo enfrentamento à lógica neoliberal do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial”. “Recém-empossada, a presidente Xiomara Castro anunciou medidas para combater a agiotagem, como a redução dos juros, e fortalecer os investimentos na área social e na produção”, enfatizou.

Nesta entrevista exclusiva, Rafael Alegria alertou para “o golpe armado pelos cachurecos no parlamento”, que cooptou parlamentares eleitos pelo Partido Livre para escolher um nome contrário ao governo para dirigir o Congresso Nacional. “Esta é uma conspiração do velho regime, que representa a repressão, a corrupção e o entreguismo ao estrangeiro, gente que quer retomar o poder para os inimigos do povo”, concluiu.

Segundo Rafael Alegria, Xiomara Castro anunciou medidas para combater a agiotagem e fortalecer os investimentos na área social e na produção

Reprodução/Twitter
Rafael Alegria alertou para “o golpe armado pelos cachurecos no parlamento”, que cooptou parlamentares eleitos pelo Partido Livre

Leonardo Severo / O presidente do Congresso, Luis Redondo, esteve presente no Estádio Nacional, quinta-feira (27), acompanhando em Tegucigalpa a posse da presidenta da República, Xiomara Castro. Mas há deputados que não reconhecem Luis Redondo como presidente, e levaram a disputa para a Corte Suprema da Justiça. O que está ocorrendo?

Rafael Alegria / Na última sexta-feira (28), a fração que representa Jorge Cálix interpôs uma ação na Corte Suprema de Justiça para que seja nomeado como presidente do Congresso. Esta corte está dirigida tradicionalmente pelos dois partidos históricos, o Nacional e o Liberal, cachurecos [oligarguia e seus apoiadores]. Por isso estamos preocupados com a resolução que poderia vir daí, já que foi este bipartidarismo quem nomeou seus juízes. Dar a legitimidade ao senhor Jorge Cálix só agravaria a situação política do país.

O fato é que estamos diante de uma situação bastante difícil, similar àquela do golpe de Estado de 2009. Poderia se gerar uma situação grave para o país, em uma verdadeira conspiração do velho regime contra o governo democrático de Xiomara Castro.

Vale lembrar que a história do Partido Nacional é de mais de 115 anos, em que vem manipulando o país com uma posição ideológica muito conservadora, reacionária e entreguista. Os cachurecos são um instrumento real das oligarquias, do caciquismo rural e representam o atraso, a repressão e a corrupção no país a serviço do estrangeiro.

Houve uma massiva e vibrante participação na posse de Xiomara. Seria um recado para os golpistas?

A força mais importante da presidenta Xiomara Castro neste momento é o contundente respaldo conferido pelo povo hondurenho nas urnas. Esta sustentação se mantém, que é o que os golpistas querem minar. De forma contundente, Xiomara é a pessoa que aglutina esta simpatia da sociedade. A luta é ampliar o apoio desde os movimentos sociais e populares para isolar os conspiradores, já que uma aliança do Partido Nacional com outros setores oligárquicos pode vir a ser perigosa. 

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Comprometida com seu povo, Xiomara definiu vários pontos chaves que os hondurenhos vêm exigindo, como a revogação das mal denominadas Zonas Especiais de Desenvolvimento [nestas ZPEs imperavam a precariedade, sem respeito a qualquer regra trabalhista], a reorientação e ampliação dos investimentos em saúde, educação, produção e soberania alimentar; e a libertação dos presos políticos. Anunciou temas que são fundamentais para a agenda nacional.

Combater a agiotagem e promover o desenvolvimento.

É muito importante o anúncio feito por Xiomara de que haverá uma redução da taxa de juros, estimulando a produção e enfrentando a especulação financeira. De que haverá energia gratuita para os que gastam até 150 kw mensais e uma baixa nos impostos.

Outro ponto que considero bastante importante é a reativação do Banco Nacional de Desenvolvimento Agrícola (Banadesa), um banco de desenvolvimento fechado pela ditadura e que necessitará ser reaberto e colocado à disposição dos pequenos agricultores. O novo governo ainda está em processo de consolidação e temos muita esperança na linha política adotada.

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Da parte dos movimentos sociais estamos nos preparando para a decisão que pode vir da Corte Suprema de Justiça. Neste momento há uma situação muito tensa e preocupante no país, por isso os hondurenhos encontram-se alertas.

Há uma lembrança muito forte do que significou a ditadura.

Nos doze anos consecutivos após o golpe de Estado de junho de 2009, com a ditadura, nosso país foi fatiado, distribuído entre as empresas transnacionais e o melhor projeto para elas eram estas ZPEs, com a entrega da soberania, dos recursos, da terra e do território hondurenho ao capital estrangeiro, mancomunado com a elite local.

Cito um exemplo: a ditadura emitiu um decreto executivo para que as terras do Estado, que até então deveriam ser distribuídas para fins de reforma agrária, passassem a ser concedidas para estas empresas por até 30 anos e praticamente a troco de nada.

Desta forma, terras públicas foram entregues por décadas à agroindústria, com graves consequências para o país. Por isso estamos defendendo a revogação imediata destas ordens presidenciais a fim de reativarmos o setor agrícola e alimentar a nossa população.

A política voltada à exportação privilegiou fundamentalmente as transnacionais estadunidenses.

Historicamente a prioridade tem sido a exportação. Há mais de cem anos aqui se instalaram transnacionais como a Standard Fruit Company e a The Royal Company, empresas bananeiras de origem norte-americana, assim como mineradoras estadunidenses e canadenses, seguidas por bancos dos EUA, entre outros segmentos que sempre levaram o que era nosso.

A base da economia dessa gente foi sempre a agro exportação, seja de banana, café ou azeite de dendê, em detrimento da pequena e média produção de alimentos como o milho, o feijão, o arroz e as hortaliças. De todos esses alimentos nós somos importadores quase natos, enquanto o povo passa fome e paga caro.

A luta agora é para recompor todo este sistema, porque desde os anos 90, quando se instalou o modelo neoliberal no setor agrícola, se desarticulou completamente o processo de reforma agrária, de distribuição de terras, de produção. As instituições do setor público agrícola se debilitaram imensamente, enquanto outras foram simplesmente fechadas. Era este o plano da ditadura e assim foi feito.

Ao mesmo tempo em que o sistema financeiro foi vitaminado.

Os setores financeiro e de comunicações passaram a se desenvolver bastante rápido, sob a égide do sistema do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Esta é a razão de nos encontrarmos altamente endividados, por isso temos de pagar este ano 50% do orçamento geral da República com esta enorme dívida contraída pela ditadura. Devemos ao redor de US$ 25 bilhões, o que é uma brutalidade para um país pequeno, de apenas 10 milhões de habitantes, que se vê extremamente empobrecido.

O que dizer da atuação da mídia hondurenha neste momento?

Por tudo o que temos visto, acredito que é essencial a democratização dos meios de comunicação para enfrentarmos a manipulação e a deformação do noticiário. Xiomara criou uma equipe de meios de comunicação comunitária e apresentou uma proposta para fortalecer e democratizar os instrumentos de diálogo com a sociedade.

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Porque em Honduras e em toda a América Latina o poder midiático é forte e está sob controle do grande capital, do sistema financeiro, que atua a favor do neoliberalismo. Mais do que nunca, necessitamos romper com este bloco oligárquico, historicamente sustentado por ditaduras políticas e econômicas, que não dá voz aos povos.

Acredito que uma das medidas essenciais é fortalecer os meios de comunicação do Estado e populares, organizando e construindo um plano cultural de libertação. Ações que devem avançar tendo como eixo estratégico o fortalecimento da democracia e da participação.

Nesta nova onda de governos progressistas da América Latina, como Honduras se incorpora neste processo?

Creio que os setores sociais e políticos progressistas conseguiram avançar de forma significativa. São vitórias que terão uma grande repercussão para a vida de nossos países e povos, mas é necessário consolidá-las.

Nesta semana ganhou destaque em nosso país a presença da vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, com conferências de imprensa e reuniões, sendo muito importante ter dado relevo ao papel da integração latino-americana. Da mesma forma, se restabeleceram as relações diplomáticas e comerciais de Honduras com a Venezuela, uma vez que a ditadura havia reconhecido ao golpista Juan Guaidó.

Acreditamos que voltamos novamente a um processo integracionista e libertador. E o caso de Honduras é sumamente importante porque a América Central tem estado sob a hegemonia norte-americana, de ditaduras, da direita.

Apesar de a partir de 2013 termos vencido eleições em nosso país, vinha sendo praticamente impossível chegar ao poder. Foi a vitória contundente de Xiomara e do Partido Liberdade e Refundação que possibilitou uma recomposição política e social na região, onde se fortalece a solidariedade, a cooperação e o internacionalismo.

Neste ano, teremos novas eleições na Colômbia e no Brasil, países em que acredito que a oposição progressista vai obter novas vitórias. É o momento de fortalecer os movimentos sociais e populares e sonhar. Como dizia Fidel, as utopias podem ser convertidas em sonhos e os sonhos em realidades. Por este caminho vamos. Até a vitória, sempre!

Leonardo Wexell Severo é jornalista e colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul. 

   

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