Pesquisar
Pesquisar

Imposto dos cidadãos dos EUA é usado por Israel para matar palestinos na Faixa de Gaza

Os Estados Unidos permitiram que ocorressem estes massacres ao proporcionar ano após ano bilhões de dólares em ajuda militar a Israel
Amy Goodman
Nova York

Tradução:

Os contribuintes estadunidenses que querem ver o dinheiro de seus impostos em ação só precisam olhar para a Faixa de Gaza, o território sitiado onde vivem dois milhões de palestinos e que o ex-primeiro ministro conservador britânico David Cameron descreveu como “uma prisão ao ar livre”.

Israel lançou uma vez mais uma de suas terríveis e periódicas campanhas de bombardeios contra os sofridos e assediados habitantes de Gaza, uma campanha que já deixou centenas de mortos, inclusive uma grande quantidade de menores. 

Há vários anos, os analistas israelenses usam como metáfora para referir-se a estes massacres a expressão “cortar a grama”, aludindo à estratégia militar de debilitamento e desgaste permanente que está por trás delas. 

Os ataques israelenses destes dias causaram importantes danos a 17 hospitais e clínicas, incluindo a única instalação em Gaza onde se realizam testes de diagnóstico da COVID-19; várias escolas foram destruídas; centenas de milhares de habitantes ficaram sem fornecimento de água potável; e um edifício de grande altura, que abrigava diversos meios de comunicação, como a cadeia Al Jazeera e a agência de notícias Associated Press, ficou completamente em ruínas.

Os Estados Unidos permitiram que ocorressem estes massacres ao proporcionar ano após ano bilhões de dólares em ajuda militar a Israel e dar-lhe um acesso privilegiado a armas sofisticadas.

Em um recente comunicado de imprensa, a organização de direitos humanos Jewish Voice for Peace (Voz Judia pela Paz) formulou a seguinte pergunta aos judeus estadunidenses: “Seguiremos negando o que acontece e permitindo que em nosso nome continuem se cometendo massacres e implementando um regime de apartheid e limpeza étnica? Ou, ao contrário, nos comprometeremos com esta dura realidade e abraçaremos com todo nosso ser o desafio de praticar fielmente o teshuvá e reparar estes danos?”. 

Israel teve durante muito tempo um forte e enérgico apoio dos dois principais partidos políticos dos Estados Unidos. Agora, com uma geração nova e mais diversa de representantes eleitos, a resistência popular à ocupação israelense da Palestina está tendo uma voz em Washington.

“Sou a única estadunidense de origem palestina no Congresso, e minha simples existência perturbou o status quo”, disse a congressista democrata de Detroit, Rashida Tlaib, durante um emotivo discurso que pronunciou no hemiciclo da Câmara de Representantes dos Estados Unidos. “Faço lembrar a meus colegas que os palestinos realmente existimos, somos humanos, temos sonhos. Somos mães, filhas, netas. Buscamos justiça e não pedimos desculpas por lutar contra a opressão em todas as suas formas”.

A congressista Tlaib fez seu discurso no dia da celebração da Festa do Fim do Jejum, a festividade religiosa muçulmana que se celebra quando termina o mês sagrado do Ramadã e só dois dias antes da comemoração palestina do Dia da Nakba. A Nakba, que significa “a catástrofe”, foi a violenta expulsão de centenas de milhares de palestinos de suas terras, que ocorreu depois da fundação de Israel, em 15 de maio de 1948.

Desde então, Israel expandiu sistematicamente a ocupação militar ilegal de terras palestinas, matou milhares de palestinos inocentes e encarcerou dezenas de milhares deles sem nenhuma acusação. Nada disso poderia ter acontecido sem a aprovação e firme apoio dos Estados Unidos.

No passado, Rashida Tlaib poderia ter sido uma voz solitária. Mas agora ela não está sozinha; há muita gente que a apoia. Os congressistas democratas Alexandria Ocasio-Cortéz, de Nova York, e Mark Pocan, do estado de Wisconsin, uniram-se a Tlaib para apresentar no Congresso uma resolução conjunta contra a venda por parte dos Estados Unidos ao Estado de Israel das denominadas “bombas inteligentes” —munições de ataque direto conjunto, ou JDAMS, na sigla em inglês— fabricadas pela empresa Boeing, uma operação no valor de 735 milhões de dólares. O senador Bernie Sanders apresentou uma resolução similar no Senado.

John Ossoff, o primeiro senador judeu eleito pelo estado da Georgia, encabeça um grupo de 28 senadores democratas que exigiram um cessar-fogo em Gaza, tanto por parte de Israel como por parte da organização Hamas, cujos foguetes mataram doze pessoas no território israelense. Em todos os Estados Unidos, milhares de pessoas saíram às ruas para exigir um cessar-fogo.

Na terça-feira, o presidente Biden viajou para Detroit, o distrito de origem de Rashida Tlaib, para visitar a fábrica onde serão fabricados os veículos totalmente elétricos da empresa automotriz Ford. Tlaib recebeu o presidente na pista de aterrissagem do aeroporto.

A Rádio Pública Nacional dos Estados Unidos informou que um assistente de Tlaib resumiu desta forma os comentários da congressista para Biden: “Os direitos humanos das e dos palestinos não são uma moeda de troca. Devem ser protegidos, não negociados […]. Os Estados Unidos não podem continuar concedendo ao Governo de direita de Netanyahu bilhões de dólares [em ajuda militar] a cada ano para cometer crimes contra os palestinos. Não podem ser toleradas atrocidades como os bombardeios nas escolas e muito menos levá-los a cabo com armas fornecidas pelos Estados Unidos”. No discurso que pronunciou na fábrica da Ford, Biden elogiou Tlaib e acrescentou: “Rezo para que sua avó e sua família estejam bem”.

As avós palestinas que vivem sob a ocupação israelense não precisam das orações de Biden. Precisam de sua intervenção.

Quando Biden estava a ponto de realizar um teste de direção de uma caminhonete elétrica na fábrica de automóveis, teve esta troca de palavras com uma jornalista:

“Senhor presidente, posso fazer-lhe uma pergunta rápida sobre Israel antes que se vá, já que é um assunto tão importante?”.

“Não, não pode. Não… A menos que se ponha diante do veículo quando eu pisar no acelerador”, respondeu Biden. E acrescentou: “Estou brincando”.

Imediatamente depois, o presidente arrancou com a caminhonete e, segundo se diz, afastou-se a quase 130 quilômetros por hora. Para os milhões de palestinos que vivem sob a ocupação israelense, cada dia é como se fossem atropelados por um caminhão conduzido pelo Governo estadunidense.

A recente campanha de ataques de Israel contra a Faixa de Gaza despertou em todas as partes do mundo uma solidariedade ativa com o povo palestino e sua resistência, rejeitando desta vez o que o falecido acadêmico e ativista palestino Edward Said descreveu como a “tolerância gregária com o estado de coisas”.

* Amy Goodman é a diretora de Democracy Now!, um noticiário internacional transmitido diariamente por mais de 800 emissoras de rádio e televisão em inglês e mais de 450 em espanhol. É co-autora do livro “Os que lutam contra o sistema: Heróis ordinários em tempos extraordinários nos Estados Unidos”, editado por Le Monde Diplomatique Cone Sul.

** Tradução de Ana Corbisier. 

*** Edição: Democracy Now! Em espanhol, spanish@democracynow.org


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na Tv Diálogos do Sul

 

Se você chegou até aqui é porque valoriza o conteúdo jornalístico e de qualidade.

A Diálogos do Sul é herdeira virtual da Revista Cadernos do Terceiro Mundo. Como defensores deste legado, todos os nossos conteúdos se pautam pela mesma ética e qualidade de produção jornalística.

Você pode apoiar a revista Diálogos do Sul de diversas formas. Veja como:


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Amy Goodman

LEIA tAMBÉM

Lin Jian - China
China expõe contradições da UE sobre Direitos Humanos e critica interferências
sudao-refugiados
Fugir da guerra para passar fome nos países vizinhos: o martírio dos refugiados do Sudão
ngel Víctor Torres
Abandono da memória histórica deu espaço à ultradireita na UE, afirma ministro espanhol
berlim-afd-alemanha
Leste da Alemanha votou na ultradireita por revolta contra desigualdade, afirma especialista