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Imprensa chilena despreza informe do governo sobre "intervenção estrangeira” na crise social

A publicação que também desatou a burla e ironias nas redes sociais, foi defendida pela ministra Karla Rubilar, porta-voz governamental
Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

O Ministério Público (Promotoria) filtrou à imprensa chilena um “informe de big data” que recebeu do governo de Sebastián Piñera e que provaria a “intervenção estrangeira na explosão social no Chile”; mas os detalhes conhecidos não passam de ser bobagens, leviandades e não demonstram nada concreto, mas sim a disposição governamental de continuar fazendo o ridículo, disseram comentaristas.

Quando no dia 19 o ministro do Interior, Gonzalo Blumel, entregou o informe à Promotoria, se disse que “foi entregue informação extraordinariamente sofisticada a partir de análise com tecnologia de big data, que dão conta de antecedentes que são importantes para a investigação penal”. Mas imediatamente o promotor nacional, Jorge Abbott, a minimizou assinalando que continha “informação de fontes abertas, não de inteligência” e duvidou de sua utilidade processual. 

Piñera, desde o primeiro dia da crise, além de falar que “estamos em guerra contra um inimigo poderoso” tem insistido em entrevistas à imprensa na ideia de uma agressão estrangeira e que se trata de uma organização poderosa e com recursos sofisticados. 

A verdade é que no informe de 112 páginas, do qual alguns detalhes foram publicados pelo diário La Tercera, não se entrega nenhuma evidência concreta da participação de grupos organizados de estrangeiros em território chileno, e menos ainda que um governo esteja conspirando contra Piñera. 

A publicação que também desatou a burla e ironias nas redes sociais, foi defendida pela ministra Karla Rubilar, porta-voz governamental

Governo do Chile
Piñera, desde o 1º dia da crise, além de falar que “estamos em guerra contra um inimigo poderoso” tem insistido em entrevistas à imprensa.

“O informe é ridículo e não resiste a uma análise, quer comprovar a história de intervenção estrangeira mas não oferece nenhuma prova. É uma soma de incongruências e de fake news”, disse o analista Cristián Fuentes, cientista político da Universidade Central.

Por sua parte o senador Ricardo Lagos (centro-esquerda) disse que “um Governo com um severo déficit de liderança, não pode continuar se expondo a situações que beiram o ridículo internacional desta maneira”. 

Outro parlamentar, o deputado socialista Marcelo Díaz, colocou que “com a vergonha do estudo BigData, o Governo continua sustentando a tese do inimigo estrangeiro e poderoso de forma irracional, Mas agora se torna mais grave, porque gasta dinheiro público torpemente. Necessitamos política, não criminalizar o #KPOP”.

O Partido Comunista comentou: “A quem nos acusa de burlar-nos do informe de ‘inteligência’, lhes dizemos forte e claro: sim. O que faz (o ministro Gonzalo) Blumel é uma piada, é absurdo, uma bobagem. Mas além disso, deve uma explicação ao país, à justiça e às leis básicas da lógica”.

O informe de Piñera

O informe se refere à atividade em redes sociais desde 18 de outubro, dia em que começou a explosão, até 21 de novembro, concluindo que 19 por cento das mensagens proveio do estrangeiro. Assinala haver analisado quase cinco milhões de autores únicos que geraram 60 milhões de comentários e identifica cinco grupos de opinião ou influência, dois de caráter internacional, os canais de televisão russo Actualidad RT e o venezuelano Telesur.

Entre os personagens internacionais identificados como influenciadores contra Piñera, são mencionados o cantor espanhol Ismael Serrano e o ator argentino Juan Diego Botto, que compartilharam em suas redes uma série de vídeos da crise e especialmente um vídeo do artista porto-riquense Residente. Um segundo grupo internacional muito ativo, mas com menos recepção, se trataria de partidários de Piñera radicados principalmente na Venezuela, México, Argentina e Espanha, que apontam o governo de Nicolás Maduro e o Serviço Bolivariano de Inteligência como responsáveis. O terceiro grupo que preocupa o governo são os jovens aos que identifica como aficionados ao K-Pop, um estilo de música juvenil coreana, aos quais lhes sindica como altamente influenciados por sites de difusão de notícias alternativas. Nesse grupo se nomeia como os mais influentes a cantora chilena Mon Laferte e a comediante Paola Molina. Há outro grupo com contas com mais de um milhão de seguidores, centenas de milhares de comentários e retuits, como as dos futebolistas Claudio Bravo e Gary Medel, que apoiaram abertamente as mobilizações. Por último, há um quinto grupo que são os seguidores nacionais do governo e do político ultradireitista José Antonio Kast.

Também se assinala que vários dos grupos na Internet nos quais se organizam manifestações estão criados desde o estrangeiro e que neles se estimulam os protestos. 

Segundo La Tercera, nenhum dos antecedentes vertidos nas 112 páginas reveste um caráter delitivo. 

A publicação que também desatou a burla e ironias nas redes sociais, foi defendida pela ministra Karla Rubilar, porta-voz governamental que insistiu em que muito do incentivo aos protesto social violento veio de fora do Chile”, segundo declarou um programa de televisão. 

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Aldo Anfossi

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