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Imprensa: Método dos anos 30 para alienar

Amaro Augusto Dornelles

Tradução:

Biografia de Getúlio mostra como imprensa paulista inventava fatos para induzir povo a lutar pelos interesses dos cafeicultores. Sem marco regulatório país segue cada vez mais refém do baronato da informação.

Amaro Augusto Dornelles*

Amaro Dornelles Perfil Diálogos Do SulNo meio de qualquer conversa ou discussão sobre política vira e mexe aparece alguém para dizer: “O brasileiro não conhece sua história”. A locução funciona como um código subliminar, capaz de inspirar uma avalanche de exemplos da futilidade e alienação do povo brasileiro.

É como se todos passassem a arrancar a casca de uma velha ferida – o complexo de vira-lata – na definição do ‘filósofo’ Nélson Rodrigues. Não raro aparece alguém para defender que “está na hora de entregar tudo para os estadunidenses, eles sabem fazer as coisas direito” (vide Iraque, Afeganistão, Vietnã…).
Getúlio 1930_1945 Do governo provisório à ditadura do Estado NovoNo que depender do que registra a imprensa brasileira – inclusive na história oficial– cada vez mais o brasileiro será alienado de seus reais interesses, em benefício dos lucros do empresariado do setor, assim como de qualquer anunciante/investidor. Como vem acontecendo sistematicamente, nesta última eleição os principais veículos da mídia nativa mostraram mais uma vez não ter limites para manipular e distorcer a informação no mais deslavado proveito próprio.

Estilo Globo,Veja & Cia

Mas quem imagina que tais práticas representem o fundo do poço ou alguma novidade está enganado. Esta história vem de muito mais longe do que poderia se imaginar. Como o avanço da tecnologia e a evolução da pesquisa histórica, hoje é possível constatar que tal “modus operandi” nasceu praticamente junto com a própria imprensa.
A biografia sobre Getúlio Vargas, escrita pelo jornalista Lira Neto, por exemplo, oferece um retrato do comportamento, da imprensa brasileira*, diluído ao longo dos três volumes que compõem a obra. No segundo tomo – “Getúlio 1930 – 1945, Do governo provisório à Ditadura do Estado Novo” – a partir de farta documentação, o autor mostra como a imprensa paulista ignorou a realidade para motivar e induzir leitores a acreditar em fatos que jamais aconteceram. Tudo ao melhor estilo Globo, Veja & Cia 2014.
A biografia consumiu cinco anos de dedicação exclusiva do autor. Metodicamente, ele pesquisou e organizou fotos, filmes, arquivos sonoros, charges, cartazes, panfletos, cópias e recordes de jornais e revistas, bilhetes, telegramas, memorandos, ofícios, inquéritos policiais militares, anais parlamentares, processos judiciais, teses acadêmicas e livros para erigir sua obra. Lira Neto portou-se como todo o jornalista que honre a profissão: foi isento, apresentando e comprovando os tatos, mas deixando ao leitor a liberdade de interpretar e julgar.

Antes do primeiro tiro

“Para o bem ou para o mal, Getúlio Vargas é o personagem político mais importante da história do Brasil” repete o autor a cada entrevista, deixando clara sua isenção em relação ao biografado.
O capitulo “Uma notícia se espalha em São Paulo: o ditador fugiu do palácio (1.932)” bem esclarece o comportamento da imprensa oligarquica. Na condição de chefe do governo provisório (1930 – 1934) Vargas não conseguia emplacar um interventor que satisfizesse a elite (barões do café) paulista. Em nome da reconstitucionalização do país, o baronato cafeeiro insuflava e financiava a contrarrevolução. Lembre-se que a revolução de 30 reuniu quase todo o país contra as fraudes escancaradas que (des)caracterizavam as eleições na chamada Velha República.
Antes mesmo do primeiro tiro ser disparado por qualquer uma das partes, a Paulicéia foi acordada com notícias promissoras para os rebeldes, vindas da capital Federal: Vargas fugira do Palácio do Catete. Ninguém sabia o paradeiro dele. O estado de guerra tomava conta das principais ruas do Rio desde a tarde de primeiro de agosto. Informes davam conta de que ministros igualmente haviam desertado, buscando asilo em embaixadas.

Caçada humana

A derrocada final do governo Vargas teria se originado de uma simples passeata estudantil pela Constituição, reprimida ferozmente pela polícia do regime. Comentava-se que centenas de manifestantes teriam sido pisoteados pela cavalaria do Distrito Federal. A informação era de que muito sangue inocente teria sido derramado. Mas não se conhecia o número exato de feridos, muito menos o de mortos.
Segundo Lira Neto, sem dispor de meios para buscar informações, os jornais paulistas “deduziam” que a violência contra os estudantes indignara a opinião pública. E se achavam no direito de informar aos leitores que a situação na capital Federal era caótica. Segundo aquele “esforço de reportagem” os protestos se alastravam, incontroláveis, pela cidade. Bondes e automóveis oficiais eram virados com as rodas para cima nas mais importantes avenidas da capital. Repartições públicas eram depredadas, incêndios faziam virar cinzas quarteirões inteiros.
Nas ruas, o povo desafiava a barbárie dos brucutus fardados, ao som de “lincha, lincha”. A turba promovia uma caçada humana a João Alberto, nomeado em abril chefe de Polícia do Distrito Federa por Getúlio Vargas. O Diário de São Paulo não deixou por menos: “A Avenida Rio Branco está em pé de guerra. A polícia ataca o povo com fuzis e bombas lacrimogêneas. Senhoras, das janelas, aclamam delirantemente os institucionalistas”.

Mentira grossa

Folha da Manhã (hoje de S. Paulo) e o Estado de S. Paulo preferiram abrir em primeira página o ultimato conjunto dos generais Bertoldo Klinger e Isidoro Dias Lopes, enviado por radiograma ao Catete horas antes da suposta fuga de Getúlio Vargas:
– Senhor Getúlio Vargas, mobilizais as últimas reservas de vosso patriotismo de brasileiro, de vosso pundonor de criatura humana e cumpri vosso único dever que pode a pátria esperar de vós. Rompei o cerco em que vos prendeis falsos amigos, mesmos aproveitadores pessoais do prolongamento do flagelo nacional que representa o vosso pendurar no poder. Restituí este poder aos chefes militares…
O radiograma existiu e o teor era este mesmo. Mas o resto era lorota. O Rio de Janeiro continuava lindo e na mais completa paz. Ironia da natureza: enquanto paulistas imaginavam a velhacap em chamas, a cidade era castigada por uma tromba d’água de proporções bíblicas. Vendavais e aguaceiro haviam arrancado árvores, derrubado postes e fiação, além de levar de arrasto telhados.

Rádio: a derradeira trincheira

Descontando os prejuízos provocados pela tormenta, a vida seguia normal na capital Federal. Manifestações pontuais contra o governo aconteciam em pontos isolados, sem qualquer perturbação da ordem pública. O ministério continuava o mesmo, todos exerciam suas funções diariamente. O general Góes Monteiro continuava à frente das tropas legalistas no vale do Paraíba, apertando o torniquete contra os rebelados, enquanto Valdomiro Lima acertava os detalhes finais do ataque a Buriti, a apenas 250 quilômetros da capital paulista.
Getúlio estava mais forte do que nunca. Mas os revezes de São Paulo no campo de batalha não inibiram o ufanismo das transmissões radiofônicas. As emissoras bandeirantes chegaram a anunciar que os “Quatorze de pés no chão”- batalhão de homens de São Borja (RS) – fora dizimado pelas tropas constitucionalistas. Lutero Vargas, filho de Getúlio, estaria prisioneiro e mantido refém.
Para Lira Neto, existia um evidente descompasso entre a realidade objetiva dos fatos e a versão que os constitucionalistas faziam questão de passar para a população, já sitiada pelas forças federais: “O rádio, desde o início um poderoso instrumento de mobilização popular nas mãos dos insurgentes, passara a ser a derradeira trincheira dos paulistas. Só mesmo as ondas magnéticas para furar a solidez do bloqueio militar imposto pelo Governo provisório aos rebeldes”.

Voraz consumidor

Tudo isto aconteceu no longínquo 1932, quando a imprensa ainda engatinhava no pais. Como dizem os antigos, povo que não conhece sua história tende a repetir seus erros.
O que se vê é o avanço tecnológico sendo aproveitado para aumentar a capacidade de manipulação e alienação da mídia sobre a sociedade. Ao invés de garantir cada vez mais confiabilidade à informação, a inovação é utilizada para engambelar a massa e vender gato por lebre, transformando o cidadão em voraz consumidor de ideias e produtos.
Mas será que o ‘populacho’ não tem direito de acesso a informação (fide) digna? É direito divino do dono do negócio contar a versão que lhe convier dos fatos, como fica ainda mais claro a cada eleição? Há que diga que não.
O direito à informação é parte dos direitos humanos e o cidadão deve lutar por eles. Por estas e por outras, cada vez que alguém ousa falar em regular a comunicação no Brasil começam a espocar editoriais e artigos histéricos em defesa do que eles ousam chamar liberdade de imprensa.
*Amaro Dornelles é colaborador de Diálogos do Sul

Serviço
“Getúlio 1930 – 1945: Do governo provisório à ditadura do Estado Novo”
Autor: Lira Neto
Companhia das Letras
Formato: 16 x 23
Lançamento: 1/8/2013
Custo: C$ 52,50 e R$ 29,90 ebook


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Amaro Augusto Dornelles

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