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Incoerente: EUA promovem "valores democráticos" para outros países, mas são líder mundial em armas e tiroteio em massa

Falando de democracia, seguem-se impulsionando medidas para suprimir o voto em múltiplos estados, incluindo esta semana com uma das mais restritivas no Texas
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Todos os dias o governo dos Estados Unidos afirma que deseja ser líder do mundo para guiar o planeta de acordo com seus “valores democráticos”, e frequentemente denuncia e ameaça aqueles países que considera que não os compartilham, mas a mensagem cotidiana estadunidense entre palavras e fatos não é, digamos, coerente e às vezes é incompreensível.

Mesmo sem fazer uma ampla revisão na história dos Estados Unidos, a contradição constante entre esses “valores” na retórica oficial e nos fatos – um país onde escravocratas falavam eloquentemente sobre a igualdade e a liberdade, onde se buscou destruir as civilizações indígenas, a invasão de outros países, as constantes intervenções e guerras que marcam quase toda a sua história e ainda mais, a repressão aos seus dissidentes e de movimentos democratizantes, e mais recentemente a experiência com o projeto neofascista – se manifesta todos os dias, inclusive ao longo de apenas a última semana.

No fim da semana passada os republicanos no Senado conseguiram derrotar a iniciativa dos democratas para a criação de uma comissão independente para investigar a intentona de golpe de 6 de janeiro e com isso, buscar não deixar impune o que alguns democratas afirmam que foi o ataque mais perigoso havido contra a democracia estadunidense. 

Muitos republicanos respondem que a verdadeira ameaça à democracia são os que impulsionam o “socialismo” como o presidente Biden e seus aliados. Aparentemente, as ameaças à democracia são bipartidárias.

Falando de democracia, seguem-se impulsionando medidas para suprimir o voto em múltiplos estados, incluindo esta semana com uma das mais restritivas no Texas. Todas são promovidas por políticos republicanos e quase todas são justificadas com a “defesa da democracia”, alegando que Trump perdeu por uma fraude massiva – algo de que não há nem a mínima evidência até hoje (nem em estados controlados por republicanos). Pelo menos 14 estados já aprovaram leis que buscam impor novas restrições sobre o voto com o objetivo de suprimir sobretudo o voto minoritário (afro-estadunidense e latino em particular). Foram elaborados uns 400 projetos de lei deste tipo no nível nacional. O presidente Biden qualificou a medida no Texas como “um assalto sobre a democracia”.

Enquanto isso, no caso de os valores democráticos não serem suficientes, os Estados Unidos seguem sendo líder mundial em armas e tiroteios em massa. Os estadunidenses estão comprando mais armas do que antes, reportou o New York Times. Isso no país com a população já mais armada do planeta. Segundo algumas sondagens, 39% dos lares estadunidenses possuem armas de fogo.

Falando de democracia, seguem-se impulsionando medidas para suprimir o voto em múltiplos estados, incluindo esta semana com uma das mais restritivas no Texas

Sean Valentine via Pexels
Todos os dias o governo dos Estados Unidos afirma que deseja ser líder do mundo para guiar o planeta de acordo com seus “valores democrático

Neste fim de semana, duas pessoas foram assassinadas e mais de 20 feridas em Miami quando três pessoas saíram de uma caminhonete com rifles de assalto e pistolas e dispararam de maneira indiscriminada contra pessoas congregadas nas proximidades de um salão de festas.

Poucos dias antes, um homem chegou ao seu local de trabalho em San José, California e matou oito. São apenas os exemplos mais recentes de uma incessante violência com armas de fogo neste país.

Justamente no meio de tudo isso, o governo do Texas anulou o requisito de se obter uma licença para portar de maneira oculta armas de fogo – não está sozinho, outros 19 estados já fizeram o mesmo.

Tudo isto não parece limitar o entusiasmo oficial para proclamar repetidamente que os Estados Unidos oferecem “liderança” mundial em promover “nossos valores de liberdade, democracia e respeito pelos direitos humanos”, e até oferece “expor” os que são convidados a participar de programas de educação, inclusive a militar, “à custa dos Estados Unidos” como um grande privilégio (tal como se escreveu mais recentemente na justificativa do orçamento para o Departamento de Estado).

Talvez os Estados Unidos deveriam pensar em solicitar assistência desde o exterior para apoiar a defesa de seus “valores democráticos” em sua própria terra.

The Temptations. Ball of Confusion.


Green Day. Holiday.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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