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Internet: vilã das relações interpessoais ou bâlsamo da conexão em tempos de pandemia mundial?

Nestes tempos, a solidão, a tristeza, a sensação de impotência deixam marcas no mais íntimo do ser humano. Nosso impulso natural é se refugiar em outras pessoas
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul
Cidade da Guatemala

Tradução:

Este século da tecnologia deixou plasmada, mais do que antes, a vacuidade de certas relações humanas. Nas duas últimas décadas e graças ao mundo digital – esse universo tão próximo e alheio – impôs-se os costumes de obviar muitos passos indispensáveis antes de estreitar laços de amizade ou relações sentimentais com aqueles com quem não se deu um encontro cara a cara. 

Esta debilidade no estabelecimento de vínculos afetivos ou sociais, com o transcurso do tempo, revela os vazios implícitos nessa bolha idealizada, formada a partir de sinais difíceis de comprovar e os quais, em muitos casos, só refletem carências pessoais.


As relações humanas são complexas e suscetíveis de causar autênticas catástrofes na autoestima e na visão de nossa transcendência e nosso lugar como membros da comunidade.

Este é um motivo contundente para começar a passar pela peneira da razão muitos dos atos — às vezes totalmente irracionais — que impulsionam a buscar em outros esse material íntimo capaz de rechear vazios existenciais. 

Com a escusa da solidão, inúmeras pessoas se aventaram em becos criados ad hoc nos quais existe sempre o risco de perder de vista qual é o lugar que corresponde ocupar nestas esferas. 

Entre redes sociais e sites de encontro, hoje mais procurados que nunca devido ao isolamento social, costuma haver armadilhas dolorosas para aqueles que não alcançam a descobrir neles a verdadeira estrutura material e lucrativa própria de todo empreendimento digital, e onde a mentira é o elemento chave. 

Nestes tempos, a solidão, a tristeza, a sensação de impotência deixam marcas no mais íntimo do ser humano. Nosso impulso natural é se refugiar em outras pessoas

Pixabay
As relações humanas são complexas e suscetíveis de causar autênticas catástrofes na autoestima

A autêntica riqueza deste universo comunicacional, no entanto, existe. Além dos rincões escuros, há grandes avenidas cheias de possibilidade e algumas dessas permitem desfrutar de contatos enriquecedores com seres humanos de comprovado valor. 

O truque é saber como identificá-las e não se perder em um tráfico perigoso por sua opacidade. Isso está especialmente indicado para crianças e adolescentes conectados ao mundo etéreo da rede, carentes de pontos de referência e de critérios para se proteger dos riscos. 

Entretanto, também há adultos caem nessa busca de satisfação emocional e social, que acabam perdendo de vista a importância de aplicar filtros protetores. 

Nestes tempos, a solidão, a tristeza, a sensação de impotência e de perda diante das adversidades deixam marcas no mais íntimo do ser humano. Então seu impulso natural é se refugiar em outras pessoas com desafios similares e, desse modo, encontrar um laço de empatia. esta busca, no entanto, reveste riscos e decepções com o potencial de tornar mais profundo o isolamento e detonar crises emocionais especialmente poderosas. 

Para evitar isso, é indispensável reconstruir a base da autoestima, através de um processo íntimo e constante, uma valorização de nossa essência capaz de blindar-nos diante das inevitáveis agressões do entorno. 

O mundo digital não é bom nem mau por natureza. É um reflexo do mundo concreto com suas verdades e falsidades, com suas vantagens e riscos. 

Aprender a navegar é um exercício complicado, que requer habilidades novas, sobretudo quando se apresenta como um recurso inevitável de sobrevivência. 

Por isso, é indispensável aprender a ler o universo online, a distinguir suas armadilhas e evitar seus becos escuros, mas também reconhecer seus enormes benefícios na construção de vínculos sociais e afetivos capazes de ajudar a enfrentar os novos desafios. Este é o grande desafio dos anos vindouros. 

O universo digital é um reflexo da realidade, com suas fortalezas e fraquezas. 

*Colaboradora de Diálogos do Sul da cidade da Guatemala 

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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