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Invasão ao Capitólio: Para policiais, conduta de Trump pôs em perigo a vida de todos os membros do Congresso

O relato dramático de quatro seguranças que testemunharam o assalto marcou o início das tarefas de uma comissão especial estabelecida para investigar os acontecimentos desse dia
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Policiais federais encarregados da segurança do Congresso descreveram a forma como suas vidas e as dos legisladores que protegiam estiveram em risco durante o assalto ao Capitólio por forças instigadas por Donald Trump para tentar interromper com violência a transferência de poder político nos Estados Unidos no passado 6 de janeiro. 

O dramático testemunho de quatro policiais do Capitólio – força federal autônoma – e vídeos (alguns nunca vistos antes) do que alguns chamam de “insurreição” e outros qualificam como uma tentativa de golpe de Estado, marcou o início das tarefas de uma comissão especial estabelecida pela câmara baixa para investigar os acontecimentos desse dia, e que com a exceção de dois legisladores, foi boicotada por ordens da liderança republicana.

Às vezes com lágrimas de ira e de tristeza – e assombro ao que políticos republicanos descartam como um incidente irrelevante ou exagerado – os quatro policiais contaram como foram atacados fisicamente ao ponto de pensar que acabariam mortos e, insultados por pessoas que portavam bandeiras estadunidenses, cartazes e camisetas com o nome do presidente e até faixas cristãs.

O sargento Aquilino Gonell – imigrante dominicano e veterano da guerra do Iraque – caracterizou a violência como “uma batalha medieval” e disse que houve um momento em que pensou que aquele era o seu fim.

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Neste 6 de janeiro, recordou, “tinha mais medo trabalhando no Capitólio que durante todo o tempo no Iraque”. Reportou que os atacantes o chamaram de “traidor” e que deveria ser “executado”. Todos repetiam que Trump os havia enviado, sublinhou.

Perguntado por legisladores sobre sua opinião sobre Trump haver declarado que “amava” os manifestantes, Gonell comentou: “ele ajudou a criar essa monstruosidade… Foi uma tentativa de Golpe de Estado. Se tivesse ocorrido em outro país, os Estados Unidos teriam enviado ajuda”. 

“Não estamos pedindo medalhas e reconhecimento, só queremos justiça e uma prestação de contas”, concluiu. 

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Wikimedia Commons
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Agressões físicas, ameaças e insultos racistas

O oficial Michael Fanone -que sofreu uma parada cardíaca e uma ferida cerebral traumática nesse dia, recordou que foi arrastado da primeira linha de defesa, golpeado, atacado por uma arma de choque repetidamente e escutou quando alguém sugeriu “matá-lo com sua própria pistola”. Recordou que lhe gritaram que era “um traidor a meu país” por defender o Capitólio.

Fanone comentou que “o que faz tudo isso mais difícil e mais doloroso é saber que tantos dos meus concidadãos – incluindo muita gente pela qual arrisquei minha vida para defender, estão minimizando ou até negando explicitamente o que aconteceu”.

Golpeou com ira a mesa na audiência ao acusar os legisladores que minimizaram o ataque desse dia: “traíram seu juramento” e são “uma desgraça”.

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Seu colega Daniel Hodges recordou que lhe gritavam “traidor” e um atacante o ameaçou – “morrerás sobre teus joelhos” – enquanto lhe dava pontapés e depois foi apanhado por uma porta enquanto era golpeado por aqueles que chamou “terroristas” – os vídeos desse momento são já famosos com ele gritando em agonia.

Contou que os atacantes “eram um mar de gente que portavam bandeiras… bandeiras estadunidenses e de Trump … uma cristã e outra faixa que dizia: “Jesus é meu salvador, Trump é meu presidente”.

O oficial Harry Dunne declarou sobre os insultos racistas (é afro-estadunidense), incluindo o uso de palavras que nunca havia escutado em toda a sua carreira como policial. “Como pode ser isto os Estados Unidos?” perguntou. 

Transmissão do poder não foi pacífica

O presidente da comissão legislativa, o deputado democrata Bennie Thompson, declarou que apesar das instituições democráticas terem sobrevivido e que Joe Biden tenha sido instalado como presidente legitimamente eleito, “uma transmissão pacífica do poder não ocorreu este ano”. Não ocorreu.

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“Pensem nisso. Uma turba violenta foi apontada para o Capitólio e lhes disseram que realizassem um julgamento por combate”.

Apenas dois republicanos

Só dois legisladores republicanos se atreveram a formar parte da comissão, depois que a liderança freou a tentativa de conformar uma comissão bipartidária, e hoje de novo qualificaram o processo como “uma farsa”.  

Liz Cheney, um dos dois, declarou que a pergunta fundamental aqui era: “Nos apegaremos ao império da lei?” nos Estados Unidos. “Se aqueles responsáveis não são obrigados a prestar contas, se o Congresso não age responsavelmente, isto continuará como um câncer sobre nossa república constitucional… A transferência pacífica do poder está no centro do nosso sistema democrático”. 

Mais de 550 pessoas foram formalmente acusadas por atos criminosos federais relacionados com o assalto ao Capitólio em 6 de janeiro. Na semana passada, o primeiro foi condenado à prisão e não estará sozinho. 

Ainda se investiga, pela mesma comissão, a cumplicidade ou mais de alguns legisladores republicanos e até do ex-presidente nesse ataque violento sem precedentes contra o símbolo mais emblemático da democracia americana: o Capitólio.

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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