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Irmandade Muçulmana resiste encurralada no Egito

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

San Kimball*

Manifestantes egípcios se preparam para resistir à repressão militar. Foto: Sam Kimball/IPS
Manifestantes egípcios se preparam para resistir à repressão militar. Foto: Sam Kimball/IPS

O Sol está a ponto de se pôr e ouve-se o chamado para as orações na mesquita Mostafa Mahmoud, no bairro Mohadiseen da capital egípcia, mas as ruas estão praticamente vazias. Há apenas uns poucos soldados ao lado de tanques de guerra. Poucos dias atrás, a praça e as ruas em torno da mesquita eram palco de uma maciça manifestação de protesto por parte de simpatizantes do deposto presidente Mohammad Morsi e da organização Irmandade Muçulmana.

O protesto foi violentamente reprimido pelas forças de segurança egípcias, deixando pelo menos 600 mortos e milhares de feridos. Desde então, várias centenas de líderes da Irmandade Muçulmana em todo o país foram presos, acusados de vandalismo e de incitação à violência. O chamado da Irmandade Muçulmana para ocupar as ruas na “sexta-feira dos mártires”, dia 23, para protestar contra a violência só conseguiu convocar umas poucas centenas de manifestantes no Cairo e em algumas províncias. As mortes e a dura repressão colocam em xeque o futuro político do movimento.

De pé, ao lado da bagunçada e poeirenta mesquita de Assad bin Al Furat, no Cairo, comumente usada nas últimas semanas como ponto de encontro para marchas a favor de Morsi, o caminhoneiro Amr Faraghani Numeri comenta com outros homens a situação da Irmandade Muçulmana. “O futuro da Ikhwan (Irmandade) acabou. É o fim”, disse Numeri, acrescentando que “isto não significa que o Islã esteja acabado. A Irmandade não representa os muçulmanos. A organização não tem futuro porque as pessoas não a querem”.

Numeri reflete o pensamento de muitos egípcios, o que representa um novo desafio para a Irmandade Muçulmana. Segundo Adel Abdel Ghafar, erudito do Centro para Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Nacional Australiana, “a Irmandade Muçulmana enfrenta uma dura prova. É um período de séria adversidade”. Para ele, nunca antes esse movimento islâmico de 85 anos de história havia alcançado tão grande influência no Egito para então perdê-la de um dia para outro.

Porém, Isaam Shahid, ex-membro do Conselho da Shura (câmara baixa do parlamento) pelo Partido da Liberdade e Justiça (PLJ), da Irmandade Muçulmana, parece não se preocupar. “Apesar da instabilidade, tenho confiança de que a situação não continuará assim por muito tempo”, declarou, se referindo à violenta repressão militar contra os membros de seu partido. “As pessoas sempre manterão seu protesto pacífico contra os militares”, acrescentou.

Shahid afirmou que as últimas ameaças de prescrever a Irmandade Muçulmana são inofensivas. “Houve conversações entre especialistas legais que trabalharam para emendar a Constituição, aprovada em 2012, sobre uma cláusula que proíbe a criação de partidos baseados em identidades religiosas e pela qual o PLJ poderia ser proibido. Porém, isso não vai concorrer. O PLJ é um partido de todos os egípcios”, enfatizou.

Por sua vez, Mohamed, que não quer dizer seu sobrenome, é membro da Irmandade Muçulmana e representante do sindicato de estudantes da Universidade Al Azhar, no Cairo. Ele acredita que o movimento, embora não chegue a ser proscrito, não poderá atuar tão livremente como fizera antes da derrubada de Morsi, no dia 3 de julho. “Não creio que o regime militar permita a presença da Irmandade Muçulmana no governo”, afirmou.

“Mas, a organização continuará pressionando para participar da vida pública. A organização voltará aos protestos pacíficos que realizou durante 30 anos durante o governo de Hosni Mubarak. Não tem outra opção”, ressaltou Mohamed. No entanto, reconheceu que as forças armadas do Egito limitarão a ação da Irmandade. “As forças do golpe jogaram abaixo a democracia e criaram a ‘tanquecracia’, por isso duvido que o PLJ possa participar das próximas eleições”, opinou. O governo interino, apoiado pelos militares, “logo realizará eleições que terão fachada democrática mas que no fundo serão puro engano”, ressaltou.

Mohamed Elmasry, professor assistente de jornalismo e comunicação de massa na American University do Cairo, destacou que “a Irmandade Muçulmana é uma organização com raízes profundas, pois conta com centenas de milhares de membros comprometidos. Tem sido parte integrante da sociedade egípcia por mais de 80 anos. Se for proscrito e obrigado a atuar na clandestinidade, vai se adequar”, enfatizou. “No final, agiu dessa forma a maior parte de sua existência, e funcionou como uma organização religiosa e de serviço social”, acrescentou.

Elmasry acredita que, devido à sua forte base na sociedade, a Irmandade Muçulmana ainda não está acabada. “Creio que lutará para voltar à luta política e, se o sistema egípcio lhe der outra oportunidade de participar de uma disputa livre e justa, não me surpreenderia se obtivesse um significativo triunfo”. Para Abdel Ghafar, “a Irmandade Muçulmana sempre será parte do processo político. No entanto, o desaparecimento de seus líderes levará seus simpatizantes para a clandestinidade. O sistema lhe fechou a porta. Agora esperam a oportunidade para reingressar”.

*IPS, do Cairo para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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