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Irresponsabilidade de lideranças políticas é mais perigosa que coronavírus nos EUA

Assim como no Brasil sob Bolsonaro, o governo dos Estados Unidos comandado por Trump compete com o Covid-19 sobre qual vírus causa mais dano para a saúde pública
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

A peste não é só o coronavírus, mas o manejo criminoso e negligente da crise por quase toda a classe política. Está mais do que documentado que se sabia das possibilidades terríveis de uma pandemia como esta e a cúpula política não disse nem fez o que devia.

O regime estadunidense – nos fatos, pelos números desnecessários de gente contagiada, gente que morre- agora compete com o coronavírus sobre qual é mais perigoso para a saúde pública.

Diante da irresponsabilidade do regime e de grande parte da cúpula política em torno ao desastre que estamos vivendo nos Estados Unidos, o temor – às vezes nutrido com alguns meios cobrindo essa nota vermelha massiva com uma tinta amarelada – torna-se mais contagioso que o coronavírus.  

Por causa das quarentenas parciais, há um silêncio ensurdecedor em grandes urbes só interrompido pelas sirenes de cada vez mais ambulâncias enquanto as pessoas compartilham histórias de horror, mas também de heroísmo, sobretudo dos trabalhadores da saúde que tentam fazer tudo para nos resgatar desta peste. 

Assim como no Brasil sob Bolsonaro, o governo dos Estados Unidos comandado por Trump compete com o Covid-19 sobre qual vírus causa mais dano para a saúde pública

Itamaraty.gov
Donald Trump e Jair Bolsonaro: modelos de irresponsabilidade

Não respirem, não toquem, quem está do lado pode ser o mensageiro da morte, esperem instruções das autoridades; não se mexam, não se mexam. Essa é a mensagem oficial incessante.

Mas rompendo esta inércia decretada, esta condição diária onde qualquer um – se não está capacitado para atender e salvar vidas – está condenado a ser testemunha ou vítima de tudo isto, algo reaparece com a primavera. 

Iniciativas de “ajuda mútua” – conceito de origem anarquista (Kropotkin, entre outros) depois misturado com correntes cristãs radicais e indígenas onde o apoio está organizado horizontalmente para beneficiar a todos os participantes – estão brotando  em diversas esquinas do país, e com isso floresce essa solidariedade que costuma aparecer ante eventos catastróficos para uma sociedade. São respostas coletivas baseadas na lição básica desta pandemia – o que fazem todos e cada um afeta a todos os demais.

Com isso, foram organizadas brigadas para fazer compras coletivas e distribuir à comunidade desde alimentos básicos a remédios, organizar transporte e alojamento. Essas redes, em grande medida organizadas por jovens com seus talentos digitais, estão em comunidades pobres em Nova York, Chicago, Los Angeles, Salt Lake City, Washington DC, Nashville, Las Vegas, Cleveland entre dezenas e centenas mais.

Muitos destes agrupamentos são recém nascidos diante desse desastre, mas outros são mais antigos, com longas histórias de autogestão autônoma que agora estão respondendo a mais outra crise, além de promover apoio mútuo dentro e entre comunidades. 

Como foi comentado em um fórum virtual esta semana no Highlander Center por participantes neste tipo de esforços tanto de agora como no passado, o conceito se baseia em “solidariedade, não caridade”, uma vez que a caridade resgata justamente as estruturas que contribuíram ao desastre em lugar de transformá-las para que não se repita esse tipo de crise. Se rechaça a ideia de que os especialistas, que costumam estar ou chegar de fora, são os que têm que resolver a situação, mas sim que os problemas e suas soluções têm que ser definidos pelos diretamente afetados.  Outra participante assinalou que se tem que rechaçar até o nome da medida oficial de “distanciamento social”, insistindo que o que se tem que fazer é guardar uma distância física, mas manter sobretudo a “solidariedade social”. Afirmaram que o objetivo é pensar em “como construir uma infraestrutura de cuidado comunitário” diante de um sistema capitalista ao que só interesse resgatar seus lucros em uma crise como esta.

Não são uma vacina, mas estas respostas – com a cada vez mais esplendorosa gama de expressões solidárias por artistas e outros trabalhadores culturais nestes momentos – são os antídotos vitais, convites a uma primavera. 

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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