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Jornal dos EUA mente para cobrar de Lula "gratidão" e política externa pró Casa Branca

Financial Times recentemente publicou reportagem em que deturpa acontecimentos para insinuar que Washington "salvou a democracia" do Brasil
Pedro Marin
Opera Revista Independente
São Paulo (SP)

Tradução:

O respeitado jornal londrino Financial Times saiu com a seguinte manchete há algumas semanas: “A discreta campanha dos EUA para defender as eleições no Brasil”. A reportagem, escrita por Michael Stott, Michael Pooler e Bryan Harris, trata de uma “campanha de pressão” realizada por autoridades estadunidenses ao longo do ano de 2022, no sentido de impedir que a tese de fraude nas eleições brasileiras daquele ano se desdobrasse em um golpe de Estado.

Traduzida e publicada na Folha de S. Paulo sob o título “EUA fizeram campanha para defender Brasil de possível golpe de Bolsonaro”, a matéria do Financial Times cita uma série de fontes do governo estadunidense que concordaram em falar das movimentações realizadas. A não ser pelas declarações de algumas das fontes, a reportagem não traz fatos novos, apenas os compila – embora essa campanha não tenha sido “amplamente noticiada”, como afirma o Financial Times, a ida de movimentos sociais a Washington antes das eleições foi reportada, e os meandros de algumas dessas movimentações já haviam sido revelados na Revista Piauí em abril.

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O que é grave é que esta matéria, sobre a ajuda dos EUA para “salvar a democracia” no Brasil, deturpe e confunda os fatos, incorra em mentiras e, ao fim e ao cabo, constitua ela mesma uma peça de “campanha de pressão” – neste caso não contra o golpismo, mas a favor dos interesses do governo dos Estados Unidos na política externa brasileira. Ironicamente, a defesa de Bolsonaro aparentemente considerou usar a publicação da reportagem como argumento para impedir a inelegibilidade do ex-presidente.

A primeira deturpação da reportagem consiste em apontar Bolsonaro como a fonte singular do golpismo – algo que está de acordo com a interpretação banal daqueles que, aqui no Brasil, às custas de buscar a justa punição ao ex-presidente, absolvem de antemão todo o seu entorno golpista, em especial aquele trajado de verde-oliva, bem como as suas bases entre o empresariado, particularmente no agronegócio.

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“Alguns generais ficaram incomodados com as tentativas de Bolsonaro de politizar uma instituição que procurava se manter alheia à política desde que devolvera o poder aos civis, em 1985, e estavam preocupados com os riscos de os militares violarem a Constituição”, diz a matéria em um trecho, que afirma, logo após: “O vice de Bolsonaro, Hamilton Mourão, era um deles.” Mourão, aquele que ameaçara no passado com “aproximações sucessivas”; Mourão, aquele que defendia o golpe de 1964 como uma forma de impedir que “a pátria fosse comunizada”; Mourão, aquele que se opunha radicalmente à Comissão da Verdade; Mourão, aquele que, na ativa, considerava que Dilma Rousseff colaborava com a “incompetência, má gestão e corrupção”; Mourão, aquele que fazia homenagens a Brilhante Ustra em quartéis; Mourão, aquele que considerava que as eleições de 2018 “poderiam não ocorrer” se Lula fosse candidato – este era o Mourão, o vice-presidente de Bolsonaro, que, dentre alguns outros generais, estava “preocupado” com a democracia no Brasil.

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A evidência na qual se assenta a afirmação do Financial Times? Uma curta frase que o atual senador teria dito num elevador: “[o ex-embaixador dos EUA no Brasil Thomas] Shannon se recorda de uma visita de Mourão a Nova York para um almoço privado com investidores em julho do ano passado, momento em que as tensões eram grandes. Depois de evitar responder a perguntas sobre os riscos de um golpe, reiterando confiança nas Forças Armadas e em seu compromisso com a democracia, Mourão entrou em um elevador para ir embora, e o ex-embaixador o acompanhou. Quando a porta estava se fechando, disse: ‘O senhor sabe que sua visita aqui é muito importante. Ouviu os receios dos presentes à mesa. Eu compartilho esses receios, e, francamente, estou muito preocupado.’ Mourão olhou para mim e disse: ‘Também estou’.”

Financial Times recentemente publicou reportagem em que deturpa acontecimentos para insinuar que Washington "salvou a democracia" do Brasil

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião com o Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden (Casa Branca, Washington, EUA)

Mentiras

A matéria reconhece que, apesar da campanha de pressão de funcionários norte-americanos, e apesar de um alto funcionário ter tido “a impressão de que as pessoas em torno de Bolsonaro o estavam encorajando a fazer a coisa certa”, “o perigo não havia passado”. Neste trecho, os jornalistas não incorrem só em deturpação, mas na mentira: “No dia 8 de janeiro, milhares de bolsonaristas lançaram uma insurreição em Brasília, invadindo o Congresso, o STF e o palácio presidencial, reivindicando uma intervenção militar.

Os militares intervieram em questão de horas, mas para reprimir os protestos. Mais de mil manifestantes foram detidos.” 

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Os militares não intervieram no dia 8 de janeiro, a não ser na frente do Quartel General de Brasília – não para reprimir os protestos (coisa que o Batalhão da Guarda Presidencial deveria ter feito e não fez), mas para dar guarida aos golpistas – como as Forças Armadas vinham fazendo desde novembro – e para impedir que eles fossem presos pelas tropas da Polícia Militar do Distrito Federal.

Por que o Financial Times, na semana em que o tema do golpismo no Brasil voltou à discussão em virtude das revelações da Revista Veja sobre os planos e conversas de Mauro Cid com outros militares, traz uma manchete tão estrondosa para uma matéria que de novo pouco revela, que deturpa a história recente do País e que, em ao menos um caso, mente?

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A resposta não exige teorias conspiratórias; está ao final da própria matéria: “Para o governo Biden, as relações com o Brasil melhoraram, mas ainda assim têm ocorrido atritos com o novo governo. Lula demonstrou pouco reconhecimento público da campanha dos EUA para proteger a eleição.[…] Em abril, ele levou uma grande delegação à China para uma visita de três dias, passando por duas cidades. Nessa visita, rejeitou as sanções impostas pelos EUA à empresa de tecnologia chinesa Huawei, criticou o apoio militar do Ocidente à Ucrânia e endossou a campanha de Pequim por alternativas ao dólar. […] ‘As pessoas aqui entendem que haverá divergências políticas’, diz [Thomas] Shannon. ‘Mas há um tom de raiva e ressentimento subjacente a tudo isso que realmente pegou as pessoas de surpresa… É como se ele [Lula] não soubesse ou não quisesse reconhecer o que fizemos’.”

Em resumo, a matéria ruidosa do jornal, baseada em declarações de autoridades estadunidenses e republicada nos meios nativos, consiste em uma cobrança do governo dos EUA de que o governo Lula tomasse mais em conta suas movimentações do ano passado em defesa das eleições quando planejasse sua política externa. Mas quem transaciona o “apoio à democracia”, por ele esperando recompensa, não revela, precisamente, sua natureza essencialmente antidemocrática?

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Maquiavel tem sido exaustivamente lembrado nestes dias, no contexto do motim do Grupo Wagner na Rússia, por suas clássicas lições sobre o uso de mercenários. Convém também lembrar as palavras do florentino sobre determinados tipos de “aliados”: “Essas armas podem ser úteis e boas para si mesmas, mas, para quem as chama, são quase sempre danosas; pois, quando perdem, és derrotado com elas e, quando vencem, aprisionam-te.”

Pedro Marin | Editor-chefe e fundador da Revista Opera. Foi correspondente na Venezuela pela mesma publicação, e articulista e correspondente internacional no Brasil pelo site Global Independent Analytics.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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