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Jornalismo investigativo ou puro denuncismo

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Paulo Cannabrava Filho*

p1f1-20151129-afp_fullscreenJornalismo investigativo é redundância. Toda reportagem bem feita é resultado de muita pesquisa, intensa busca em arquivos, entrevistas, apuração minuciosa dos fatos, principalmente denúncias, busca de novas fontes, o cuidado com as fontes, a busca incessante dos porquês.

Tudo permeado pelo estrito respeito à verdade e também aos direitos das pessoas. O cuidado com a forma é imposto pelo respeito que o leitor merece.

Gabriel García Márquez soía dizer que a mais alta expressão na literatura é a reportagem.

Por que será que inventaram essa categoria? Nos bons tempos quem fazia investigação era a polícia, os detectives particulares, os agentes de inteligência, pessoas que os repórteres usavam como fontes em suas reportagens.
Também se poderia dizer que pesquisa e investigação são expressões de um mesmo conteúdo. E o são. Porém, no uso consagrou-se que pesquisa é a que faz o acadêmico, e investigação a que faz o agente policial. O jornalista utiliza a ambos como fonte em sua reportagem.

Hoje a reportagem está dando lugar ao denuncismo mediático. Seria inapropriado chamar de jornalismo denuncista simplesmente porque deixa de ser jornalismo. Hoje, os meios de comunicação, escritos e eletrônicos, porta-vozes do pensamento único imposto pela ditadura do capital financeiro, substituíram a ética pelo afã de lucro, sacrificaram a verdade em pró da sua vontade, a vontade do capital. Tudo o que contraria o pensamento único deve ser combatido, execrado, exterminado. Atuando também como partido político contaminaram a sociedade inteira com seu comportamento aético.

Alguns exemplos

paris repressãoA revista Época, da Globo, da semana de 10 de janeiro, dedica várias páginas a denunciar que a Universidade Federal do Rio de Janeiro contratou um terrorista e que a Dilma paga com nosso dinheiro um muçulmano que acabar com a humanidade. Arrasaram com as mais intrigantes acusações com a carreira do professor de física nuclear Adléne Hicheur.

É certo que ele fora excluído do centro de pesquisa na Suíça e que esteve preso na França. Mas também é certo que foi solto porque não se conseguiu provar coisa alguma contra o cidadão. Veio para o Brasil para escapar da insânia persecutória que graça na Europa. Prestou concurso e por mérito estava ensinando na UFRJ matéria de que temos poucos especialistas.

O certo é que Universidade não pode contrariar a Constituição que proíbe discriminar por qualquer razão, seja ideológica, religiosa, de gênero. Alem disso, como o Brasil não está em guerra de conquista não tem porque temer represaria dos radicais islâmicos. O errado é que ministros do governo digam que deveriam ter investigado antes de contratar. Que é isso? De novo o AI-5?

Como a mídia pauta a mídia, nos dias seguintes todos os meios transformaram o fato num escândalo mediático.

Arrasaram com o professor que seguramente nem tem como reagir. Nenhuma voz em defesa. O que leva uma redação a se prestar a esse tipo de linchamento? O que está por traz disso? Terá sido resultado de uma reportagem pautada pela própria revista? Ou terá sido pautada por um serviço de inteligência ou por uma embaixada ou consulado?

Na semana seguinte, editorial da mesma Época, analisa os fatos denunciados e deixa claro as intenções. Diz que a contratação de Adléne Hicheur mostra que o Brasil está mal aparelhado para enfrentar situações de terrorismo e pede uma lei anti-terror mais eficaz da que está em tramitação no Congresso. Diz que o Brasil não está preparado para proteger do terrorismo os Jogos Olímpicos que acontece no Rio de Janeiro ainda este ano.

Se o país não está preparado e há risco à segurança durante os Jogos Olímpicos, logo virão as ofertas de prestação de serviço das empresas de segurança privada, da prestação de assessoria às nossas polícias por técnicos dos serviços de inteligência dos países amigos…. muy amigos.

Fica claro que a revista está fazendo o jogo que interessa a países como Estados Unidos, França e principalmente Israel.

Editorial como esse é típico dos materiais distribuídos a “jornalistas” sem o mínimo de senso ético. Isso se tornou comum no Brasil nos tempos em que o general Golbery do Couto e Silva dirigia o IPES e o IBAD. Entregavam tudo bem feito nas redações: editorais, reportagens, filmes documentários e o público via como se fosse material jornalístico.

Para eles, o Brasil deve não só fazer uma lei anti-terrorismo como se quadrar às diretrizes do Grupo de Ação Financeira contra Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo. O que é isso? Querem o Brasil na paranóia global promovida pelo presidente Barack Obama.

Para isso o Brasil precisa armar e aperfeiçoar suas forças de segurança (leia-se polícias). Bingo!

obamaEssa paranóia global, resultado da estratégia de segurança de Obama, tem como resultado a militarização e padronização da segurança pública por toda parte.

Veja-se, por exemplo, como o governo do Estado de São Paulo enfrenta manifestação de jovens que protestam contra aumento das tarifas de transporte público. São milhares de soldados vestidos como se para a guerra nas estrelas, armados com pistolas e armas longas, com profusão ilimitada de bombas de gás y de efeito moral, acompanhados de tanques e carros de transporte. Compare com o que ocorreu em Paris contra os protestos populares. É o mesmo que se vê em Nova York ou contra os palestinos. Ação policial ou tropa de ocupação? Outra pergunta que não deve ficar sem resposta: quem vende essas armas e as bombas? Quem vende serviços de segurança privada? Quem fabrica tanques e carros de combate para essa guerra urbana?

Toda essa ação é concertada. Outros editoriais dizem que o petróleo já não é estratégico, que o preço do óleo está muito baixo e portanto não se justifica manter a Petrobras. Ao mesmo tempo que se preparam para combate ao terrorismo pregam o fim do modelo de exploração do pré sal que obriga a participação da estatal; querem também o fim da exigência de que os equipamentos de perfuração e exploração do petróleo sejam fabricados no país. E, como se não bastasse, uma campanha ignominiosa contra a presidenta Dilma Rousseff, posto que não têm nada que a denigra.

A doutrina Obama tem estratégia preventiva. As guardas pretorianas devem estar bem equipadas e melhor preparadas para garantir fidelidade ao Império. E não há que descuidar dos meios de comunicação, pois sem eles a estratégia não se expande só com as armas.

*Jornalista editor de Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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