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Jornalista denuncia tortura e detenção ilegal após apoiar refugiados do campo de Calais, na França

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

“Passei mais de 40 horas de prisão provisória em uma cela de menos de quatro metros quadrados, em condições terríveis, humilhantes e indignas da condição humana: insalubridade extrema (sangue e excrementos que sujam as paredes e o chão), privação de sono (luz acesa 24 horas), proibição de beber água durante várias horas”. O relato é de Mikaël Doulson, jornalista e militante que foi detido em 1º de outubro no acampamento de Calais, na França, por participar de “manifestação ilegal com ocultação do rosto”. Ele pede ajuda e solidariedade internacional para convencer a Justiça a retirar as queixas contra ele no julgamento que será realizado em 7 de novembro.
A Justiça da França negou o pedido de grupos de ajuda humanitária e o campo de Calais, conhecido como “A Selva”, que começou a ser desmontado nesta segunda-feira (24/10). As mais de sete mil pessoas que estão no local serão realocadas na França ou deportadas. Os refugiados esperam uma oportunidade de seguir viagem, em sua maior parte rumo ao Reino Unido.
Mikaël Doulson esteve em um dos protestos contra o fechamento do campo e deverá ser julgado em 7 de novembro em Boulogne-sur-Mer, no norte da França.
Leia o relato feito pelo jornalista em um pedido de solidariedade internacional para sua causa:

Me chamo Mikaël Doulson, sou jornalista em um meio de comunicação associativo.
No sábado 1º de outubro, às 17h15 a polícia francesa em Calais me prendeu em uma concentração de apoio aos migrantes que vivem no acampamento conhecido como “a selva”, que será desmantelado nos próximos dias.
Fui acusado de ‘participação em uma manifestação ilegal, com ocultação do rosto’.
Tudo ocorreu quando simplesmente fui a Calais para animar umas oficinas de percussão com os imigrantes e escrever um artigo sobre a manifestação, que ignorava não ter sido autorizada. Além disso, se efetivamente cobri a boca e o nariz com meu lenço era para me proteger dos efeitos deletérios dos gases lacrimogêneos utilizados massivamente pela polícia nesse dia, como se pode ver no vídeo abaixo.
O vídeo da minha detenção prova minha atitude inteiramente pacifista, não violenta e minha intenção festiva, sem intenção de perturbar a ordem pública nem de ameaçar bens ou pessoas (minuto 14).

Esse vídeo e muitos outros mostram o uso desproporcional da força (cassetetes, bombas de efeito moral, gases lacrimogêneos, balas de borracha) contra uma população fortemente discriminada, vulnerável e excluída.
Numerosos casos de violência policial foram registrados pela associação Calais Migrant Solidarity:
Passei mais de 40 horas de prisão provisória em uma cela de menos de quatro metros quadrados, em condições terríveis, humilhantes e indignas da condição humana: insalubridade extrema (sangue e excrementos que sujam as paredes e o chão), privação de sono (luz acesa 24 horas), proibição de beber água durante várias horas, muitas práticas que constituem tortura psicológica, destinada a quebrar a resistência psicológica de prisioneiros antes do depoimento. Eu também foi insultado (quando educadamente pediu algo para beber, me disseram “não, eu que decidido güevón!”), o que constitui de outra maneira uma violação do Código de Ética da polícia nacional.
Devo lembrar que a França é regularmente condenada pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e outras instâncias internacionais de jurisdição europeia por maus-tratos de prisioneiros e pessoas detidas, e pelas condições de detenção, o que é contrário ao direito internacional (principalmente o artigo 3 da Convenção Europeia para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais).
Após a detenção provisória passei à apresentação imediata, como se eu fosse um criminoso perigoso. Eu pedi um adiamento do julgamento para dar tempo para preparar minha defesa com meu advogado, e, felizmente, fui colocado em liberdade até o dia do julgamento.
Portanto, o meu julgamento ocorrerá na segunda-feira, 7 de novembro de 2016, às 14h, no Tribunal de Grande Instância (TGI) de Boulogne-sur-Mer (Pas-de-Calais).
Neste contexto, eu convido a todos para vir à audiência pública, a me apoiar e, assim, apoiar a causa dos imigrantes e pessoas sem documentos. Porque este julgamento não é apenas meu julgamento, mas também de todas as pessoas que lutam para defender as liberdades fundamentais: liberdade de expressão, liberdade de movimento, liberdade de manifestação e de reunião, em suma, a liberdade de ter esperança, de se organizar e tentar construir juntos um mundo melhor.
Se você quer ajudar, agradeço se tiver 30 segundos do seu tempo para assinar esta petição para apoiar (é este mesmo texto) e se puder, disseminar amplamente no Twitter e Facebook.
Agradeço se puder espalhar esta mensagem em suas redes de militância, amigos, família, meios (alternativos ou não), etc. Para me apoiar, e pedir ao Procurador e ao Tribunal de Grande Instância de Boulogne-sur-Mer o abandono das acusações contra mim.
Caso queira me escrever, o e-mail é soutienamikael[arroba]riseup.net
Continuaremos nossa luta diária e não se esqueça da bela frase de Guy Bedos: “A liberdade só se desgasta quando não é usada”.
Muito obrigado, a luta continua

* Traduzido do espanhol por Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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