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Juca Ferreira | Golpe ou democracia?

Não é a primeira vez na história que figuras medíocres são levadas pelas circunstancias a cumprir um papel político relevante
Juca Ferreira
Diálogos do Sul Global
Brasília (DF)

Tradução:

Estamos a menos de cem dias das eleições e as pesquisas eleitorais estão invariavelmente a indicar a tendência de vitória do ex-presidente Lula. Em se confirmando, significa o fracasso do golpe do impeachment e que a retomada do caminho democrático no Brasil está no horizonte do possível. 

O país vive uma crise política, social e econômica profunda e a extrema direita está tentando desestabilizar o processo político e inviabilizar a consulta popular. O golpismo é uma doença crônica do país e a sociedade brasileira ainda não está devidamente; vacinada… 

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A disputa eleitoral vem acontecendo entremeada de ameaças de golpe, com a arregimentação antidemocrática para que as regras do jogo não sejam respeitadas.

Ameaças do próprio presidente, questionando as eleições e as urnas eletrônicas, deixando no ar a possibilidade de não aceitar o resultado, caso esse resultado confirme o favoritismo de Lula; generais querendo tutelar o país e chantageando, ameaçando entornar o caldo mais uma vez…  Ataques com drones e bombas caseiras contra manifestações e comícios pró-Lula e o brutal assassinato de um militante do PT quando comemorava seus 50 anos, cometido por um bolsonarista fanático.

Hostilidades de Bolsonaro ao STF deixam claro a tentativa de criar no país um ambiente propício para o golpe

Essa eleição não será uma simples eleição. Ela será muito importante para o futuro do Brasil porque, carrega em si a possibilidade de mudanças importantes no rumo do país, para o bem ou para o mal, a depender do resultado.

Bolsonaro não está morto politicamente, mas não tem as condições políticas para impor ao país seus delírios autoritários.

Bolsonaro é um instrumento circunstancial das elites brasileiras e conta com a empatia e o apoio fiel de mais ou menos 20% da sociedade.

Bolsonaro é insignificante pessoalmente, um zero à esquerda, o que tem levado muita gente a subestimá-lo. Não é a primeira vez na história que figuras medíocres, despossuídas de maiores qualidades, são  levadas pelas circunstancias a cumprir um papel político relevante. 

Subestimá-lo, implica em não considerar que ele foi empoderado eleitoralmente e que possui algum apoio popular, além de ser articulado com a extrema direita global.

Drone com veneno, bomba caseira e tiros para matar: O neofacismo mostra seus dentes

Bolsonaro tem sido útil para as elites, apesar do desastre e da destruição que ele capitaneia e o sofrimento que vem provocando em boa parte do povo brasileiro. 

Bolsonaro e seu governo tem tido o apoio do capital financeiro, do capital agrário e de outros setores das nossas elites e paradoxalmente de parte das camadas médias, que também são vítimas desse projeto insano. 

Esse projeto que está destruindo o país conseguiu mobilizar uma base de sustentação na sociedade que vem protagonizando horrores e baixezas, degradando ainda mais a convivência, e o que resta da nossa combalida democracia. 

Não é a primeira vez na história que figuras medíocres são levadas pelas circunstancias a cumprir um papel político relevante

Caricatura por Frank Hopmann
Base política de Bolsonaro e do seu governo é antidemocrática e tende ao fascismo

Águas turvas

Politicamente, são como o lodo, sedimentos do fundo do rio, que uma vez agitados, turvam as águas… 

E, a identidade com o projeto neoliberal/autoritário está presente, com maior ou menor intensidade, em todos os setores e segmentos sociais, inclusive nas camadas mais pobres da população, apesar de estarem entre as maiores vítimas. 

Essa base política de Bolsonaro e do seu governo é antidemocrática e tende ao fascismo. Veem a  desigualdade social, a violência, o racismo, a misoginia como naturais. Apoiam a corrosão dos direitos sociais e são avessos aos valores sociais. Destilam ódio, ressentimento e frustração. 

Sempre existiram, como expressão dos limites históricos do país e encarnam a resiliência das taras originárias da sociedade colonial e escravista, amalgamadas e mescladas com a face mais perversa do nosso capitalismo dependente e periférico.

A novidade é a desenvoltura e o desembaraço com que estão se movendo. Praticam crimes, são reacionários e conservadores e apoiam a destruição de tudo de bom que foi construído pelo povo brasileiro, defendem a vilania sem nenhum pudor e são orgulhosos da ignorância, da grosseria e da violência irracional.

Forças armadas precisam passar por democratização para deixar golpismo de lado

Bolsonaro e o que ele representa também tem apoio entre militares, evangélicos, católicos messiânicos, policiais e conta com a simpatia da escumalha social que faz e vive o mundo do crime das milícias, do garimpo ilegal que contamina nossos rios e cobiçam as terras indígenas, dos madeireiros predadores das nossas florestas…

Projeto neoliberal tosco e predatório

Este projeto neoliberal tosco e predatório que ele capitaneia está falido, ruindo de cima à baixo.

Quebrou a economia, vem enfraquecendo o Estado nacional, debilitado nossa soberania e tem isolado o Brasil no cenário internacional. É um projeto usurário, concentrador de renda, indiferente ao sofrimento do povo brasileiro  e vem agravando a crise social, a miséria e o desemprego.  

Ampliou a miséria e empurrou muita gente, famílias inteiras, para morarem nas ruas. Trouxe de volta a fome e a insegurança alimentar que já atinge mais da metade da população.

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Estão acirrando a violência social, legalizando a venda indiscriminada de armas e armando as milícias, mobilizando as FFAA para o projeto golpista e tentando minar todas as resistências institucionais ao projeto golpista. 

Esse projeto político não se adequa às normas e procedimentos democráticos e não consegue mais articular nenhuma ilusão de felicidade futura para o povo brasileiro. E não é compatível com os padrões e normas da democracia. Precisam do arbítrio, da violência e do autoritarismo.

O consentimento social para a barbaríe e para o retrocesso no seio do povo brasileiro está se esvaindo..

A experiência no mundo inteiro com  projetos políticos de corte neoliberal autoritário tem sido a mesma: beco sem saída, prenúncio de agravamento da crise do capitalismo e pura tragédia  para as sociedades onde eles chegam ao poder.

Claro que a sociedade brasileira corre perigo. Tem razão os que estão dizendo que a beira do abismo político ficou muito perto…

Com a tradição golpista que temos no Brasil, não restam dúvidas de que nos bolsões antidemocráticos devem estar pensando em aplicar um golpe, para tentar driblar o resultado das eleições e dar sobrevida a esse processo que interrompeu a construção da democracia no Brasil.

Caminho da derrota

Eleitoralmente, mesmo com muita faknews, trapaças e truques, eles caminham para serem derrotados. 

Nestas circunstâncias atuais, o golpe pode ser tentado, pode até ser dado, mas tende ao fracasso. 

A luta titânica de Lula e de grande parcela da cidadania para constituir uma frente em torno da democracia é fundamental para isolar o projeto golpista. E Lula vem acertando nesta tarefa hercúlea de estadista. 

Revolta da grande mídia contra Lula aponta que ameaça de golpe não se limita aos quartéis

É preciso ampliar, aprofundar e fortalecer o projeto democrático, travar a luta política institucional e principalmente, avançar no seio do povo. 

Avançar na disputa eleitoral e ao mesmo tempo, restituir o protagonismo da cidadania, dos movimentos sociais, dos intelectuais, dos artistas, dos estudantes, das mulheres, da juventude.. 

Caberá às organizações sociais e aos partidos democráticos mobilizarem os trabalhadores, organizar a cidadania, construir alianças sociais sólidas capazes de fazer frente à ameaça da barbárie. 

Essas energias cáusticas estão presentes no mundo inteiro. São uma ameaça global à democracia e à qualquer projeto de futuro.

Mas o Brasil é bem maior e o povo brasileiro haverá de vencer!

Juca Ferreira é sociólogo, ex-ministro da Cultura e colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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