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Kremlin ratifica tratados de adesão de repúblicas separatistas ucranianas à Rússia

Donetsk e Lugansk se incorporam à Rússia como “repúblicas populares”, enquanto Kherson e Zaporíjia como “regiões”
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Em uma sessão extraordinária de simples trâmite, os deputados da Duma ratificaram nesta segunda-feira (3) os tratados de adesão de quatro regiões da Ucrânia: as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk e as regiões de Kherson e Zaporíjia.

Na véspera, em surrealista sessão de domingo, após receber os documentos no sábado à noite, a Corte Constitucional determinou que os tratados de adesão não se contradizem com a Carta Magna, adiantando-se dois dias à ratificação por parte das duas câmaras do Parlamento, que em teoria estão facultadas para efetuar as mudanças que estimem convenientes. 

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Embora com a ausência na sala de 41 legisladores – apenas pouco menos de 10% do total, mas que não deixa de ser significativa pela subordinação absoluta da Câmara baixa ao Kremlin – a anexação de Zaporíjia recebeu o respaldo de todos os presentes, 409, a de Donetsk, 413, Lugansk, 412, e Kherson, 411 – isto é, incluídos quatro, três e dois deputados, respectivamente, que não participaram da votação.

Donetsk e Lugansk se incorporam à Rússia como “repúblicas populares”, enquanto Kherson e Zaporíjia como “regiões”

Hora do Povo
Estima que dentro de um ano já devem estar funcionando nas regiões todas as filiais das dependências federais




Nenhuma mudança

A Duma aprovou os documentos tal como foram elaborados e Donetsk e Lugansk se incorporam à Rússia como “repúblicas populares”, enquanto Kherson e Zaporíjia como “regiões”.

Fixa-se um período de transição até sua plena integração em qualidade de entidades da Federação Russa “antes de 1º de junho de 2026” e se estima que dentro de um ano “já devem estar funcionando nas regiões todas as filiais das dependências federais”.

Concede-se meio ano para criar os órgãos de governo nas cidades e nos distritos municipais, assim como se estipula incorporar ao exército russo os destacamentos armados criados pelos separatistas. 

Nenhuma das quatro localidades está sob controle russo em sua totalidade e, terminada a sessão da Duma, até o porta-voz da presidência russa, Dmitri Peskov, não pôde dizer quais serão os limites administrativos das novas “entidades federais”: os que tinham, dentro da Ucrânia, até 2014, ou os que tenham no momento em que a presidente Vladimir Putin promulgue as respectivas leis, depois que o Senado – cujos membros são designados pelo Kremlin – ratificasse nesta terça-feira (4) os tratados de adesão.

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“É claro – tratou Peskov de saciar a curiosidade dos jornalistas – que os limites de Donetsk e Lugansk serão os que tinham em 2014. Quanto a Kherson e Zaporíjia, estamos ainda consultando seus habitantes. No momento, não posso dizer nada mais”. 

Desde a sexta-feira (30), quando se levou a cabo a cerimônia de adesão, o exército russo teve um fim de semana desastroso: após sofrer numerosas baixas, se viu obrigado a abandonar a estratégica cidade de Limán, em Donetsk, deixando o caminho para que o exército ucraniano entre em Lugansk, ao mesmo tempo em que Kiev reportou também avanços no flanco sul, em Kherson.


Duras críticas

Isto provocou uma espécie de cisma entre aqueles que formam parte da elite governante e, ao situar-se do lado do Kremlin, nada temem por sua colérica reação nas redes sociais. 

Enquanto qualquer opositor pode receber uma condenação de 10 anos de prisão por “desacreditar o exército” ao dizer que na Ucrânia há uma guerra e não uma “operação militar especial”, a fuga de Limán soltou a língua daqueles que sustentam que na cúpula do exército russo predominam a “inépcia” e o “compadrismo” (Ramzan Kadyrov, dixit).

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O governante da Chechênia, Ramzan Kadyrov, foi o primeiro a lançar duras críticas ao general Aleksandr Lapin, o qual – em sua opinião – “é o responsável pela perda de Limán e de grande parte do território”. Ainda segundo Kadyrov, “o mal não é que (Lapin, condecorado por Putin com a medalha de Herói da Rússia pela tomada de Lisichansk) seja um medíocre, mas que conte com o apoio da plana maior do Estado Maior e pessoalmente de seu titular, general Valery Gerasimov”.

Kadyrov não duvida: “Se fosse por mim, degradaria a Lapin a soldado raso e o mandaria à frente para que lave com seu sangue esta vergonha”. De imediato, o seguiu Yevgueni Prigozhin, empresário próximo a Putin, que propôs “mandar (o general) Lapin descalço com um fuzil automático à primeira linha de combate”. Após anos negando a proximidade com Putin, Prigozhin há pouco reconheceu que é fundador e dono do grupo de mercenários Wagner – conhecido pelo apelido de seu comandante e proibido pela legislação russa – que desde 2014 combate na Ucrânia, passando pela Síria e vários países da África.

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Os canais da televisão pública começam a falar que “faz falta dar tempo ao comandante chefe (Putin) para que reflita e tome decisões” (Vladimir Soloviov, Rossiya-1), “necessitam-se outras pessoas e outros enfoques” à frente do exército (Yegor Kolmagorov, RT), “incluiu (o presidente russo) na Federação Russa territórios que não controla…, é impossível discutir com um sonhador que vive em seu mundo (em alusão a Putin) sobre quando se alcançará libertar Zaporíjia (capital da homônima região anexada), uma cidade de 710 mil pessoas… não recordo em precedente assim na história mundial” (Maksim Yusin, NTV).

Para a diretora da Russtrat (Instituto de Estratégias Internacionais Políticas e Econômicas) e ex-deputada Yelena Panina, o principal problema é que “a sociedade atônita observa este fogo amigo no meio do silêncio atroador das autoridades”.

Para demostrar que isto não é um jogo, assim o enfatizou, Kadyrov anunciou nesta segunda-feira que mandará à guerra os seus filhos Ajmat, Eli e Adam, de 14, 15 e 16 anos, ao mesmo tempo que instou o presidente Putin a “utilizar já as armas nucleares de baixa potência”. 

O porta-voz Peskov, à noite, após elogiar o papel da Chechênia na guerra, respondeu assim às críticas de Kadyrov à cúpula militar: “Os governantes de regiões, entre eles Kadyrov, estão facultados para expressar sua opinião, fazer avaliações (…), mas em momentos difíceis não devem prevalecer as emoções em nenhuma análise”. 

E reiterou que o arsenal nuclear “só se pode empregar nos casos estipulados na Doutrina Nuclear do país”.

Juan Pablo Duch, correspondente do La Jornada em Moscou.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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