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La Guajira, socorrida por Petro, é região "esquecida" pelo Estado colombiano

Presidente anunciou medidas para garantir água, universidade, hospital, terras para moradia, pista aérea e segurança alimentar ao povo guajiro
Jorge Enrique Botero
La Jornada
Bogotá

Tradução:

Assediado por uma oposição empenhada em impedir que governe, Gustavo Petro decidiu romper o cerco que lhe estendem seus adversários e saiu dos frios despachos da Casa de Nariño para exercer como presidente desde remotas regiões do país, historicamente condenadas ao esquecimento e à desatenção estatal. 

Recém chegado de uma visita oficial à França, Petro aterrissou em La Guajira, um dos departamentos colombianos com os índices mais altos de pobreza, no qual se conjuga a explosiva mescla de abandono, corrupção, contrabando, narcotráfico e violência. Situado no extremo norte do país, La Guajira é uma península de beleza única, onde conclui (ou começa) o mapa da América do Sul.

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Com uma população majoritariamente indígena que habita desertos sem fim e montanhas formidáveis, este território de jograis e cantores limita ao oriente com a Venezuela, fronteira sempre quente por cujos poros se escoam todas as formas de economias ilegais

Sem atender regras nem protocolos, o presidente colombiano levou três dias em contato com as comunidades, escutando suas demandas e anunciando medidas de choque para resolver os problemas mais urgentes dos guajiros, o primeiro deles a falta de água.

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Para isso, anunciou a expedição de um decreto para priorizar o uso da água em La Guajira, pois, segundo disse, atualmente se dedica em primeiro lugar aos cultivos extensivos de palma africana, deixando de lado o consumo humano. 

Presidente anunciou medidas para garantir água, universidade, hospital, terras para moradia, pista aérea e segurança alimentar ao povo guajiro

Reprodução/Facebook
O presidente alertou sobre o impacto da crise climática sobre estes territórios e disse: “vamos enfrentá-la com medidas específicas”

Comunidades Wayuu

Reunido com as comunidades indígenas da etnia Wayuu, o presidente fez entrega de títulos de terras que lhes haviam sido arrebatados por grupos paramilitares nos anos 90 e cuja restituição foi ordenada por recentes sentenças do poder judicial. 

O governo também entregou títulos de propriedade de mais de 300 hectares a antigos ex-combatentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) que operaram durante décadas nos contrafortes da Serra Nevada de Santa Marta e que se desmobilizaram após a firma dos acordos de paz em 2016.

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A transferência dessas terras esteve a cargo da vice-presidente Francia Márquez, a qual ressaltou a importância de se cumprir o pactuado com os antigos guerrilheiros e implementar cabalmente o acordo de paz de Havana.

Compromisso

Em nome de 144 combatentes beneficiados, Benedicto González destacou que esse fato prova o compromisso do governo de Gustavo Petro e Francia Márquez com o acordo e sublinhou que “a paz se constrói com fatos”. 

A mais de mil quilômetros de distância de Bogotá, onde a oposição qualificou sua presença em La Guajira como “um ato de populismo”, Petro faz por esses dias caso omisso às críticas, ao reativar uma das indústrias mais prósperas de La Guajira, a das salinas de Manaure, com um investimento aproximado de 500 milhões de dólares que – segundo o mandatário – gerará mais de 400 empregos diretos e beneficiará 300 famílias. 

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Ataviado com um chapéu “vueltiao” para proteger-se do desapiedado sol sempre presente nesta região, Petro estava acompanhado de todos os seus ministros, com os quais tem realizado várias reuniões executivas com vistas a escutar velhos clamores.

Impacto da crise climática

O presidente alertou sobre o impacto da crise climática sobre estes territórios e disse: “vamos enfrentá-la com medidas específicas”. Não descartou a declaratória de uma emergência econômica e social, medida que lhe permitiria emitir decretos e executar obras de maneira excepcional. 

Analistas locais opinam que a aposta de Petro de transladar a sede de governo às regiões mais empobrecidas do país não só é uma estratégia para enfrentar a percepção de uma crise política, que logrou posicionar a oposição durante as últimas semanas, mas sim uma maneira de pôr em marcha ideias e planos consignados em seu programa de governo e relacionados “com o fortalecimento da economia popular para alcançar uma colaboração entre o Estado, as organizações comunitárias e os trabalhadores”. 

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O ex-senador Gustavo Bolívar, considerado uno dos mais fiéis amigos do presidente, destacou em sua conta de Twitter que em dois dias “Petro em La Guajiro ordenou construir uma universidade Wayúu, um hospital no município de Nazaret, titulou terras para 6.800 famílias, oito bilhões (dois milhões de dólares) para combater a desnutrição e um pista aérea para o norte do departamento”. 

Beligerância

Enquanto isso, o empresário María Hernández, um dos industriais mais beligerantes contra o atual governo, se perguntou: “Quando estará tudo isso? Uma coisa é ordenar e outra executar”. Hernández faz parte da poderosa Associação Nacional de Industriais (Andi), uma das agremiações que convocou na semana passada a denominada “marcha das maiorias” na qual – segundo fontes policiais – participaram quase 100 mil pessoas em várias cidades do país. 

Fontes da presidência informaram que Petro não pôde assistir na manhã da última quarta-feira (28) a um ato em que se devolveu a comunidades da etnia Kogui máscaras ancestrais recuperadas pelo mandatário em uma recente visita oficial à Alemanha. Segundo o escritório de imprensa da Casa de Nariño, o presidente teve problemas de saúde após uma reunião de seus ministros à primeira hora da manhã. 

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A agenda guajira de Petro, que concluiu na sexta-feira, se concentrou também na transição energética, um dos temas que desvela ao presidente colombiano, o qual se reunirá com comunidades, empresários e acadêmicos para avaliar o potencial da energia eólica em uma região sempre habitada por fortes ventos graças à sua localização geográfica. 

Em Bogotá lhe esperam, como sempre, os incessantes furacões da política.

Jorge Enrique Botero | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Jorge Enrique Botero Jornalista, escritor, documentarista e correspondente do La Jornada na Colômbia, trabalha há 40 anos em mídia escrita, rádio e televisão. Também foi repórter da Prensa Latina e fundador do Canal Telesur, em 2005. Publicou cinco livros: “Espérame en el cielo, capitán”, “Últimas Noticias de la Guerra”, “Hostage Nation”, “La vida no es fácil, papi” y “Simón Trinidad, el hombre de hierro”. Obteve, entre outros, os prêmios Rei da Espanha (1997); Nuevo Periodismo-Cemex (2003) e Melhor Livro Colombiano, concedido pela fundação Libros y Letras (2005).

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