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Limpeza étnica chega às bibliotecas da Ucrânia e 100 milhões de livros russos serão destruídos

Ação, ordenada pelo Ministério da Cultura ucraniano, atinge exemplares soviéticos, desde produções infantis a contos, romances e obras policiais
Renán Vega Cantor
Rebelión
Bogotá

Tradução:

“Ser russo é um problema? Mesmo sendo um russo morto? O que está acontecendo na Ucrânia é horrível, e tenho vontade de chorar só de pensar. Mas estas coisas aqui são ridículas”

Paolo Nori, tradutor italiano.

A limpeza étnica é uma característica do fascismo e todas as suas variantes de extrema direita em nível planetário. Baseia-se no pressuposto de que há culturas superiores e inferiores e estas últimas devem desaparecer da face da terra, para que não permaneça nem uma sombra de sua presença histórica. Contra as culturas proclamadas como inferiores, utilizam-se todos os mecanismos de destruição física e simbólica, como herança duradoura da expansão da Europa pelos cinco continentes.

O exemplo mais terrível de limpeza étnica foi obra do nazismo na Alemanha primeiro e depois em todos os territórios que conquistou durante a Segunda Guerra Mundial, entre eles os dos povos eslavos, começando pelos localizados na então União Soviética. E a limpeza étnica incluiu os judeus, mas não só eles como se estabeleceu como verdade oficial pelo estado sionista de Israel e os criadores da indústria do holocausto (o lobby judeu nos Estados Unidos), e a todos os povos que o nacional-socialismo alemão considerou inferiores, entre os quais cabe mencionar o povo rom (os ciganos).

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Depois da experiência nazi, considerou-se com otimismo que a limpeza étnica era coisa do passado e nunca mais voltaria a apresentar-se como política de Estado. Fora da Europa sempre existiu em diversos lugares do mundo, e em boa medida com o apoio da Europa e dos Estados Unidos, onde foram sistematicamente eliminados diversos grupos étnicos ‒ assim aconteceu na América Latina com comunidades indígenas, no Brasil, Colômbia, Equador…‒ ou houve tentativas fracassadas de exterminar grupos humanos e de expulsá-los de seus territórios ancestrais, como acontece com os palestinos em Israel ou com os curdos na Turquia.

Apesar da volta da limpeza étnica na Europa no final da década de 1980 e começo da de 1990, concretamente nos Balcãs, insinuou-se de forma falsa que esta situação fora superada com os bombardeios da OTAN e a ingerência da União Europeia, do Vaticano e dos Estados Unidos que levou à criação de estados etnicamente puros (como acabou sendo o caso dos novos países reconhecidos depois de 1991, entre eles essa entidade fantasma chamada Kosovo).

Assim, os europeus pensavam que a limpeza étnica já não fazia parte de sua mentalidade colonialista e imperialista e que agora tinham se civilizado plenamente, quando o que fizeram foi legitimar uma nova limpeza étnica, consentida por eles, como a dos criminosos que governam o Kosovo e que traficam órgãos humanos de seus inimigos étnicos.

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Rebelión
Literatura russa adquire novo sentido e importância, já que levará no futuro muitos ucranianos a indagarem as razões que levaram à proibição




Limpeza étnica dos russos

Agora, quando a guerra está de volta à Europa, volta-se a reivindicar abertamente a limpeza étnica dos russos, como fizeram os europeus há vários séculos e como tentou concretizar na prática o nazismo. Essa limpeza étnica imperante hoje na Europa manifesta-se como russofobia e adota os mecanismos criminosos exibidos impunemente na Ucrânia, por parte das classes dominantes deste país e reproduzida por partes significativas de sua população, e emuladas por grande parte dos europeus.

Não é de estranhar que na televisão ucraniana locutores, médicos e cientistas exaltem a doutrina da solução final nazi para aplicá-la aos russos e convoquem para matar as crianças russas, castrar os soldados da Rússia porque são “baratas e não humanos”, e a cancelar tudo o que tenha a ver com a cultura russa sem importar sua transcendência para a humanidade.

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Mas o que está acontecendo na Ucrânia, com a complacência da Europa, quanto à reivindicação da limpeza étnica ‒ algo que, aliás, vem sendo posto em prática desde 2014 nos  territórios de população russa da Ucrânia ‒ não se limita a exaltar os procedimentos tradicionais desta “purificação étnica”, tais como o apelo explícito para matar russos pelo simples fato de serem russos, proibir o idioma russo, destruir as estátuas da Segunda Guerra Mundial que recordam a luta contra o nazismo e o sacrifício de milhões de russos, proibir a leitura de autores clássicos da literatura universal como Fedor Dostoievsky, Alexander Pushkin e de grandes compositores de música clássica como Tchaikovsky, proibir danças tradicionais russas como a balalaika, difamar as comidas russas e obrigar a que já não se escreva nos cardápios que os restaurantes oferecem “Salada Russa ou Tártara”, e que se mude o nome para “Saladinha Kiev”, a mudança do nome do quadro do pintor francês Edgar Degas (morto em 1917) de “Bailarinas russas” para o politicamente correto “Bailarinas ucranianas” e mil coisas ridículas no gênero, que fariam corar de vergonha os grandes pensadores e humanistas de todos os tempos que nasceram na Europa.

Junto com tudo isso, agora na Ucrânia inventou-se uma nova forma de limpeza étnica, até onde se saiba sem antecedentes históricos em nenhum lugar do mundo. É uma limpeza étnica de tipo bibliográfico, um bibliocídio com novos ingredientes. Vejamos em que consiste. Foi anunciado sem eufemismos pela diretora do Instituto Ucraniano do Livro Aleksandra Koval, seguindo as instruções do Ministério da Cultura que deu ordem de limpar as bibliotecas de seu país de todos os livros russos que ali se encontrem.


Cifra é assombrosa

A cifra é assombrosa: ordenou-se subtrair destas bibliotecas cem milhões de livros (em números, para que não haja dúvida, 100.000.000) e depois destrui-los. Esta burocrata-censora, que tem mais a ver com a morte do que com os livros, disse que se trata de limpar as bibliotecas da Ucrânia, porque não se pode aceitar a “propaganda russa”, como, em sua pobreza mental, entende tudo o que esteja escrito em russo e isso se faz porque segundo sua concepção bélica os livros são “uma arma tanto para atacar como para defender”. (A entrevista com Aleksandra Koval pode ser lida aqui).

Esta burocrata, que parece que nunca leu um livro na vida, afirmou que se trata de eliminar antes de que termine este ano a literatura de propaganda, com conteúdo anti-ucraniano, que compreende todos os livros editados na Rússia e escritos na Rússia, incluindo os clássicos da literatura universal de todos os tempos, porque são “ideologicamente daninhos”.

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Nada se salva da limpeza bibliográfica já que nela se incluem os livros infantis, romances, contos e obras policiais. A limpeza bibliográfica não tem limites cronológicos e inclui os livros russos e soviéticos produzidos em qualquer momento, antes e depois de 1991, quando desapareceu a União Soviética.

Quanto ao argumento de erradicar os clássicos da literatura russa, vale citar sua “sofisticada argumentação”, porque esta fala por si só da limpeza étnica de índole bibliográfica que está em marcha.

Começa indicando que estes clássicos causam muito dano porque os primeiros que os leem são as crianças e é nefasto dizer-lhes que um escritor russo, digamos alguém como Alexander Pushkin, é um autor universal:

“Por que o clássico é tão inquietante? Todos lemos estes livros, em meus anos escolares havia um sólido clássico russo, que se considerava o auge da escrita mundial. Devido ao fato de que conhecíamos os clássicos do mundo de maneira bastante medíocre, muitos ficaram com a convicção de que esta é realmente a literatura sem a qual é impossível desenvolver inteligência e sensações estéticas, ser uma pessoa educada. De fato, este não é o caso. Por exemplo, para estudar literatura estrangeira, e o russo é apenas isso, você precisa de um certo equilíbrio. Agora já estamos convencidos de que tanto a literatura britânica, francesa e alemã, a literatura estadunidense e a dos povos orientais deram ao mundo muito mais obras superiores do que a literatura russa”.

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Sim, mas que todo o mundo haja dado obras superiores, como as geradas aqui em Nossa América, não dá o direito de desautorizar a de outras latitudes (a da Rússia neste caso), mesmo que se esteja em guerra no momento com este país. Eliminemos então os literatos russos, que deixaram de ser clássicos, porque a Rússia está em guerra com os Estados Unidos e a OTAN em território ucraniano. Tamanha bobagem não só mostra uma incrível ignorância, como é um crime cultural, com consequências funestas para o futuro da Ucrânia, um país que depois que termine a guerra deverá pensar sobre sua identidade; e esta, quer gostem disso ou não, está ligada historicamente à Rússia. Que isso seja assumido criticamente é uma coisa, mas que pretendam negá-lo e fazê-lo desaparecer não apenas da história como da vida cotidiana é uma estupidez criminosa.

Mais adiante, a burocrata do Instituto do Livro da Ucrânia diz uma série de bobagens que vale citar com detalhes:

“Quanto a tão queridos por nossos bibliotecários e alguns leitores Pushkin e Dostoievski, é preciso dizer que foram estes dois autores que estabeleceram as bases do «mundo russo» e do messianismo. Desde a infância, cheias destas narrativas, as pessoas acreditam que a missão do povo russo não é envolver-se em suas vidas e em seu país, e sim «salvar» o mundo contra sua vontade. Na realidade, é uma literatura muito daninha, realmente pode influir nos pontos de vista das pessoas. Portanto, minha opinião pessoal é que estes livros também deveriam ser eliminados das bibliotecas públicas e escolares. Provavelmente deveriam permanecer nas bibliotecas universitárias e científicas para que especialistas possam estudar as raízes do mal e do totalitarismo. Creio que haverá muitas reflexões científicas e investigações sobre como os clássicos russos influiram na mentalidade dos russos”.

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De tal maneira que uma burocrata de pouca monta que se encontra à frente do Instituto Ucraniano do Livro descobre que os clássicos russos são perversos, diferentemente dos alemães, estadunidenses ou de outras latitudes, e são perversos unicamente por sua origem nacional, e que neles estão as “raízes do mal e do totalitarismo” e porisso debe-se proibir os habitantes da Ucrânia de lê-los, sem importar que grande parte dos ucranianos falem russo e inclusive que para uma porção importante de sua população esta seja a língua cotidiana e não saibam uma palavra de ucraniano.

Com esta lógica tão xenófoba e chovinista em nenhum lugar do mundo deveriam ser lidos livros de autores “estrangeiros”, porque em algum momento tiveram uma guerra ou sofreram uma agressão por parte de outros países ou potências imperialistas.

Com essa lógica de pureza étnica, na Argentina deviam ser proibidos os livros ingleses (Shakespeare entre eles) e expurgá-los de suas bibliotecas depois da guerra das Malvinas, há 40 anos; em Cuba extrair de suas bibliotecas os livros de autores do porte de Ernest Hemingway, ou William Faulkner ou John Steinbeck, devido ao bloqueio e às agressões que suporta há 60 anos por parte dos Estados Unidos; na África erradicar a literatura clássica escrita em francês, inglês, português, italiano, castelhano, alemão… porque estas são as línguas originais das potências colonialistas e imperialistas; no Equador deveriam retirar os livros de autores colombianos (como o que escreve estas linhas) depois do brutal ataque a Sucumbíos pelo governo criminoso dos uribenhos em 1º de março de 2008, e assim ad nauseam.

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A limpeza étnico-cultural que progride na Ucrânia não tem a ver com a guerra que acontece neste momento com a Rússia, e sim com um projeto de negar suas próprias raízes, que se relacionam diretamente com a história do povo russo e sua vasta cultura, no mundo das artes, das letras, do teatro, da poesia, do romance, do ensaio, do pensamento político (do qual fazem parte Lênin, Trotsky, Bakunin, Kropotkin, Herzen, Tchernishevski e um longo etcétera.)

Para dar-se conta do que está em jogo com este novo tipo de limpeza étnica de índole bibliográfica, esta censora agrega que foi um grande problema receber presentes de livros da Rússia sem examinar previamente seu conteúdo, a ponto dos “bibliotecários ficarem contentes com os novos livros, mas ninguém pensou em seu conteúdo”.

Sobre a literatura científica, a funcionária disse que não é um tema simples, razão pela qual “será discutido em mesas redondas de especialistas. Se há literatura puramente médica sem matizes ideológicos, então não vejo nenhuma razão para eliminá-la em primeiro lugar até que os autores ucranianos ou estrangeiros criem algum tipo de substituição”. Fica evidente que, como sempre, o problema é de ideologia, a dos outros, os inimigos, porque a censora não teria ideologia, estaria acima do bem europeu e do mal russo.

A magnitude do bibliocídio é tal que depois de expurgar os cem milhões de exemplares de tudo o que está escrito em russo, o conteúdo das bibliotecas ficará reduzido à metade. Isto é, será liquidado de uma tacada cinquenta por cento do conteúdo das bibliotecas. E esses cem milhões de livros foram declarados pelo Ministério da Cultura da Ucrânia papel de descarte, o que significa o bibliocausto, a destruição pura e simples de livros.


Burocratas do livro da Ucrânia

Os burocratas do livro da Ucrânia pretendem que o cancelamento das letras da Rússia seja mundial e se vanagloriam de que o boicote aos livros daquele país em feiras internacionais se deve a sua influência. Mas pedem mais: que no resto da Europa sejam aplicadas suas medidas de limpeza étnica bibliográfica e desapareçam das bibliotecas (porque já desapareceram das livrarias) os escritos de seguidores incondicionais de Vladimir Putin que respondam pelos nomes de Leon Tolstoi, Antón Tchekov, Leonid Andreiev, Máximo Gorki…

A burocrata do libro agrega que, ainda que por desgraça não possa decidir sobre isso como o faz na Ucrânia, existe “um público que pode por-se em contato com todas as bibliotecas locais e exigir que se retirem certos livros. Desafortunadamente, é muito difícil para nós daqui, da Ucrânia, averiguar que livros russos há em cada biblioteca de alguma pequena cidade europeia”.

Por isso, pede aos migrantes ucranianos que onde quer que se encontrem tornem-se censores e inquisidores dos livros russos para que estes desapareçam das bibliotecas e livrarias das cidades europeias, porque “quanto às bibliotecas estrangeiras, creio que só a persistência da diáspora ucraniana e nossos movimentos sociais podem levar ao fato de que haverá menos livros russos ali, e mais ucranianos”.

O preceito central da caça de livros é que tenham um conteúdo antiucraniano, algo tão vago em que cabe tudo, começando pelo idioma russo em que estejam escritos os livros e em seguida os autores, incluindo os nascidos na Ucrânia que se atrevam a criticar os nazis de seu país e proponham a busca da paz, um acordo com a Rússia e que seu país não se torne uma base terrestre da OTAN.

Os leitores desta nota poderão pensar que não há nada de novo neste bibliocídio, se recordarmos os momentos trágicos de destruição de livros, entre eles os da Alemanha Nazi, ou da última ditadura argentina ou a destruição das bibliotecas do Iraque e o saque de seus recursos bibliográficos que eram patrimônio cultural da humanidade depois da invasão dos Estados Unidos em 2003, ou a destruição de escolas e bibliotecas palestinas pelas forças genocidas do estado sionista de Israel.

Mas, que eu saiba, em nenhum desses casos, ainda que se tenha chegado ao bibliocausto ‒queima de livros‒ praticou-se a política sistemática e planejada de expurgar em cada biblioteca até o último rincão para eliminar todos os livros  considerados perniciosos, prejudiciais e inimigos de um determinado projeto nacional. Isso é o que se está fazendo na Ucrânia de maneira generalizada e impune e com o apoio desse círculo de delinquentes que chamam a si mesmos de Comunidade Internacional e União Europeia.


Paroxismo do ódio nacional e da xenofobia

O fato de haver uma guerra entre Rússia e Ucrânia, em lugar de levar ao paroxismo do ódio nacional e da xenofobia, deveria levar a refletir sobre a importância da cultura, e em especial para o caso de que tratamos, dos livros. Porque se alguma coisa contribui para fomentar ainda mais o ódio é a ignorância, a destruição de livros e ocultar dos habitantes de um país, neste caso da Ucrânia, as múltiplas influências culturais que tiveram ao longo da história e a maneira como as novas gerações deveriam repensar sua própria identidade, sem desprezar nem ignorar uma cultura, em especial a extraordinária cultura russa, que é algo completamente distinto de um regime político em particular.

Nestas condições, agora teremos que a riqueza bibliográfica das escolas e bibliotecas da Ucrânia será coisa do passado ao ser posto em prática o plano proposto pela burocrata mencionada nestas páginas que consiste em que “a restauração da Ucrânia incluirá tanto a reforma do sistema de bibliotecas como a questão de preencher o acervo da biblioteca depois do expurgo da literatura russa”. Trata-se de um passo seguro para a ignorância, o ódio, a sede de vingança que encheu a Ucrânia e a Europa de batalhões de nazis, para os quais a máxima é que “morra a inteligência”.

E esta ação de perseguir livros adquire um sentido especial, extra se quisermos, se considerarmos que vivemos em um mundo em que cada vez se lê menos devido à ditadura digital e nesse sentido quase qualquer livro na atualidade (independentemente de seu conteúdo) deve ser considerado um artefato inofensivo para um público amplo, na medida em que o círculo de leitores é cada vez mais reduzido.

Nessas condições, nota-se claramente o verdadeiro sentido de limpar as bibliotecas da Ucrânia da literatura russa: é um projeto de limpeza étnica e de cancelamento total de uma cultura multiforme e complexa.

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Assim, vamos ver que das bibliotecas da Ucrânia vão desaparecer autores tão perversos e malévolos como Tolstoi, Dostoievski, Pushkin… e em seu lugar as estantes vão se encher de livros não ideológicos, clássicos da estupidez universal como os que presenteiam os Estados Unidos, entre os quais se incluem o Rato Mickey, Superman, Batman e revistas tão sérias como Reader’s Digest e todo o lixo anticomunista que se publica nas usinas universitárias e nos laboratórios do pensamento reacionário dos Estados Unidos.

E no caso das letras e das artes, veremos como os artistas ucranianos poderão fazer abstração do teatro de Tchekov, das novelas de Pushkin, das reflexões de Leon Tolstoi, da crítica literária de Vladimir Propp ou da análise de texto de Mijaíl Bajtín. Uma das ilusões mais terríveis é supor que se pode prescindir desses autores, sem perder uma parte de sua própria humanidade, tudo em nome da limpeza étnica de índole bibliográfica que está em marcha na Ucrânia.

Paradoxalmente, e isso os censores não preveem, a literatura russa adquire novo sentido e importância ao ser proibida, já que levará no futuro muitos ucranianos a indagarem as razões que levam à proibição e essa literatura continuará sendo lida clandestinamente na “democrática” Ucrânia.

Simplesmente, uma cultura não pode ser extinta por censura e proibições, por muito que tentem justificar-se em nome de uma absurda russofobia e da limpeza étnica da cultura russa que progride na Ucrânia e que conta com o apoio da “grande e civilizada Europa”, com seus novos tribunais de inquisição e de perseguição de autores e livros. Esta medida tem, ainda, um tom sombrio de outros tempos, em uma época em que a comunidade de leitores de livros reduziu-se drasticamente e em que predomina a pseudo leitura digital, que não é leitura em sentido estrito como demonstraram os psicólogos cognitivos.

De tal manera que na Ucrânia pretende-se eliminar os poucos leitores de livros que possam existir para que suas mentes fiquem nas mãos da escola nazista do Batalhão Azov e companhia.

Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor mediante uma licença de Creative Commons, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.

Renán Vega Cantor | Rebelión.
Tradução de Ana Corbisier.


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