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Literatura infantil pode ajudar no combate ao preconceito e à discriminação contra homossexuais

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Tratar o assunto de forma natural nas escolas ajuda a formar cidadãos conscientes

Elaine Souza*

Como formar cidadãos ainda é uma grande preocupação não só para os pais e os educadores. Trata-se de uma missão importante para toda a sociedade. A discriminação e o preconceito contra pessoas de orientação homossexual podem e devem ser abordados de forma natural, principalmente no ambiente escolar.

A partir dessa premissa, Lúcia Facco, doutora em Literatura Comparada pela Uerj, traçou um panorama de como a discriminação e o bullying homofóbico são discutidos dentro da escola por professores, pedagogos e inspetores. Em sua tese “Era uma vez um casal diferente: a temática homossexual na educação literária infanto-juvenil”, a autora analisou o modo como o currículo escolar costuma privilegiar apenas estudantes considerados normais e questiona o próprio conceito de “normalidade”.

Em sua pesquisa, Lúcia aponta que a orientação sexual, assim como outros tipos de “diferenças”, poderia ser tratada com mais naturalidade e respeito se fosse trabalhada através da leitura de livros infantis e juvenis que abordem a homossexualidade.

Sobre a posição da escola quanto à orientação sexual

“Acredito que a escola deve formar cidadãos que convivam pacificamente em sociedade, com todas as diferenças possíveis. O problema da discriminação não está relacionado apenas à orientação sexual considerada desviante, mas sim a todos os indivíduos que não se encaixam no modelo que a sociedade elegeu como”normal” ou “correto””, afirma Lúcia, sobre filhos que possuem dois pais ou duas mães. A pesquisadora, que teve a experiência da discriminação pelo fato de não morar no morro e ter estudado em escola de comunidade, conta ainda que há inúmeros casos contra estudantes gordos, míopes, baixos ou altos demais, contra meninas, pessoas de classes sociais menos favorecidas ou negros. “A discriminação está em todo lado, provoca sofrimento e precisa ser firmemente combatida. É preciso mostrar a criança que ela não é um “ET”, diferente de todas as pessoas do mundo, por ter duas mães”, cita Lúcia em sua tese.

A estigmatização no dia a dia

Explicando o processo de estigmatização, a pesquisadora conta que é o que sofre cada indivíduo que foge do modelo considerado “normal”. “O conceito de normalidade é completamente subjetivo. Se formos analisar culturas diferentes da nossa, veremos que isso é um fato incontestável. E não precisamos ir muito longe. Dentro do próprio país, ou até dentro da própria cidade, dependendo do tipo de ambiente em que você circula, pode-se ver conceitos de normalidade flutuantes”, explica Lúcia.

Na opinião da autora, o que dificulta o fim do preconceito é a falta de reflexão, o comodismo e até o medo. Medo de aceitar o que é diferente, por correr o risco de também ser visto como diferente. Quanto à reflexão, Lúcia afirma que a escola desempenha um papel fundamental: formar cidadãos pensantes, em vez de acomodados com os dogmas sociais. Desse modo, questionando e refletindo sobre os conceitos que a sociedade prega como certos, a solidariedade e respeito virão à tona, acredita ela.

A questão homossexual na educação infanto-juvenil

Lúcia considera que a questão deveria ser tratada naturalmente. “É impossível, por mais que as pessoas preconceituosas desejem, que as crianças não saibam que existem pessoas se relacionando afetiva e amorosamente com pessoas do mesmo sexo”, explica Lúcia. “Se as crianças não tiverem contato com esse fato, de maneira natural, elas o farão de maneira negativa. Ou seja, quando ouvirem o indefectível xingamento ”viado”, por exemplo, logo associarão o homossexual a algo pejorativo, passando a encarar pessoas homossexuais com total desrespeito”.

A autora explica que a criança deve tomar conhecimento de maneira natural sobre a diversidade humana: “elas devem ver que homossexualidade não é nem algo execrável, nem a oitava maravilha do mundo. É apenas uma das formas possíveis de relacionamento amoroso”.

Influência da literatura infantil com temática de orientação sexual no Brasil

É fato que, no Brasil, o tema continua gerando polêmica. Depois que o chamado “Kit Gay” teve sua distribuição cancelada nas escolas no ano passado, o assunto saiu de pauta. O kit era um material didático, elaborado por organizações não governamentais em parceria com o MEC, destinado a combater a homofobia nas escolas públicas, porém foi considerado impróprio, com o argumento de que estimularia a homossexualidade.

De acordo com Lúcia, não há a necessidade de incentivar esse tipo de literatura direcionada, pois o tema deveria surgir de modo espontâneo. “Se pararmos para pensar, como era visto o personagem negro, até bem pouco tempo atrás? E a mulher? Como eram retratados os casamentos (homosexuais) na literatura? Hoje podemos encontrá-los em romances, filmes, novelas. Sejam eles entre negros e brancos, personagens divorciados, etc”.

Apesar de ainda estarmos longe de um consenso, a pesquisadora acredita que, na medida em que os relacionamentos homossexuais forem se tornando mais visíveis, a tendência é que personagens homossexuais se tornem mais comuns na literatura.

Para conferir a dissertação na íntegra, acesse: http://www.bdtd.uerj.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=4341 e http://www.bdtd.uerj.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=4342.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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