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Literatura tem sexo?

Maria José Silveira

Tradução:

Letras sobre a mesa

<<Maria José Silveira>>
Minha resposta é «não, sim e não». O primeiro «não» tem a ver com o contexto em que essa pergunta aparentemente ingênua é colocada. Enquanto ela se referir, claramente, apenas à literatura feita por mulheres, porque a literatura feita por homens não exige adjetivo complementar e é considerada a Literatura original, aquela com L maiúsculo, minha resposta é «não». Enquanto, nessa hierarquia de poder e valor, a literatura feminina for a ponta de um par manco de opostos, já que nunca se fala de uma literatura masculina, a resposta, até pela lógica, é «não»: se a definição de feminino supõe seu oposto e se esse oposto não existe, nenhum dos dois existe.
No entanto, se examinarmos mais de perto a literatura boa, a única que existe, atrás dela vamos encontrar uma pessoa. Que escreve a partir de sua individualidade, formada por todas as clivagens do mundo real: nacionalidade, cultura, ideologia, classe, geração e, evidentemente, sexo. É através dessa individualidade, formada por sua história particular, que a pessoa vivencia a «experiência humana» sobre a qual escreve. Nesse sentido, literatura tem sexo, como tem nacionalidade e história, e expressa a forma personalíssima daquele que escreve, vê o mundo.
Mas aqui voltamos ao «não». Porque literatura só acontece quando a pessoa que escreve é capaz de superar sua individualidade e tocar em algo comum à natureza humana, isso é, comum a homens e mulheres. Quando é capaz de escrever algo que também signifique algo para o outro, e o comova. Quando isso acontece o escrito torna-se literatura, a boa, a única – e o sexo de quem escreveu passa, outra vez, a não ter a menor importância.
O que viria a ser exatamente esse famoso «olhar feminino»? Que atributo ele tem que o contrapõe ao olhar masculino?
A delicadeza? Certamente que não. Tem homens que escrevem tão delicadamente quanto a mais delicada das mulheres. E tem mulheres tão grossas como o mais grosso dos homens. Mais ainda: o ideal é a mistura dos dois. Como Clarice Lispector deixou claro quando disse: «Eu queria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa, que é o que me salva.»
Será, então, o olhar sensível e detalhista que faz a diferença? Nem é preciso responder, pois é óbvio que não: sem um olhar sensível e detalhista não existe nenhuma espécie de literatura. Esse olhar não é privilégio feminino, e sim do artista.
O poder de evocação? Claro que também não, basta pensar nas «madeleines» de Proust. A leveza, então? Mais uma vez, não. Ítalo Calvino, inclusive, nos lembra que a leveza é uma das qualidades mais necessárias à literatura deste milênio.
A intuição, o irracional, o oculto? São clichês que não resistem. Então, o que será? Nada. Esse famoso «olhar feminino» não existe. É uma fabulação. O que existe é o olhar de uma mulher específica. Qualquer tentativa de atribuir algum tipo de característica ao olhar da mulher em geral não passa por nenhum crivo minimamente rigoroso.
As experiências que só podem ser vividas pelas mulheres. Quais são? Pelo que sei, só duas que, a rigor, são quase uma só, pois uma deriva da outra: a menstruação e a maternidade.
A maternidade, a origem da vida, é um belíssimo atributo, sem dúvida, mas não é fundamental na arte e na literatura. Muitas escritoras nem sequer são mães. A experiência da menstruação e tudo que a menstruação pode significar como metáfora? Tampouco. Não dá um bom livro.
A experiência da discriminação, do preconceito, da perseguição? Não é exclusiva das mulheres. Lamentavelmente, até hoje, a discriminação e perseguição dos mais variados tipos se espalha, com maior ou menor intensidade, por todos os povos do mundo: entre pobres e ricos, entre raças, entre as religiões, etc.
Por mais específica que possa ser a discriminação às mulheres, seu campo de atuação é outro e não tem relação direta com a literatura, a não ser mediada por uma série de fatores.
Outro ponto que sempre me intrigou: por que a literatura é praticamente a única forma de arte que dá abrigo a esse tipo de questionamento? Por que não escutamos falar – pelo menos não com a mesma intensidade – de uma pintura feminina, um teatro, um cinema ou uma música feminina?
Será por que é uma forma de arte que, supostamente, só exige «saber escrever», coisa que toda a pessoa alfabetizada sabe? A técnica não é uma coisa aparente na prosa narrativa, até pelo contrário. Ela se esconde, não se deixa perceber e, por isso, talvez quase todo mundo ache que basta se pôr a escrever para fazer literatura.
Ou será por que é a forma de arte em que há sempre «uma voz» que narra alguma coisa? E, assim, cria o campo que, volta e meia, permite que apareça alguém tentando encontrar o sexo feminino que está por trás da «voz» que narra.
Seja como for, embora o sexo seja um dos elementos que determina a história de vida de uma pessoa, ele é apenas um entre inúmeros outros, e é a somatória de todos esses elementos que compõe a maneira como essa pessoa vai «sentir e reagir» ao mundo e, a partir daí, tentar expressar aquilo que, dessa sua experiência, achou que valeria a pena narrar.
O estilo, a «voz» da pessoa, os temas que a sensibilizam o suficiente para fazê-la enfrentar o branco da página, vêm desse conjunto quase indescritível de elementos que criou suas obsessões e seus demônios, masculinos e femininos.
É a partir desse seu lugar – único no mundo como o de qualquer pessoa – que tanto o homem quanto a mulher fazem literatura, ou seja, expressam em um texto escrito algo que diz respeito à experiência humana.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Maria José Silveira

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