Teresa Ruiz Rosas: uma excelente romancista

Winston Orrillo

Winston Orrillo*

Winston OrrilloTalvez seja por ela ter vivido longo tempo no exterior, ou pela escassa difusão de sua obra – já que não pertence, até onde sei – à claque literária realmente ad usum, confesso minha crassa ignorância sobre a formidável tessitura criativa de Teresa Ruiz Rosas (Arequipa, 1956) narradora e tradutora literária, residente em Colônia, Alemanha, e com estâncias prolongadas em Budapeste, Barcelona e Friburgo de Brisgovia.
Tereza Ruiz
Tereza Ruiz
Acostumada a participar de certames internacionais de narrativa, foi finalista do Prêmio Herralde de Novela, 1994 –da Editorial Anagrama- e do Prêmio Tigre Juan de Oviedo, destinado a primeiros romances, com El copista (Barcelona, 1995), para o qual obteve significativas críticas nada menos de que de Ignacio Echevarría em El País; ou no ABC e no Diario Vasco da Espanha, entre muitos outros, e uma qualificação como “magnífico romance”, pelo querido Toño Cisneros, em El Dominical; e da mesma forma na imprensa literária alemã, suíça e austríaca. Detrás de la calle Toledo (Lima, 2004), relato presente em antologias de várias línguas, obteve o Premio Juan Rulfo 1999, do Instituto Cervantes de Paris e da Radio França Internacional. Em edição bilingue, seu livro El retrato te ha deslumbrado, recopila sua obra como contista desde 1989. La falaz posteridad, seu segundo romance, tem uma versão original alemã elogiada pelo grande jornalista Günter Wallraff. O terceiro, La mujer cambiada (Lima, 2008) se desenvolve, como diz o magnífico escritor espanhol Enrique Vila-Matas, “com uma originalidade na trama e uma sobriedade no tratamento da situação dramática mais afinadas que nunca” onde “brilha seu talento excepcional”. Seus livros apareceram também em Zurique e Amsterdam, em Bonn e Weilerswist, mas ela igualmente tem traduzido para editoras espanholas, livros de grandes autores de língua alemã como W.G. Sebald, Franz Werfel e Botho Strauss, entre vários outros, do inglês Nicholas Shakespeare, do húngaro Milán Füst, e do luxemburguês Roger Manderscheid. Tudo o que foi dito nos parece bons prolegômenos para um romance maior em sua própria obra, e na literatura peruana e latino-americana: Nada que declarar, Menção Honrosa na III Bienal de Novela, “Premio COPÉ 2011”. Nada que declarar, com suas 512 páginas nos faz ingressar a um mundo no qual se destaca sua denodada denúncia do tráfico de seres humanos, a partir da história de Diana Postigo, uma humilde mulata do Rímac, levada por um cafetão, integrante de alguma das tantas máfias internacionais de traficantes, à Alemanha e obrigada a exercer o meretrício em um edifício de 100 cubículos, no qual se exibia um caleidoscópio de mulheres latinas e do Leste europeu (russas, entre outras). Mas essa é apenas uma das histórias – pois a obra desenvolve concomitantemente, outras: a da própria Silvia Olazábal Ligur, seu alter ego, tradutora e escritora iniciante, que é quem fortuitamente conhece a mulata, rebatizada como Dianette, ajuda-a a sair do país – mediante um salvo-conduto – e decide contar sua paradigmática e ao mesmo tempo insólita historia, que é uma das colunas vertebrais de seu romance. Tudo isso com um manejo, admirável e sápido, da linguagem coloquial que autora não perdeu, apesar de há muito tempo não residir entre nós. Filha do grande poeta limenho que se radicou em Arequipa, José Ruiz Rosas, Teresa é membro de uma família esteta por antonomásia – seu irmão é um destacado poeta – e este romance nos emociona, também, pelas numerosas reminiscências arequipenhas – ela nunca deixa de sê-lo – e daquela que foi a entranhável biblioteca familiar, e de figuras como a do narrador – prematuramente desaparecido - Edmundo de los Ríos, e de alguns outros personagens excepcionais, como “O Homem dos Livros Vermelhos”, cuja obra sui generis nos leva ao mundo da transição da Alemanha dividida à atual, e a influência das leituras contestatórias promovidas por esse editor incrível e clandestino. Porém, em meio a todas, destaca-se a história de Silvia Olazábal Ligur, plena de sensibilidade e sensualidade estéticas, que se torna simplesmente fascinante: seu manejo narrativo e poético brilhante  que vai nos conduzir aos seus périplos de alcova, que a levaram até nada menos que ao Marrocos onde quase se vê envolvida no tráfico de drogas – lá onde o haxixe é chamado de “chocolate” -  que era o modus operandi de sua então jovem amante que a levou a seu país, com pretextos “turísticos”, mas talvez para convertê-la em “mula”, do que se salvou por pouco. “Nada que declarar” (daí provém o título da obra) é a frase usada nos aeroportos quando não se leva nada que obrigue ao pagamento de impostos; símbolo, pois, da plena “inocência”, que é a antítese do que se conta nessa narrativa, cujo interesse nunca decai, pelo contrário, é crescente, com o uso de uma muito bem dosada carga de ironia que a narradora possui e que faz brilhar em mais de uma oportunidade. Pleno de imagens poéticas, analogias e frases profundas, algumas provenientes de autores que Teresa cita generosamente, o romance, repetimos, desenvolve um humor às vezes “negro”, espécie de anticlímax a situações certamente exasperantes. O que demonstra que a autora se encontra em seu melhor momento criativo e que, a partir desta obra, todo o seu trabalho deve obrigatoriamente ingressar ao recinto das obras relevantes da literatura  em nossa língua. Digo que, neste instante, e não temo equivocar-me, a sua é, no Peru, a melhor obra narrativa escrita por uma mulher; pois, quanto à poesia, muitas são as vozes que disputam esse qualificativo. *Professor, poeta e jornalista peruano, colaborador de Diálogos do Sul

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