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Lobby sionista tenta acusar Roger Waters daquilo que ele denuncia há 40 anos

Nesse jogo de espelhos sobre quem é o criminoso de racismo, é bom lembrar que o artista não é o acusado, mas o acusador
rita freire
Monitor Do Oriente Médio
São Paulo (SP)

Tradução:

O Brasil está lutando para livrar-se da praga das fake news sem que isso signifique censura ou violações à liberdade de expressão. Desreguladas, as plataformas fizeram sua campanha contra o projeto 2630/202, o PL das Fake News, que visa justamente criar regras para que as notícias falsas deixem de ser facilitadas e promovidas. Além de um problema para a democracia, as notícias falsas se transformaram em uma mina de ouro, rendendo fortunas a essas corporações mundiais que controlam as redes sociais.

Fakenews também destroem pessoas, reputações e manifestações da arte ou de artistas quando convém a quem as financia. A bola da vez é o ex-Pink Floid Roger Waters. Historicamente um crítico dos sistemas de destruição de vidas e liberdades como são o nazismo, o fascismo e o apartheid, Roger Waters é uma das vozes internacionais mais conhecidas contra a ocupação da Palestina, hoje reconhecida como sistema de apartheid do Estado de Israel

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Ele também é um defensor do BDS, promotor de campanhas de Boicote, Desinvestimentos e Sanções contra Israel, que o movimento pretende levar adiante até o dia em que Palestina esteja livre da ocupação considerada ilegal sob todos os fundamentos do Direito Internacional.

Waters está sendo atacado e tendo shows cancelados por algo que ele faz há 40 anos. Interpreta um nazifacista na apresentação da música “In the Flesh”, em que o personagem invade o palco escancarando ódio e brutalidade em sua caça aos gays, judeus, negros e maconheiros: “A retratação de um demagogo fascista sem limites está presente nos meus shows desde o ‘The Wall’, do Pink Floyd, em 1980”.

Há quem não concorde com Waters quando ele critica a Ucrânia, que considera governada por nazistas, ou quando defende o russo Vladimir Putin, mas que agora se veja obrigado a sair em defesa do artista. É o caso do guitarrista Alex Skolnick.

“Odeio defender RW esses dias, mas; 1) É fato que isso é um segmento de ‘The Wall’, do Pink Floyd, que critica o fascismo, funciona em um contexto, tem sido apresentado há décadas sem incidente e o álbum foi co-produzido por quem minha família chamaria de um bom garoto judeu, Bob Ezrin…”, diz Skolnick.

Mas estamos nos tempos de revival reacionário com holofotes na mídia e a carreira do ícone do rock  está sendo bombardeada com direito a cartas pedindo ao governo brasileiro que o impeça de tocar por aqui.

“Eu passei a minha vida inteira me pronunciando contra o autoritarismo e a opressão onde quer que eu os veja” – diz o artista que, sozinho no palco, ousa apontar o dedo para Israel – e desafiar a narrativa de “única democracia no Oriente Médio”. Fosse apenas mais um crítico da ocupação, estaria menos visado entre tantas vozes. Mas aplaudido por seus milhares de fãs, Roger Waters consegue dar peso ao movimento BDS nos ambientes internacionais do showbizz e mandar recados sensibilizadores a outros popstar, de Madonna a Caetano Veloso”.

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Desta vez, as acusações que vem recebendo estão doendo mais fundo por tentarem taxá-lo do mesmo crime de racismo que ele denuncia. “Eu não acredito que estejam tentando fazer isso comigo. Digo, claramente dá pra ouvir na minha voz, estou chateado demais de ser chamado dessas coisas. Isso é profundamente, profundamente insultante não só pra mim, mas para minha família, particularmente minha mãe e meu pai.”

Nesse jogo de espelhos sobre quem é o criminoso de racismo, é bom lembrar que o artista não é o acusado, mas o acusador

Foto: Andrés Ibarra
É de se esperar que o sionismo queira ver Roger Waters pelas costas e mova sua máquina de propaganda pelo seu cancelamento

Os lobbies sionistas se disseram indignados, entre outras coisas, porque Waters junta no mesmo show as menções à Anne Frank, a menina judia martirizada pelo nazismo em 1944 e que tornou-se símbolo da resistência judaica com o testemunho deixado em seus diários, e a jornalista da Al Jazeera, assassinada por um sniper militar israelense em 2022, quando cobria um ataque da ocupação.

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Para Waters, são ambos crimes inaceitáveis. “Quando eu era criança depois da guerra, o nome de Anne Frank era falado sempre em nossa casa, ela se tornou um lembrete permanente do que acontece quando o fascismo não é combatido. Meus pais lutaram contra os nazistas na 2ª Guerra Mundial, com meu pai pagando o preço mais caro [da morte]”. O problema, para ele, foi levar lembranças dessa dor a Berlim, onde representações no nazismo são proibidas e onde o trauma da culpa pelo holocausto leva a Alemanha a não questionar Israel.

É de se esperar que o sionismo queira ver Roger Waters pelas costas e mova sua máquina de propaganda pelo seu cancelamento. Mas daí a querer que o Brasil, através do Ministério da Justiça, embarque na campanha e impeça o show de um artista que passou a vida erguendo bandeiras antifascistas, é provocar mais do que o movimento BDS, mas também os fãs que acompanham sua carreira há décadas. Efeito reverso, os ingressos para o show ex-Pink Floyd no Brasil estão sendo vendidos com velocidade, e na noite de sexta-feira (9) – depois que um artigo pedindo o impedimento do cantor foi publicado na imprensa brasileira – o site de vendas registrava cerca de 2 mil buscas por hora.

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A grande campanha que vem sendo feita contra Roger Waters parece mais um teste à inteligência e à capacidade coletiva de perceber como se constroem as fábricas de fakenews. É fato que Roger Waters faz coisas em seu show que ele repete há 40 anos, como o trecho do Wall que está sendo explorado agora. Mas nesse jogo de espelhos sobre quem é o criminoso de racismo, é bom lembrar que ele não é o acusado, mas o acusador.

Rita Freire | Monitor do Oriente


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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rita freire

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