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Lucas explicitou que é insuportável viver em um mundo que reprime a espontaneidade do Ser

Gesto do "brother" de abandonar programa de entretenimento é um alerta: não suportamos mais entretenimento excludente, desencantado e avesso a pluralidades
Verônica Lima
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Não assumiremos o repertório dos senhores colonizadores para sermos aceitos de forma subordinada em seus mundos; o desafio agora é cruzá-los, “imacumbá-los”, avivar o mundo com o axé (força vital) de nossas presenças.

Livro: Pedagogia das Encruzilhadas

Esse trecho está lá no início do livro de Luiz Rufino, e quis o cruzo encantado dos dias que eu revisitasse essa parte do texto neste domingo (7), quando parte significativa do Brasil está discutindo a saída do produtor, agitador cultural, ator, diretor, slammer, rapper e comunicador vívido Lucas Penteado de um dos programas mais comentados da TV brasileira (e talvez do mundo). 

Numa das falas de Lucas antes de abandonar o programa ele diz, expressamente: “pedi a licença [para ser ele mesmo] e até com essa licença as pessoas tão decidindo que eu tô jogando… aí, vai se f**er….f**a-se se eu sair! Eu tô sendo eu, eu sou isso aí! E eu nem quero mais esse milhão. Porque esse milhão, na humildade, não vale pra mim. Porque se pra ganhar esse milhão tiver que ser o que ‘esse povo’ tá sendo, eu não consigo ser”.

Lucas traduziu para milhões de espectadores o que Rufino apontou ao abrir os trabalhos do livro, e que aponta para o centro da crise que vivemos na construção de entretenimento no Brasil, mas que pouco se fala: não há mais espaço para entretenimentos que se baseiam na humilhação e na construção fake e programada de acontecimentos para que pareçam reais e espontâneos. Em outras palavras, não há espaço para entretenimento que subestime o sentimento dos espectadores. Falo de sentimento e não de inteligência, porque a real inteligência vem do corpo inteiro, e não com a razão. Prova disso é o fato de que não era preciso ser espectadora do programa para sentir o peso das ações, julgamentos e opiniões sobre tudo o que Lucas fazia dentro da casa. Era uma sensação partilhada. 

Tal sensação não se restringe a esse programa, mas aos principais programas de entretenimento de TV aberta nesse país. Basta ver a curva dos índices de audiência nos últimos 10 anos. O episódio me fez lembrar, por exemplo, uma cena de um outro programa, que premia cozinheiros amadores, em que uma participante de ascendência tailandesa, ao ser criticada por fazer muitos pratos inspirados na Tailândia, que seria “muito longe”, respondeu que a Itália, cuja culinária inspirava grande parte das provas, também era muito longe. A participante, Yuko, ganhou cada vez mais a simpatia dos espectadores, embora tenha saído antes da final.

Acontecimentos como esses, e que se somam a tantos outros no dia a dia do entretenimento brasileiro, expõem o que pesquisadores e analistas apontam como colonialidade: a atualização do poder que quer homogeneizar e padronizar o caldo fervilhante da pluralidade da vida e assim, portanto, divide, classifica, polariza, desencanta qualquer manifestação de existência pulsante. Aquilo que pulsa é o que sabe com a razão e com o sentimento, com o corpo por inteiro, que erro e acerto são componentes de um mesmo complexo do existir. E por isso mesmo não negocia a espontaneidade de Ser. 

Essa forma de manifestar a própria existência impõe um novo estatuto ético para as relações, baseado na manutenção da vida que não hierarquiza as formas de Ser, e que constrói um mundo onde caibam todas e todos. Essa outra ética aponta para a possibilidade de errar, pedir desculpas, aprender, compartilhar, usar todas as cores e sabores possíveis, deixar fluir as vivências com toda complexidade e pluralidade que caracterizam a própria vida.

Gesto do "brother" de abandonar programa de entretenimento é um alerta: não suportamos mais entretenimento excludente, desencantado e avesso a pluralidades

TV Globo
A questão é: somos capazes de produzir entretenimento que agregue toda essa potência de existir?

A questão é: somos capazes de produzir entretenimento que agregue toda essa potência de existir? A pergunta poderia ser formulada como: somos capazes de produzir entretenimento decolonial em TV aberta? A resposta para essa pergunta parece ser o indício para abordar a crise que recai sobre as audiências da TV aberta. Segundo dados da Kantar Ibope, de maneira geral, a audiência de TV aberta caiu 17% nas primeiras duas décadas do século 21. Podemos acrescentar a esse dado a queda no tempo dedicado ao entretenimento nas programações da TV aberta no Brasil: segundo dados da Ancine, entre 2012 e 2016 a queda foi de 10%, sendo o único gênero que apresentou queda significativa.

E não sejamos ingênuos: as polêmicas nos programas de entretenimento são totalmente programadas e condizentes com os padrões éticos de exclusão e divisão que dominaram e ainda dominam a TV aberta até hoje. A seleção de personagens, participantes, comissões julgadoras, bem como toda a equipe de edição é totalmente pensada para manter determinados padrões. A resposta dos telespectadores está sendo: não aguentamos mais. Não foram poucas as manifestações da audiência do programa que Lucas Penteado abandonou dizendo: “fiquei mal vendo a forma como Lucas está sendo tratado, parei de ver (por um instante ou definitivamente) pra não ficar pior”. As pessoas não querem mais um mundo dividido sendo retratado na TV. Ainda de forma geral a TV siga reforçando o mundo assim. O gesto de Lucas de abandonar o programa explicitou que é insuportável um mundo assim e que sair desse jogo reducionista é manter a soberania, a dignidade e não sucumbir a uma lógica que quer subordinar determinadas formas de existir. 

Toda essa trama é um desafio para quem se propõe a produzir, criar, executar entretenimento que faça sentido com toda a beleza e complexidade desse país. Espero que Lucas seja um desses produtores a despontar com alegria na produção de entretenimento. E que junto com ele venham muitas outras e muitos outros. As respostas estão dadas, precisamos olhar com mais cuidado para as perguntas. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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