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Macron faz papelão perante Otan e "cruza linha vermelha" ao ameaçar Rússia

Presidente da França afirmou a possibilidade de a Aliança Atlântica enviar tropas à Ucrânia, o que seria qualificado como confronto direto com Moscou
Juan Pablo Duch
La Jornada
Moscou

Tradução:

Seja por falar mal ou por não saber explicar o que quis dizer, o presidente da França, Emmanuel Macron (2017-), provocou, nesta terça-feira (27), uma avalanche de declarações, críticas e advertências. Estas reações vieram à tona depois do governante francês ter afirmado durante uma reunião em Paris, na última segunda-feira (26), para uma vintenta de governantes, sendo a maioria deles europeus, uma frase que colocaria o mundo à beira de uma guerra nuclear… se tivesse sido ratificada letra por carta. O que disse Macron?

Agora não há consenso para mandar tropas (da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, à guerra de Ucrânia), mas não devemos excluir nada. Faremos todo o possível para que Rússia não pode ganhar esta guerra. A derrota da Rússia, estamos convencidos, é indispensável para a segurança e a estabilidade na Europa”

O Kremlin não tardou em advertir: “Neste caso, não devemos falar de um possível, mas de uminevitável conflito armado (entre a Rússia e a OTAN). Assim o entendemos. E assim estes países devem entender e serem conscientes das suas consequências: isso corresponde com os interesses de seus cidadãos?”, questionou o porta-voz da presidência russa, Dmitri Peskov.

O chanceler francês, Stephane Sejourne, tentou suavizar a fala de Macron ao especificar que os países da aliança norte-atlântica podem mandar tropas à Ucrânia “sem ultrapassar o umbral da guerra”, o que significa – em sua opinião – o compromisso de não participar em combates com o exército russo. Esses soldados se ocupariam, por exemplo, de desativar campos minados ou aportar sua experiência na área da segurança cibernética.

Seu homólogo russo, Serguei Lavrov, não mordeu a língua: “Me parece que aqueles (Macron e seu chanceler) que pronunciam, mesmo só tenham pensado, esse tipo de ideia, devem usar sua cabeça para propostas mais sensatas e seguras para Europa”.

O chanceler federal da Alemanha, Olaf Sholtz, se somou ao debate ao precisar que seu país, e o que representa dentro da OTAN e da União Europeia, “não está considerando enviar suas tropas aos campos de batalha”. E acrescentou: “Tivemos (em Paris) uma conversa muito útil e concluímos que os acordos que alcançamos ao começo também valem no futuro. Portanto, não mandaremos tropas, os membros da OTAN não enviarão militares ao terreno ucraniano”. 

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Presidente da França afirmou a possibilidade de a Aliança Atlântica enviar tropas à Ucrânia, o que seria qualificado como confronto direto com Moscou

Foto: Jacques Paquier / Flickr
Macron também sugeriu que Otan forneça mísseis e projéteis de maior alcance, outra linha vermelha desde o ponto de vista russo

Grã-Bretanha, Itália, Finlândia, Suécia e República Checa, entre outros, se pronunciaram em termos similares e, em nome dos membros da OTAN, seu secretário-general, Jens Stoltenberg, terminou a polêmica. 

Os países da aliança norte-atlântica “prestam à Ucrânia uma ajuda sem precedentes, o fazemos desde 2014 (quando a Rússia anexou a Crimeia) e redobramos esforços quando se produziu a invasão (há dois anos)”, afirmou Stoltenberg, assinalando categórico: “Mas não temos nenhum plano de enviar tropas a território ucraniano”.

Poderia-se pensar que, assim, esclarecido o mal-entendido provocado por Macron, que sem se dar conta cruzou uma linha vermelha no confronto entre Ocidente e Rússia, não haveria mais motivo de fricção, mas no mesmo discurso em Paris, o mandatário francês deu uma declaração ainda mais delicada: fornecer mísseis e projéteis de maior alcance, outra linha vermelha desde o ponto de vista russo.

Não é claro, a partir das palavras de Macron, se há países prontos para cruzar essa linha: quantos membros da OTAN estão dispostos a proporcionar ao exército ucraniano armas que podem alcançar o território russo, além da faixa fronteiriça, o que Moscou interpreta como um ataque direto.

Em relação a uma espécie de nova coalizão anunciada pelo presidente francês, o chanceler Lavrov disse que “se for confirmada a entrega (à Ucrânia) de armas de longo alcance que possam golpear o interior da Rússia, de fato isso equivalerá a um suicídio”.


Caso Aleksei Navalny

A equipe de Aleksei Navalny, líder da oposição russa, morto na prisão este mês, lançou na segunda-feira (26) a versão de que houve uma suposta negociação para trocá-lo por Vadim Krasikov, oficial da inteligência militar russa condenado à prisão perpétua por assassinar Zelimjan Jangoshvili em Berlim, ex-comandante dos separatistas chechenos de origem georgiana, dando a entender que estava próximo de se alcançar um acordo e que por isso “o mataram”.

Maria Pevchij, colaboradora de Navalny, sem apontar nenhuma evidência que pudesse dar credibilidade às suas palavras, afirmou em um vídeo no YouTube: “Na noite de 15 de fevereiro recebi confirmação de que as negociações estavam a ponto de terminar. No dia 16 assassinaram Aleksei (Navalny)”.

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Pergunta: “Por que mataram Navalny? Deixaram bem claro a Putin que a única forma de receber Krasikov era sua troca por Navalny”. Segundo Pevchij, Putin tomou uma decisão “irracional” guiado pelo “ódio pessoal” que tinha do dirigente opositor.

No mesmo sentido, Kira Yarmish, que exercia funções de porta-voz de Navalny, publicou nas redes sociais: “Tinham que trocá-lo literalmente nestes dias. A proposta estava sobre a escrivaninha do (presidente Vladimir) Putin”. 

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A notícia, nem desmentida, nem confirmada pelo governo da Alemanha e que não mereceu nenhum comentário do porta-voz da presidência russa, surpreendeu inclusive conhecidos adversários do Kremlin que, como o famoso blogueiro Rustem Adagamov, se perguntaram: “Se já haviam alcançado um acordo para trocar Navalny por Krasikov, por que Putin ordenou assassinar uma das partes da troca? Não há lógica”.

Na entrevista que concedeu a Tucker Carlson – ex-apresentador estrela do canal de televisão FOX, o preferido dos conservadores estadunidenses e seguidores de Donald Trump – Putin deu a entender que estavam levando a cabo negociações para intercambiar Evan Gershkovich, correspondente do Wall Street Journal preso sob acusações de “espionagem”, por “um patriota que decidiu fazer justiça na Europa”, o que permitiu identificar com facilidade a Krasikov.

Outros inconformados com a política de Putin, como Vladimir Osechkin, fundador do projeto Gulagu.Net, que teve que se exilar na França após tornar de domínio público vídeos de torturas a presos comuns na Rússia, estão convencidos de que Navalny, cujo regresso a Moscou se deu de maneira voluntária e consciente do risco que implicava, não “teria aceitado ser trocado por um sicário que Putin enviou a Alemanha com a missão de matar uma pessoa em particular”.

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Em relação com Navalny, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, nesta segunda-feira respondeu com um rotundo “Não” à pergunta: “O presidente Putin teve algo a ver com o fato de que finalmente fosse entregue à mãe de Navalny seu corpo?”. E agregou: “Nada posso dizer a respeito. É um assunto que absolutamente não nos corresponde nem é prerrogativa nossa”. 

Juan Pablo Duch | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Juan Pablo Duch Correspondente do La Jornada em Moscou.

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