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Madiba e as crianças do Paraíso

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Oscar Arias Sánchez* 

nelson_mandela_photo_black_white“Que desapareça sua presença  e  que sua memória se impregne na consciência de todos”

Madiba alcançou o horizonte onde sua marcha pode, por fim, deter-se. Uma marcha iniciada por pés cansados e cheios de corrente, amarrado ao grilhão e uma escravidão  vergonhosa. Essa marcha que continuaram as hordas de trabalhadores que saiam das plantações de todas as partes do mundo, cantarolando um só hino de liberdade.  Essa marcha na qual desfilaram  Marcus Garvey, Martin Luther King Jr., Rosa Parks, Desmond Tutu, e milhares de heróis anônimos em todos os espaços e em todos os tempos. Essa marcha que tomou a forma de discursos e de palavras de ordem, de canções e de panfletos, de sublevações e de protestos. Uma marcha história rumo à aurora de um dia de igualdade. Uma marcha contra a segregação racial.

Ele disse no dia de seu lendário julgamento: a luta contra o apartheid era uma  causa pela qual estava disposto a morrer. Em troca, foi destinado a viver por ela. Viver no ventre cinzento de uma cela amuralhada  com o cimento do ódio, durante 27 longos anos de caminho até a liberdade. Viver para estreitar com amor as mãos da mesma classe que colocou algemas em seus braços. Viver para ser uma pedra no caminho de toda tirania, um aríete na passagem de toda a opressão dizendo: “daqui não passará”. Era o filho de uma família real, mas as leis de seu país o trataram como um ser inferior aos homens. Despojaram-no de toda classe, arrebataram-lhe sua liberdade e sua família. E foi então quando, desprovido de toda vaidade, adotou o traje mais lindo que pode vestir um ser humano: sua dignidade. Pela reconciliação nacional de seu povo, o homem que foi tratado com ódio e violência governou com paz e tolerância. O homem que levantou sua voz contra a discriminação racial e a opressão, pregou o perdão e a reconciliação  e pediu a seu povo a ao mundo inteiro que não esquecessem o que aconteceu, mas  sem vingança.

Morreu Madiba. Seu ocaso seria una tragédia se não fosse porque sua vida foi um milagre de tanta incandescência. Não tive a honra de conhecê-lo, mas talvez tenha sido ainda maior a honra de admirá-lo. A honra de saber que existia alguém cujo apego à paz perdurou na pior noite do ressentimento, alguém que resistiu à tentação da violência como um asceta no deserto.

Hoje quero pedir aos céus paz para seus restos. Que seu corpo durma e que seu espírito sonhe. Que desapareça sua presença e que sua memória se  impregne na consciência de todos. Chegará o dia, Mandela, em que a luz da tolerância iluminará os rincões mais escuros da Terra. Chegará o dia em que, em suas próprias palavras, “viveremos como as crianças do Paraíso”. Até lá e para sempre: obrigado.

*Oscar Arias Sánchez, ex-presidente da Costa Rica 1986-1990/2006-2010 e Prêmio Nobel da Paz 1987.

Anexo: O histórico discurso da posse presidencial de Mandela**Nelson-Mandela-na-cerimónia-de-tomada-de-posse

Em sua investidura, no dia 10 de maio de 1994, ele, já então ganhador do Nobel da Paz, fez um discurso que já está impresso na história mundial como uma das grandes obras da reconciliação racial. “Nunca, nunca  jamais tornará a acontecer que esta formosa terra experimente de novo a opressão de uns sobre os outros”, disse nessa ocasião.

Em seguida, reproduzimos o  discurso completo:

“No dia de hoje, todos nós, mediante nossa presença aqui e mediante celebrações em outras partes do nosso país e do mundo, conferimos esplendor e esperança à liberdade recém nascida. Da experiência de uma desmesurada catástrofe humana que durou tempo demais deve nascer uma sociedade da qual toda a Humanidade se sinta orgulhosa.

Nossos atos diários como sul-africanos comuns devem produzir uma autêntica realidade sul-africana que reafirme a crença da Humanidade na justiça, reforce sua confiança na nobreza da alma humana e dê alento a todas as nossas esperanças de uma vida esplêndida para todos. Tudo isso nós devemos a nós mesmos e devemos aos povos do mundo que tão bem representados estão hoje aqui.

Sem a menor vacilação digo a meus compatriotas que cada um de nós está intimamente arraigado no solo deste lindo país, tal como estão os famosos jacarandás de Pretória e as mimosas do Bushveld. Cada vez que um de nós toca o solo desta terra, experimentamos uma sensação de renovação pessoal. O clima da nação muda na medida em que também o fazem as estações. Uma sensação de jubilo e euforia nos comove quando a erva se torna verde e as flores se abrem. Essa unidade espiritual e física que todos partilhamos com esta pátria comum explica a profundidade da dor que albergamos em nosso coração ao ver como nosso país se despedaçava por causa de um terrível conflito, ao vê-lo rechaçado, proscrito e isolado pelos povos do mundo, precisamente por ter se convertido na sede universal da ideologia e da prática perniciosa do racismo e da opressão racial.

Mandela 2Nós, o povo sul-africano, sentimo-nos satisfeitos de que a Humanidade tenha tornado a nos acolher em seu seio; de que nós, que até pouco tempo estávamos proscritos, tenhamos recebido hoje o inusitado privilégio de sermos os anfitriões das nações do mundo em nosso próprio território. Agradecemos a todos os nossos distintos hóspedes internacional por terem vindo tomar  posse, junto com o povo de nosso país, do que é, afinal de contas, uma vitória comum da justiça, da paz, da dignidade humana. Confiamos em que continuarão a nos oferecer seu apoio na medida em que nos enfrentemos aos desafios da construção da paz, da prosperidade, da democracia, da erradicação do sexismo e do racismo.

Apreciamos profundamente o papel que o conjunto de nosso povo, assim como seus líderes de massas, políticos, religiosos, jovens,empresários, tradicionais e muitos outros, tanto homens como mulheres, desempenharam para provocar este desenlace. Entre todos eles, meu segundo vice-presidente, o honrado F.W. de Klerk, é um dos mais significativos. Também gostaríamos de render tributo a nossas forças de segurança, a todos de suas fileiras, pelo distinguido papel que vêm desempenhando na salvaguarda de nossas primeiras eleições democráticas, bem como da transição à democracia, protegendo-nos de forças sanguinárias que continuam se negando a ver a luz.

É chegado o momento de curar as feridas. O momento de transpor os abismos  que nos dividem. Chegou para nós o momento de construir. Por fim conseguimos a emancipação política. Comprometemo-nos a libertar todo o nosso do persistente cativeiro da pobreza, das privações, do sofrimento, da discriminação de gênero bem como de qualquer outra classe. Conseguimos dar os últimos passos para a liberdade em relativas condições de paz. Comprometemo-nos a construir uma paz completa, justa e perdurável. Triunfamos em nosso intento de implantar esperança no seio de milhões dos nossos. Contraímos o compromisso de construir uma sociedade em que todos os sul-africanos, tanto negros como brancos, possam caminhar com a cabeça erguida, sem nenhum medo no coração, seguros de contar com o direito inalienável à dignidade humana: uma nação irisada, em paz consigo mesma e com o mundo.

madela3Como mostra deste compromisso de renovação de nosso país, o novo governo provisório de unidade nacional, uma vez que é premente, aborda o tema da anistia para pessoas nossas de diversa condição que atualmente se  encontram cumprindo pena. Dedicamos o dia de hoje a todos os heróis e heroínas deste país e do resto do mundo que se sacrificaram de numerosas formas e ofereceram sua vida para que pudéssemos ser livres. Seus sonhos se fizeram realidade.  A liberdade é a sua recompensa. Nós nos sentimos ao mesmo tempo humildes e enaltecidos pela honra que vocês, o povo sul-africano, nos conferiram como primeiro presidente de uma África do Sul unida, não racista e não sexista, para conduzir o nosso país para fora deste vale de escuridão.

Mesmo assim, somos conscientes de que o caminho para a liberdade não é simples. Bem sabemos que nenhum de nós pode alcançar o sucesso agindo em solidão. Por conseguinte devemos atuar em conjunto, como um povo unido, para conseguir a reconciliação nacional e a construção da nação, para alentar o nascimento de um novo mundo.

Que haja justiça para todos. Que haja paz para todos. Que haja trabalho, pão, água e sal para todos. Que cada um de nós saiba que todo corpo, toda mente e toda alma foram liberados para que possam sentir-se liberados. Nunca, nunca jamais tornará a suceder que esta formosa terra experimente de novo a  opressão de uns sobre os outros, nem que sofra a humilhação de ser a escória do mundo. Que impere a liberdade. O sol jamais se porá sobre uma conquista humana tão esplendorosa. Que Deus abençoe a África. Muito obrigado.

Nelson Mandela1Em sua posse no dia 10 de maio de 1994 como presidente eleito desse país pronunciou um dos discursos mais curtos e mais belos da humanidade e citou o seguinte poema escrito por Marianne Williamson.

‘Nosso temor mais profundo não é que somos meramente idôneos.

Nosso temor mais profundo é temos poder além de qualquer medida.

É nossa luz ou nossas trevas, o que nos atemoriza.

Nos perguntamos: quem sou para ser brilhante, maravilhoso, talentoso e fabuloso?.

Em realidade, quem és  para não ser? São as crianças de Deus.

Se atuais de forma pequena de nada lhe servem ao mundo.

Não é um ato iluminado encolher-se para que as outras pessoas ao seu redor não se sintam inseguras.

Nascemos para manifestar a glória de Deus que se encontra em nós.

Não em alguns de nós está em todos.

E quando permitimos que nossa própria luz brilhe, inconscientemente damos licença a outras pessoas para que façam o mesmo.

Na medida em que nos livramos de nosso próprio temor, nossa presença automaticamente livra os demais”.

**Divulgado por “Bitácora” de Montevidéu


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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