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Mais de 15 mil números de políticos, jornalistas e ativistas foram espionados no México com software israelense Pegasus

Os números de celulares que possivelmente foram vigiados estão localizados em 45 países de quatro continentes; 10 países encabeçam a lista
Redação La Jornada
La Jornada
Nova York

Tradução:

Centenas de políticos, jornalistas, ativistas de direitos humanos, sindicalistas e executivos em 50 países foram objetos de espionagem por governos com a utilização do software Pegasus da empresa israelense NSO, entre eles dois jornalistas de La Jornada, segundo o Projeto Pegasus, uma investigação internacional conduzida por 17 meios.

Os aproximadamente mil números identificados até agora, incluem mais de 600 políticos e funcionários (incluindo chefes de Estado, diplomatas, integrantes de gabinetes e outros), 168 jornalistas, 65 executivos empresariais e 85 ativistas de direitos humanos. São apenas uma parte da lista de 50 mil números que supostamente são “pessoas de interesse” dos clientes da NSO desde 2016 e à qual teve acesso Anistia Internacional e uma ONG de Paris, Forbideen Stories, que impulsionaram o projeto. 

Os números de celulares que possivelmente foram interferidos estão localizados em 45 países de quatro continentes, mas a maioria está concentrada em apenas dez países onde existem práticas de espionagem sobre seus cidadãos e cujos governos são clientes da empresa israelense NSO que desenvolve e licencia o software de espionagem.

Os números de celulares que possivelmente foram vigiados estão localizados em 45 países de quatro continentes; 10 países encabeçam a lista

Facebook – reprodução
50 países foram objetos de espionagem por governos com a utilização do software Pegasus da empresa israelense NSO

México encabeça a lista

O México encabeça essa lista com mais de 15 mil números, reportou The Guardian, um dos integrantes do consórcio de meios do Projeto Pegasus. De fato, o México foi o primeiro cliente internacional do NSO em 2011, publicou o Washington Post, outro integrante do projeto.

As identidades das centenas de usuários detectados serão reveladas ao longo dos próximos dias pelos meios que integram o Projeto Pegasus. No último domingo (19), apenas foi iniciada a série com a divulgação dos nomes de jornalistas em vários países. 

Entre os jornalistas no México, 25 no total, que aparecem na lista, foram identificados os números de celular de Josetxo Zaldua Lasa, coordenador geral da Edição e de Luis Hernández Navarro, coordenador de Opinião de La Jornada.

Outros no México incluem Carmen Aristegui (Aristegui Noticias é integrante do Projeto Pegasus) e o repórter de Guerreiro freelance Cecilio Pineda, que um mês depois de seu número ter aparecido na lista de possíveis objetivos de espionagem, foi assassinado, em 2017, e cuja localização poderia ter sido revelada através do programa; também integrantes de Quinto Elemento e da revista Proceso (que também integra o projeto), incluindo Jenaro Villamil, que é agora presidente do Sistema Público de Radiodifusão.

Correspondentes de meios internacionais

A lista também inclui correspondentes de meios internacionais em vários países, incluindo os de AP, Reuters, Financial Times, CNN, Wall Street Journal, New York Times (inclusive seu então chefe de bureau no México), Le Monde e Al Jazeera, entre outros.

Hernández Navarro, de La Jornada, foi informado por Forbidden Stories que seu celular aparecia na lista de possíveis telefones intervindos com Pegasus a partir de 2016. 

Hernández recordou que esse ano foi particularmente intenso em torno da luta do movimento do magistério democrático contra a reforma educativa de Enrique Peña Nieto, continuava a ira popular nacional pelo desaparecimento dos 43 normalistas de Ayotzinapa e ocorreu o massacre de Nochixtlán em Oaxaca, em tudo o qual participou para reportar e analisar com outros no diário.  

“Não creio que a decisão de me espiar e a outros colegas tenha sido alheia a esses fatos. Não em vão Aurelio Nuño, então secretário de Educação e secreto aspirante à candidatura presidencial, era parte do grupo de Humberto Castillejos e do hoje prófugo Tomas Zerón, primeiro diretor da Agência de Investigação Criminal da PGR, e depois Secretario Técnico do Conselho de Segurança Nacional, que se negou a declarar na investigação sobre a compra e funcionamento do Pegasus por parte dessa dependência”, comentou neste domingo. 

Agregou que “há uma piada que circula entre jornalistas, defensores de direitos humanos e ativistas de causas populares: ‘Que alguém seja paranoico não quer dizer que não o perseguem’”. 

NSO nega responsabilidade

Por sua parte, NSO recusou ter responsabilidade sobre o uso do software por seus clientes — os quais identifica como 60 agências de inteligência, militares e de segurança pública em 40 países — e declarou que as conclusões da investigação são “exageradas”, reportou o Washington Post.  A empresa insiste que o propósito de seu software é vigiar criminosos e “terroristas”.  

Outros países que estão entre os que mais usaram Pegasus, além do México, incluem o Azerbaijão, Bahrain, Hungria, Índia, Cazaquistão, Marrocos, Ruanda, Arábia Saudita (o software foi empregado contra as duas mulheres mais próximas ao colunista Jamal Khashoggi que foi assassinado por sicários sauditas) e os Emirados Árabes.  

Pegasus funciona com o envio a um telefone inteligente de um software que se instala quando o usuário aceita um convite disfarçado. Ao infectar o telefone, captura todas as funções e informações (contatos, localizações, chamadas) de dentro desse telefone e inclusive pode gravar a partir das suas câmaras e microfones por controle remoto.  

Por ora, o Projeto Pegasus — integrado por mais de 80 jornalistas e coordenado por Forbidden Stories e a Anistia Internacional — conseguiu realizar investigações forenses sobre 37 telefones celulares para confirmar o uso do Pegasus e avaliar o que se sabe sobre o alcance do software de espionagem.

Não existem normas nem regras internacionais sobre o uso de programas de espionagem de grau militar como o Pegasus, portanto, se supõe que existam acordos secretos entre empresas como a NSO e os governos que a contratam, diz o Washington Post.

Edward Snowden, o informante da Agência de Segurança Nacional que revelou a existência de programas massivos de vigilância cidadã hoje refugiado na Rússia, considerou que “este vazamento [sobre Pegasus] será a notícia do ano”. 

La Jornada, especial dos correspondentes em Nova York

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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