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Mais de 700 lideranças colombianas foram assassinadas desde o Acordo de Paz de 2016

"Os assassinados são sempre líderes comunitários, defensores de direitos humanos, promotores da paz e guerrilheiros signatários dos acordos de paz”
Mariano Vázquez
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Na Colômbia não há descanso. A violência marcou, sem trégua, a história do país. O último e longo esforço de negociações que levaram à assinatura da paz em 2016 entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) e o governo de Juan Manuel Santos está morrendo diante do genocídio perpetrado contra líderes sociais, comunitários, sindicais, de direitos humanos e ex-líderes guerrilheiros que retornaram à vida civil.

Em todos os níveis, a extrema direita continua obstinada em promover a guerra. As forças populares são as principais vítimas. A cada três dias temos um assassinato. O discurso oficial promete justiça, mas só garante impunidade.

Uma das notícias de maior importância internacional foi o Acordo de Paz do Estado colombiano com as FARC, mas a violência sistemática contra líderes sociais não recebe o mesmo tratamento ou condenação global.

Mais de 700 colombianos foram assassinados entre 1 de janeiro de 2016 e julho de 2020, conforme as estatísticas do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz) e das organizações populares. E não há reprovação para um governo que aposta na guerra.

Sempre os mesmos

Como aponta Rodrigo Vargas Becerra, presidente do Comitê Permanente de Direitos Humanos do Valle do Cauca (localizado no sudoeste da Colômbia, próximo ao Oceano Pacífico), em diálogo telefônico com o Canal Aberto, “os assassinados são sempre líderes comunitários, defensores de direitos humanos, promotores da paz e guerrilheiros signatários dos acordos de paz”.

“É por isso que estamos tentando torná-los visíveis, porque todos os dias aumenta esse número de mortes”, frisou. Por essa razão e sob o lema “Estão nos matando”, partiu do Cauca há 15 dias a “Marcha pela Dignidade”, chegando em Bogotá na última sexta-feira, para denunciar os sistemáticos assassinatos de líderes sociais e ex-combatentes.

O líder social afirma que uma das causas estruturais da violência “é o problema da terra e do narcotráfico”. O censo agrícola de 2015 indica que 1% concentra 81% da terra. A extrema desigualdade que caracteriza a Colômbia não foi reparada pelos acordos de paz, apesar de ser um dos pontos principais.

"Os assassinados são sempre líderes comunitários, defensores de direitos humanos, promotores da paz e guerrilheiros signatários dos acordos de paz”

Hora do Povo
A cada três dias temos um assassinato. O discurso oficial promete justiça, mas só garante impunidade

Confira a entrevista

Antes de mais nada, gostaria de perguntar se poderias contar sobre a situação da violência na Colômbia, o ataque aos líderes sociais, e a você e a sua família em particular.

Rodrigo Vargas Becerra – O ataque de grupos paramilitares foi intensificado nos últimos tempos, tanto no Valle quanto no departamento de Cauca, onde teve influência a antiga insurgência das FARC-EP. Em todo o país, 208 guerrilheiros que assinaram o acordo de paz foram assassinados, assim como muitos líderes sociais e populares que reivindicavam terras.

No meu caso em particular, sou vítima de perseguição e ameaças há bastante tempo. Tive que reforçar minha segurança e a de minha família também, principalmente dos meus filhos.

Neste momento, meu filho mais velho está no exílio, porque o Estado colombiano não oferece nenhuma garantia para quem defende os direitos humanos, para quem acompanha as comunidades mais desprotegidas.

A área costeira de Buenaventura, no Oceano Pacífico, foi brutalmente atingida pela presença de paramilitares e cartéis de narcotraficantes. Eles estão despejando as comunidades, impunemente.

Mais de 200 líderes sociais foram assassinados nos primeiros seis meses do ano devido à inação do governo colombiano e ao silêncio internacional.

As estatísticas do Estado não coincidem com as das organizações sociais. Muitos dos assassinatos de líderes sociais, populares e defensores dos direitos humanos são classificados pelo governo como crimes comuns que nada têm a ver com a questão política ou com o exercício realizado por cada um dos companheiros, homens e mulheres, que foram assassinados. A perspectiva é difícil e, sobretudo, o silêncio do governo colombiano que tenta ocultar os problemas sociais do país.

Desde a assinatura dos Acordos de Paz, diferentes organizações apontam que mais de 700 pessoas que lideraram processos comunitários ou defenderam os direitos humanos foram mortas. Quais são as causas dessa violência direcionada?

Desde a assinatura dos acordos, podemos dizer que o número de assassinatos excede a 700. Essa estigmatização ocorre com os assassinatos, mas também com o deslocamento forçado das comunidades, seu desenraizamento.

Na área em que os guerrilheiros das FARC tiveram influência antes dos acordos, os interesses do narcotráfico reaparecem e, logicamente, os grupos paramilitares que os protegem para se instalar nessas regiões e criar seus núcleos de poder. Quem impede esse trabalho são os líderes sociais e populares. Então eles os matam.

O que acontece especificamente no Cauca?

O Cauca é um dos departamentos onde a escalada criminosa dos grupos paramilitares têm se intensificado. Sua presença tem a ver com as rotas de saída da droga para o Naya, ou seja, para o Oceano Pacífico. É uma área muito cobiçada, porque a partir daí os grupos paramilitares, os grandes traficantes exportam a droga.

Em Corinto e Miranda, a produção de maconha e o cultivo de coca são altamente cobiçados pelos laboratórios de drogas. Com o assassinato, com a intimidação, com a expropriação de terras, eles têm um caminho livre. Eles se livram das organizações que reclamam ou denunciam o que está acontecendo.

A distribuição de terras foi um dos pontos cruciais para a assinatura do Acordo de Paz.

Sim, depois do acordo de paz assinado entre a insurgência das FARC-EP e o governo colombiano, entre os pontos estava a questão da terra, a reforma agrária abrangente e a substituição de cultivos de uso ilícito. Muitos companheiros que vinham trabalhando nesse processo foram assassinados.

É uma questão orquestrada com a complacência do Estado e do governo colombiano, por ação ou omissão, porque é uma área com bases militares, batalhões, postos policiais, por isso não entendemos como as pessoas são mortas. Também não entendemos como entram os insumos para processar a droga e retirá-la para os grandes mercados internacionais.

Percebe-se que a classe política e empresarial não quer pagar a dívida histórica acumulada com os camponeses, indígenas, afrodescendentes, lutadores sociais, trabalhadores e o movimento de mulheres. Somente buscam exterminar aqueles que interferem nos negócios dos cartéis.

Os grupos insurgentes surgem (na década de 60), especialmente os guerrilheiros das FARC, como uma proteção aos camponeses que cultivavam à terra, reivindicando o direito à terra e que foram atacados pelo Estado colombiano e até por tropas estrangeiras. Desde então, eles foram deslocados e perseguidos. A história da Colômbia é atravessada pelo tráfico de drogas e pela posse da terra.

O governo nas décadas de 1980 e 1990 praticamente eliminou um partido, a União Patriótica (UP), que havia surgido entre os acordos do governo e as FARC em 1984. Este partido foi exterminado e até hoje, em 2020, há impunidade contra o genocídio político que foi perpetrado contra a UP. Do acordo atual, surge em 2017 o partido político das Forças Revolucionárias Alternativas do Comum, e até agora muitos líderes desse partido foram assassinados, continuando a perseguição e o assédio aos líderes sociais e populares.

Para o Estado colombiano, todo aquele que reivindica, que luta por direitos, se converte num inimigo em potencial e hoje essa situação se agudiza pelo partido do governo, o Centro Democrático, onde muitos de seus líderes estão comprometidos com o militarismo e o tráfico de drogas.

O presidente Iván Duque é uma ficha do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez, que é investigado, em centenas de ações, por paramilitarismo, e que pretende romper o acordo com as FARC. Hoje temos o dever de denunciar à comunidade internacional o que está acontecendo em nosso país.

Sempre me pareceu uma contradição que no plebiscito (realizado em outubro de 2016) aqueles que votaram predominantemente pela paz fossem os setores mais pobres, historicamente despojados e prejudicados pela violência; enquanto aqueles que vivem nas grandes cidades, em bairros protegidos e nunca foram atingidos pela violência política, votaram contra a paz.

Aqueles que votaram pelo Não no plebiscito seguiam uma orientação do uribismo [de Álvaro Uribe], dos inimigos da paz. O contraditório é que as pessoas que vivem nas cidades, que têm proteção, que não sentiram o rigor da guerra, votaram a favor do não. Muitos também votaram dessa maneira pela estigmatização feita contra as Farc, preferindo dizer “não à paz”, sem medir as consequências e sem entender o que isso significaria para a Colômbia. Acredito, no meu caso pessoal, que o acordo está como está, em circunstâncias tão difíceis, porque os inimigos da paz sentiram uma grande possibilidade de pisoteá-lo porque ganhou o Não.

Qual a sua avaliação da administração de Duque diante da pandemia de covid-19?

O presidente Duque, no contexto da emergência sanitária do país, favoreceu ostensivamente os grandes bancos, o monopólio financeiro. O apoio às comunidades tem sido insuficiente. Uma investigação aponta que ele usou recursos, dinheiro dos acordos de paz para melhorar sua imagem. O que demonstra que é um irresponsável. Não tem dado a proteção que um líder sério deve dar às pessoas comuns e aos setores sociais desprotegidos.

A realidade que Rodrigo Vargas Becerra nos relata com valentia é a de um país que nega justiça e proteção estatal aos setores populares, sujeito a ataques de quadrilhas criminosas. Mas é, acima de tudo, a história de mulheres e homens que continuam lutando pela terra, que se recusam a ser derrotados pela violência.

 

Mariano Vásquez, jornalista

Tradução: Leonardo Wexell Severo


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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