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Martín Vizcarra é o novo presidente do Peru; o que podemos esperar?

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

No fim da semana passada (23/3), depois da crise política gerada pela renúncia de Pedro Pablo Kuczynski, assumiu o comando do Estado o primeiro-vice-presidente da República, Martín Vizcarra Ortiz, um engenheiro provinciano com relativa experiência política, que surgiu como uma espécie de “esperança de paz” para muitos peruanos.

Gustavo Espinoza M.*

O novo ocupante do Palácio do Governo, tem antecedentes que é bom lembrar. Homem modesto e simples, teve bom desempenho na gestão pública quando foi presidente do Governo Regional de Moquegua. Nesse lapso, e pouco antes, jogou um papel louvável em defesa dos interesses da região no episódio que ficou conhecido como “Moqueguaço”, uma vigorosa e unitária jornada de luta em que todo o povo dessa região se sublevou contra a Southern Copper Corporation em defesa de seus recursos naturais e da biodiversidade.

Martín Vizcarra Ortiz.

Qualquer pessoa em Moquegua sabe que os Vizcarra são apristas [do partido Apra- Aliança Popular Revolucionária Americana – (NT)]. O pai do novo presidente, de fato, foi um antigo dirigente do partido de Haya de la Torre e até chegou a ser Constituinte em 1978. Pertenceu à velha guarda provinciana, que aderira ao que chamavam de Partido do Povo, convertido hoje numa máfia putrefada em decomposição. Não obstante, o homem conservou um perfil de modéstia e simplicidade que deixou marcas.

Martín Vizcarra seguiu nessa rota durante sua juventude. Alguns, inclusive, o situam na ARE – organização estudantil aprista na época, quando estudava na UNI. Já profissional, foi candidato ao legislativo pela Apra e não foi eleito. A derrota o induziu a formar um Movimento Regional com o qual teve mais sorte. A partir daí se consagrou como independente na política nacional e cresceu até chegar a ser postulado como vice do PPK nas conturbadas eleições de 2016. Com a renúncia do titular, assumiu o posto.

Nos últimos dias não lhe tem faltado conselhos, sugestões e críticas. De todos os ângulos uns e outros dizem o que deve e o que não deve fazer. Para isso a classe dominante tem experiência de séculos. O primeiro que faz para preservar seus interesses, é cercar o mandatário cobrindo-o de elogios. Descobre, assim, faces de sua personalidade e os exalta. Desse modo avançam em seus propósitos. Paralelamente movem seus pauzinhos na imprensa oligárquica e estimula a atuação dos politiqueiros de turno para ocupar o governo em seu proveito.

Eles criam o clima em que desejam atuar. Recomendam calma, prudência e moderação. Tratam de pôr panos quentes sobre os conflitos sociais. Afastar-se do radicalismo, ou seja, tomar distância dos trabalhadores e suas lutas. No fundo, aconselham a dar as costas à experiência dos povos, destacando que o extremismo não leva à nada.

Como a tarefa de Vizcarra agora é constituir o Conselho de Ministros, já estão promovendo os seus favoritos. Sugerem quem são as cartas a serem descartadas e aquelas com que deve jogar. Os primeiros nomes já estão sendo apontados: Jorge del Castillo, Antero Flores Araoz, Elmer Cuba…. A essa prática agregam a promoção de seus eleitos entrevistando-os para que diga o que deve ser feito para ter êxito. E assim caminham.

Ao mesmo tempo começam a difamar a figura do presidente. Para isso usam as redes sociais. No Facebook já se vê acusação de que Vizcarra nunca fez críticas contra Nicolás Maduro. Para eles é inaceitável. Então repetem à exaustão.

O movimento popular peruano vive um acelerado processo de maturação política. A gente já sabe que não há que ter ilusões de que algo mudará. Sabe também que as coisas não dependem de uma só pessoa. Os peruanos conhecem — ou intuem — a natureza das contradições sociais, e estão cientes de que os problemas que sufocam a cidadania, são mais importantes que um novo presidente.

Sabe também que o atual Congresso continuará sendo perverso. A máfia está ativa e tem em mãos os mecanismos do poder. A Confiep — a entidade empresarial mais importante, dirigida por Roque Benavides — também está atuante. Nem um nem outra estão dispostas a retroceder um passo sequer. O problema, então, não está em confiar ou não confiar em Martín Vizcarra e sim olhar a realidade tal qual é: Um homem, por si só, não garante nada. Um povo em luta, unido e organizado, como em Moquegua no começo do século, será capaz de obter vitórias.

A esquerda política tem em mãos hoje uma oportunidade de ouro. Poderá atuar com legítimas reivindicações atuando como corrente política das grandes massas nacionais, sem deixar-se seduzir pelo eleitoralismo barato.

Se atuar como requer a conjuntura, poderá erguer os alicerces de uma administração que poderá ser bem conduzida por um homem como Vizcarra. Ter um governo eficiente e honrado já é muito e indispensável para o Peru de hoje. Um bom começo para abrir caminhos que leve a que o povo seja realmente o protagonista da história.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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