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“Máscara é coisa de viado”. Ou: a heterossexualidade frágil dos heterossexuais

Pobre do homem cuja masculinidade depende de usar ou não um trapo no meio da cara
Cynara Menezes
Socialista Morena
São Paulo (SP)

Tradução:

Como é difícil a certos homens heterossexuais sustentarem a própria heterossexualidade, não? Manter a masculinidade aparenta ser um verdadeiro sacrifício para o hetero, um abnegado que resiste bravamente à tentação de ser homo, a ponto de coisas prosaicas representarem uma ameaça: não pode ter peças cor-de-rosa no vestuário; não pode decorar a casa a não ser de um “jeito hetero”Wake Me Up Before You Go-Go, do Wham!. Vai que… 

Uma característica do hetero frágil é que ele também costuma fazer exigências enormes às mulheres: precisam estar inteiramente depiladas ou eles não sentem tesão; estrias e celulite os fazem broxar; calcinha e sutiã descombinadas, então… É dura, amigos, a tarefa de manter-se hétero neste mundo. Ou flácida, depende do ponto de vista.

Pobre do homem cuja masculinidade depende de usar ou não um trapo no meio da cara

The New Yorker
Como não pensar que toda essa masculinidade é forçada, se fraqueja diante de uma máscara para proteger de uma doença contagiosa?

A mais nova ameaça à masculinidade são as máscaras contra a Covid-19. Donald Trump se recusa a aparecer em público usando máscaras e retuitou uma postagem do comentarista reaça Brit Hume, da Fox News, tirando sarro do rival do presidente, Joe Biden, por comparecer a um evento de máscara –aliás, bastante estilosa. 

Em resposta, Biden tocou no nervo: “Presidentes devem dar o exemplo e não se envolver em tolices e serem falsamente masculinos”. 

Pois é, como não pensar que toda essa masculinidade é forçada, se fraqueja diante de uma máscara para proteger de uma doença contagiosa? “Máscara é coisa de viado”, como diz Jair Bolsonaro a funcionários diante de visitas, segundo revelou a jornalista Monica Bergamo na Folha de S.Paulo.

No twitter, a antropóloga Débora Diniz também foi no ponto. Bolsonaro, como Trump, não quer usar máscara porque isso “afeta” sua masculinidade, o fragiliza. “As tensões de Bolsonaro com a máscara são como o buraco da fechadura sobre a masculinidade tóxica”, escreveu.

Mais que masculinidade tóxica, é uma masculinidade capenga: “homem que é homem não usa máscara”. E esse pensamento não é exclusivo de Bolsonaro e Trump. Um estudo que ouviu 2549 norte-americanos, divulgado em maio pela Middlesex University de Londres, apontou que os homens estão mais inclinados a não usar máscaras em público do que as mulheres porque acham “embaraçosas, sem charme e transmitem fraqueza”.

Esse tipo de afirmação soa ainda mais absurda quando as estatísticas mostram que os homens morrem mais pelo coronavírus do que as mulheres e quando novas pesquisas científicas defendem que o uso de máscaras é o meio mais eficaz (e ainda por cima barato) de prevenir o contágio aéreo. Um estudo recente da Universidade de San Diego sustenta que usar ou não usar máscara não é a questão, e sim a resposta.

“Apenas a iniciativa de cobrir o rosto para bloquear a atomização e a inalação de aerossóis portadores de vírus é responsável por reduzir infecções significativamente na China, Itália e Nova York, indicando que a transmissão aérea do Covid-19 representa a principal rota para a infecção”, disse o professor Mario Molina, Nobel de Química em 1995, um dos responsáveis pelo estudo. Em linguagem simples: como o principal meio de transmissão é aéreo e por gotículas, as máscaras impedem que seus perdigotos atinjam outra pessoa e vice-versa.

Ou seja, não é só falta de cuidado consigo mesmo e com o próximo, é burrice. Pobre do homem cuja masculinidade depende de usar ou não um trapo no meio da cara. Homens públicos como Bolsonaro e Trump prestam, além de tudo, um desserviço à sociedade ao sabotar o combate ao coronavírus pelo mau exemplo e pelas decisões que atingem a população como um todo, não só quem tem problemas com a própria heterossexualidade: o presidente brasileiro vetou a obrigatoriedade do uso de máscaras no comércio, nas escolas e nas igrejas.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Cynara Menezes

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