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Massacres, fascismo, eleições e o exemplo do Paraná

Não precisamos ir a outros países para estudar holocausto, fascismo, massacres, genocídios, e eventos similares. Basta pesquisar nossa história
Ceci Juruá

Tradução:

Nas recentes eleições,  os maiores percentuais de votos  obtidos pelo candidato eleito presidente do Brasil  foram obtidos nas regiões Sudeste e Sul.  Os sete estados dessas duas regiões concentram o maior percentual do eleitorado e construíram, portanto,  esta recente vitória:  Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Santa Catarina  e Rio Grande do Sul. 

As gritantes diferenças regionais foram claramente percebidas por jornais do mundo inteiro. O francês Le Monde, que acompanha com atenção as eleições brasileiras há algum tempo, enfatizou a importância do Sudeste formado por quatro estados, que produzem 60% do PIB/Produto Interno Bruto. Observou ainda que nesses estados a população é majoritariamente branca, segundo o Censo de 2010 (55% da população regional é branca, contra 47% para o total do Brasil).

Não precisamos ir a outros países para estudar holocausto, fascismo, massacres, genocídios, e eventos similares. Basta pesquisar nossa história

O Parana Espanhol / Blog
Euro Brandão- "O grande êxodo"- Museu Paranaense (extraído de: Secr. Est. da Cultura- "Missões: conquistando almas e territórios". Curitiba,

Nos sete estados das regiões Sudeste e Sul foi grande, de fato, o diferencial de votos entre os dois candidatos. Ali, Haddad, defensor da democracia e dos direitos humanos, perdeu por uma diferença de 19 milhões de votos. Reduziu essa diferença por conta do saldo favorável que obteve no Nordeste, quase 9 milhões de votos. Mas não foi suficiente.  

Cabe aos cientistas sociais explicar as razões que podem ter motivado as escolhas, antagônicas, de populações tão díspares do ponto de vista da renda e da educação formal. Coube aos brasileiros mais pobres e menos instruídos optar pelo defensor de ideais mais elevados – a democracia, os direitos humanos, a tolerância e a convivência cordial. Quem diria !

Da minha parte, eu prefiro a história como fonte primária para chegar à compreensão de fatos da atualidade. E não preciso ir à Alemanha nem relembrar o que ocorreu nos anos finais da Segunda Guerra Mundial, o historicamente datado holocausto. Basta revisitar nossa própria história. Até me permito supor que estivemos entre as primeiras vítimas de todos os holocaustos praticados na história do capitalismo, desde aqueles séculos iniciais, quando predominou o regime de acumulação primitiva (14 a 16).

Bom exemplo entre nós é o espaço hoje ocupado pelo estado do Paraná, um dos sete estados que garantiram a vitória de Jair Bolsonaro. Havia naquele estado, em meados do século 17, uma população superior a 100 mil habitantes, distribuídas em treze povoações organizadas pelos missionários da Companhia de Jesus. “Segundo Romário Martins, à época do ataque dos [bandeirantes] paulistas, dos 100 mil índios aldeados, “foram mortos na peleja 15.000 e 60.000 foram escravizados e vendidos…””.  [1]

Claro que há divergências, muitas, sobre os números de indígenas que viviam nessa região, entre os historiadores. Mas há consenso que aquela área pertencia à Espanha, segundo o Tratado de Tordesilhas. E que a decisão sobre aldeamento dos indígenas fora tomada no Paraguai, na segunda metade do século 16, para deter a penetração portuguesa. Esta ocupação, o aldeamento, permitiria “subordinar cerca que 200.000 índios que habitavam a região de Guaira” pensavam os espanhóis colonizadores.[2]

Na verdade, calcula-se hoje que havia milhões de índios habitando o Brasil. Nossos povos nativos. Aprisionados por homens brancos, inaugurando a modernidade. Aprisionados como bichos, como animais selvagens, inaugurando a escravidão que permitiria produzir o primeiro pó branco da história do capital nas Américas, o açúcar. Eram milhões de indígenas habitantes do Brasil nos séculos 16 e 17. Quantos seriam hoje se pudessem continuar a sobreviver em suas terras?  

Não terá sido este o maior holocausto praticado em nome da acumulação de capital? Tendo à frente, como autores, responsáveis,  ibéricos, habitantes dos países baixos e  anglo-saxões.  E tantos e sucessivos holocaustos aqui praticados, impunes até hoje, não são as sementes culturais das manifestações fascistas que se percebe em nossos dias? Dos ricos contra os pobres.  Dos ditos cultos contra os de fala popular. De colonizadores contra colonizados.  

Não precisamos ir a outros países para estudar holocausto, fascismo, massacres, genocídios, e eventos similares. Basta pesquisar nossa história, os quatro cantos de nosso atual território. Vítimas contam-se aos milhões. E isto dura há mais de cinco séculos. Talvez seja melhor usarmos exemplos do que ocorreu aqui, entre nós, do que valorizar mais eventos estrangeiros. Assim quem sabe talvez um dia sejamos capazes de nos impor e defender melhor nossa terra e nossa gente.  

*Professora de Economia na UFRJ, colaboradora de Diálogos do Sul

As opiniões expressadas nos artigos publicados pela revista expressam a posição de seu autor e não necessariamente o pensamento editorial da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Ceci Juruá

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