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Maternidade forçada é uma carga injusta; contra meninas, é crime imperdoável

Ser mulher constitui um risco vital. Assediadas nas ruas, no lar, na escola e no local de trabalho, devem viver à defensiva e suportar toda classe de agressões
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul
Cidade da Guatemala

Tradução:

As cifras de meninas e adolescentes mães na região centro-americana – mais de 215 mil só em 2019, de acordo com instituições oficiais e organismos internacionais – é um desses indicadores, como o da pobreza extrema, excluídos das políticas públicas prioritárias dos governos. Aqueles que têm a chaves do poder desde setores privilegiados consideram estas patologias sociais como um fenômeno natural, inevitável, cuja responsabilidade recai naqueles que as sofrem e jamais entre aqueles que a provocam. 

Principal causa de morte entre meninas e adolescentes, a maternidade forçada – há que lembrar que o sexo com menores de 18 anos está tipificado como violação – constitui uma condenação real e inevitável a uma vida de privações e miséria. A esmagadora maioria dos governos da região e do continente desenvolvem suas políticas sob um sistema de administração estatal influenciado pelos setores econômico e religioso de tipo patriarcal que, em perfeita sintonia, têm permanecido inalteráveis desde os tempos da Conquista, incidindo com todo o seu poder na política e na administração de justiça. 

Ser mulher constitui um risco vital. Assediadas nas ruas, no lar, na escola e no local de trabalho, devem viver à defensiva e suportar toda classe de agressões

Reprodução Twitter
Só em 2019, mais de 215 meninas e adolescentes se tornaram mães na região centro-americana.

O patriarcado não é uma fantasia feminista. O patriarcado existe e está instalado desde as épocas mais remotas, restando oportunidades e direitos às mulheres – por lei, por tradição, por simples processo de adjudicar a autoridade a uma metade da população e proibi-la à outra – com o resultado de sociedades doentes, violentas, racistas, discriminatórias e incapazes de funcionar como um todo, com iguais metas e objetivos. É penoso comprovar que em pleno século da tecnologia e das viagens interplanetárias existam limitações ao desenvolvimento das meninas, adolescentes e mulheres por um sistema de limitações por questões de gênero que sobrevive desde a pré-história.

Naquelas nações – como as centro-americanas – nas quais se tolera o abuso sexual contra meninas e adolescentes com o resultados de gravidezes forçadas e maternidades que jamais deveriam suceder, o desenvolvimento social é um objetivo perdido. Os impedimentos institucionais para a integração deste importante setor da juventude ao gozo dos direitos fundamentais, como uma educação de qualidade, um desenvolvimento físico e psicológico adequados, um acesso livre a todas as oportunidades de vida das que goza a outra metade da sociedade, são sociopatias inaceitáveis cujo alcance põe em perigo de morte seres tão valiosos como inocentes.

Ser mulher – e pior ainda – ser menina – constitui um risco vital. Assediadas nas ruas, no lar, na escola e no local de trabalho, devem viver à defensiva e suportar toda classe de agressões pelo simples fato de serem mulheres. Aqueles que supostamente devem ser seus pares são, na verdade, seus superiores hierárquicos neste sistema perverso de privilégios por gênero. A negação desta cadeia interminável de abuso nada mais é que uma perpetuação do sistema por meio de um condicionamento psicológico capaz de transformar as vítimas em seus próprios algozes, ao convencê-las da suposta pertinência do marco de valores que as submete. 

Talvez por isso a sociedade não responda à urgência de proteger as meninas e adolescentes das agressões sexuais e, em lugar disso, as culpe por sua desgraça. Numerosos são os casos de incesto e violações cometidas no entorno íntimo, sob o olhar cúmplice de familiares e vizinhos que, com essa atitude, confirmam de maneira rotunda seu desprezo pelas vítimas. Isto deve terminar. 

Assediadas em todos os espaços, a meninas devem lutar para sobreviver.

*Colaboradora de Diálogos do Sul da Cidade da Guatemala

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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