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Médicos cubanos deixam a Bolívia após série de agressões por parte do governo golpista

A carga de ódio racial está evidente nesse episódio. Não aceitam que uma negra ou um indígena seja o médico que vai atender sua família
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Eram os indígenas que precisavam dos médicos cubanos. Como no Brasil era a gente mais humilde, das periferias e do rincões das cidades. A resposta dada pelos que derrubaram o presidente Evo Morales foi barbárie e repressão. As imagens são tão dramáticas como as mensagens que nos chegam por áudio e vídeo.

Os médicos cubanos, por fim, foram expulsos da Bolívia por gente que nunca aceitou a convivência com a maioria indígena da população boliviana e agora extravasam seu ódio e impotência com violência.

São iguais às milícias da Falanje, organização paramilitar fascista que na década de 1970 metralhou estudantes em salas de aula na Universidade de Santa Cruz. Assassinos desalmados que declararam guerra contra quem os contraria.

A carga de ódio racial está evidente nesse episódio. Não aceitam que uma negra ou um indígena seja o médico que vai atender sua família

Prensa Latina
Os médicos cubanos, na Bolívia, prestavam atendimento em áreas onde os médicos bolivianos brancos se recusam a ir

Quem no Brasil foi atendido por um médico ou uma médica cubana sabe do que estou falando. São profissionais que, além de competentes, foram formados para serem médicos de família e levam consigo tremenda carga de humanidade, tratam a todos com muito carinho.

Vinte mil médicos cubanos estavam prestando um grande e excelente serviço no Brasil até que foram ofendidos e obrigados a deixar o país por este governo de ocupação, a quem o sofrimento do povo não lhes importa nada. Acusam os médicos de conspirar o que sabemos ser uma grande mentira.

A quantidade de médicos na Bolívia não é suficiente para atender a demanda de serviços de saúde. No Brasil, também os médicos estavam atendendo nas áreas mais carentes de serviços, nos bairros periféricos ou nos remotos rincões do interior, inclusive na selva amazônica. 

Atendiam onde o médico branquinho se negava a ir. A prova disso é que que as áreas que ficaram descobertas depois da saída dos médicos cubanos, no Brasil, até hoje não foram preenchidas. A população reclama a ausência do carinho desses médicos.

Esses médicos, na Bolívia, já prestaram ingentes serviços à população. Contribuíram, por exemplo, para salvar centenas de milhares de pessoas da cegueira, com as campanhas de erradicação do vitiligo e da catarata.

A carga de ódio racial está evidente nesse episódio. Não aceitam que uma negra ou um indígena seja o médico que vai atender sua família. Que o restante da população fique sem médico não lhes importa.

Apelo aqui às pessoas que em qualquer lugar do Brasil, da Nicarágua ou da Venezuela e mesmo da Bolívia, que algum dia tenha sido socorrida ou atendida por um médico, ou uma médica cubana, que se mobilizem em um movimento de solidariedade. Temos que ser solidários e exigir parar essa perseguição a essa gente que tem como única façanha atender a população que mais necessita da atenção médica que lhe é negada pelo Estado.

Ajude a divulgar os fatos que estão ocorrendo na Bolívia. O povo brasileiro é solidário, saberá condenar a ingerência do governo de ocupação na promoção do golpe de Estado contra o governo de Evo Morales, um líder aimará. Saberá condenar a escancarada presença dos Estados Unidos no golpe, emprestando até carros oficiais para as falantes fascistas.

Não se pode esquecer que esse Donald Trump, que chegou à presidência dos Estados Unidos através da fraude, tenha decretado a morte de Evo Morales. As milícias fascistas estavam sedentas do sangue de Evo, invadiram e depredaram sua casa e casas de seus familiares.

O presidente Evo Morales escapou de ser morto por interferência direta de Lópes Obrador. Amlo, presidente do México, num gesto de coragem e solidariedade, mandou avião oficial recolher o presidente boliviano. No México Evo anuncia que vai voltar, ainda é o presidente.

O povo boliviano tampouco aceitou o golpe. Esse povo não se rende assim facilmente. O golpe financiado e apoiado pelos Estados Unidos e pelo Brasil está fadado ao fracasso retumbante. Tal como aquela tentativa de golpe que levou o ex-presidente Hugo Chávez à prisão e ele voltou nos braços do povo, Evo estará de volta nos braços do povo.

Servirá a lição? Esse episódio exige análise de cabeça fria, pois suscita muitas interrogantes.

De que lado estavam os serviços de inteligência? O presidente denunciou mais de uma vez que os Estados Unidos estavam conspirando contra o seu governo e… o que foi feito para deter a conspiração?

Em todo esse tempo, porque o governo plurinacional não mudou a composição da polícia e da polícia militar? E a composição do alto comando do Exército?

A história da Bolívia é cheia de ensinamentos.

A Revolução de 1952, anti-oligárquica e anti-imperialista, deu certo porque o povo (camponeses e mineiros) derrotou o Exército. O governo resultante, do MNR, durou várias décadas e nesse tempo o exército foi reorganizado e se tornou golpista. A Revolução de 1970, com o povo mobilizado (trabalhadores do campo e das cidades e os mineiros), durou apenas nove meses porque o general Juan José Torres, assumiu o poder junto com a Assembleia Popular se negou a entregar armas que povo exigia. E o povo estava organizado para defender o poder da Assembleia Popular.

Porque a Revolução Bolivariana ainda não caiu? Talvez seja pelas mesmas razões que a Revolução Cubana não caiu apesar de 50 anos de contrarrevolução dos Estados Unidos. São as lições da história. Só o povo organizado e armado segura uma Revolução. É isso.

*Paulo Cannabrava Filho é editor da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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