Lentidão e injustiça mantêm abertas feridas após 3 anos do crime ambiental da Samarco

Reparações são decididas quase exclusivamente pelas mineradoras responsáveis pelo rompimento da barreira do Fundão

Rafaella Dotta

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Com a chegada do dia 5 de novembro de 2018, os atingidos pela barragem têm uma triste tarefa: fazer o balanço de tudo o que aconteceu depois do rompimento da barragem de Fundão, de propriedade da Samarco/Vale/BHP Billiton. E a palavra que mais aparece é “frustração”. Depois das mortes e das perdas em 2015, a vida de milhares de pessoas mudou para pior e, afirmam, as mineradoras pouco fizeram para consertá-las.

Só uma casa construída

As comunidades de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira, em Minas Gerais, foram as que tiveram o maior número de casas atingidas ou destruídas pela lama. O Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) calcula que pelo menos 410 famílias precisarão ser reassentadas, e mais de 300 aguardam a reforma ou reconstrução de suas casas.Apenas uma foi efetivada até o momento, no distrito de Ponte do Gama, zona rural de Mariana. As casas de Bento Rodrigues – o povoado que foi totalmente destruído - foram prometidas para março de 2018, mas o prazo foi prorrogado para junho de 2019.

Outra marca da lentidão é a falta de soluções para o uso da água, a plantação e criação de animais em lugares por onde a lama passou. Letícia Oliveira, integrante do MAB, explica que os moradores pressionaram a Fundação Renova- criada pelas mineradoras para fazer as reparações - para realizar estudos mais aprofundados, mas acabaram retomando as atividades por sua conta e risco. “Mesmo aqui em Mariana, que tem muita contaminação, o pessoal está comendo e criando peixe”, diz Letícia.

Nilmar Lage
Depois das mortes e das perdas em 2015, a vida de milhares de pessoas mudou para pior / Foto: Nilmar Lage

Os moradores criam peixes em tanques naturais na terra – um buraco escavado e cheio d’água –, que pode ser contaminado através do solo.

O desleixo com a contaminação

Já em Barra Longa, a incerteza deu lugar aos sintomas. O Instituto Saúde e Sustentabilidade, em parceria com o Greenpeace, entrevistou 507 pessoas e 37% delas relatou que sua saúde piorou depois do desastre. Dor de cabeça, tosse e dor nas pernas são os mais recorrentes e 83% afirmam ter adquirido problemas emocionais ou comportamentais. Dentre as crianças, as doenças respiratórias foram 60% das reclamações. Os mesmo sintomas são sentidos em toda a bacia, da foz ao litoral do ES.

A filha de Simone Aparecida, de 4 anos, apresenta dificuldades para respirar, manchas vermelhas e queda de cabelo. “Tem três anos que eu estou denunciando esses problemas de saúde”, lamenta. Uma receita médica aconselha que a família deixe a cidade, para que a criança não fique próxima da lama, porém, a Fundação Renova não fornece nova moradia nem o benefício do cartão mensal, pois não considera que a criança seja atingida.

Indenizações injustas

As reclamações sobre as indenizações também são muitas. Atingidos se dizem indignados com a falta de transparência e a demora dos ressarcimentos. Pessoas com problemas iguais estariam recebendo valores diferentes, famílias que requerem indenização ainda esperam resposta e os valores seriam abaixo do esperado. Para Thiago Alves, do MAB e morador do médio Rio Doce, os casos mostram uma desorganização da Renova.

O Movimento de Atingidos por Barragens calcula que quase 2 milhões de pessoas foram atingidas pelo crime da Bacia do Rio Doce. Dessas, 30 mil foram cadastradas, 8.537 foram indenizadas por danos gerais e 254 mil indenizadas por desabastecimento de água, que pagou em média mil reais por pessoa. O programa de auxílio financeiro emergencial assiste atualmente 10 mil famílias, com um salário mínimo por mês, mais 20% por dependente e cesta básica.

Respostas

A Fundação Renova declara que contratou 80 profissionais que se integraram aos órgãos do SUS na região e está em andamento a Avaliação de Risco à Saúde Humana, fiscalizada pelo Comitê Interfederativo. Declara ainda melhorias nas Estações de Tratamento de Água em cidades atingidas, e que a água do Rio Doce “pode ser bebida com segurança desde que seja tratada”.

Raio-x da Fundação Renova

A Fundação Renova foi criada em 2016 para cuidar das indenizações e outras reparações após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. As mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton não podem “cuidar das vítimas”, já que foram as responsáveis pelo crime. A Fundação Renova seria uma entidade neutra a fim de fazer valer os direitos dos atingidos, porém, os próprios atingidos passaram a se atentar para “quem manda” na fundação.

O site da Renova mostra sua organização, com seis órgãos principais e seis órgãos indiretos, sendo que o Conselho Curador é quem bate o martelo do que será feito. Até setembro deste ano, o conselho era composto por: três indicados pela Vale S.A., três indicados pela BHP Billiton e uma pessoa indicada pelo Comitê Inter federativo. Ou seja, 85% do conselho formado pelas empresas responsáveis pelo crime, que com este número conseguiam aprovar ou desaprovar o que fosse do seu interesse.

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