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Mesmo com "recuso" à nova Constituição, maré da mudança continuará trajetória no Chile

Fantasmas da Guerra Fria e ameaças dos setores conservadores têm seu prazo marcado
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul
Cidade da Guatemala

Tradução:

Entre conservar um texto constitucional – acordado e escrito durante a ditadura – ou plasmar em uma nova Constituição um marco surgido do diálogo e do consenso entre distintos setores da cidadania, se debateu no domingo o futuro do Chile.

A proposta de mudança não só representava um salto quântico na maneira de colocar a rota para o futuro, mas constituía também a resposta às aspirações de paz, justiça e equidade das grandes maiorias.

Diante dessa perspectiva, ambos os bandos – o Aprovo e o Recuso – deixaram patente a profunda divisão que ainda persiste no povo chileno. 

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A campanha orquestrada contra o Aprovo, pelos setores mais conservadores, utilizou todos os recursos criados pelos estrategistas da Guerra Fria para injetar na população o medo e a incerteza. Os ecos da ditadura e a furiosa reação dos círculos de poder econômico foi o detonante de uma campanha cheia de mentiras e ameaças.

Esses setores utilizaram sua poderosa influência midiática para espantar toda possibilidade de mudança e manipular os conceitos propostos pelas vozes reunidas na Convenção Constitucional, de onde surgiu a proposta. 

O temor da direita chilena se reflete em sua rotunda recusa à aprovação de um texto constitucional no qual predomina a abertura para a participação de todos os setores da cidadania, incluídos os historicamente marginalizados grupos sociais – povos originários, mulheres e juventude – assim como a proteção da riqueza natural com uma visão integradora para o desenvolvimento.

A maneira como se gerenciaram e exploraram os recursos durante as últimas décadas, gerou uma polarização extrema entre setores e um empobrecimento sustentado das capas menos beneficiadas pelo sistema neoliberal.

Fantasmas da Guerra Fria e ameaças dos setores conservadores têm seu prazo marcado

Horizontes Democráticos
O que se sucedeu no tradicional referendo do último domingo (4) marca o futuro imediato

Os movimentos populares pela mudança no Chile tiveram sua máxima expressão nas manifestações de rua em outubro de 2018. Ignorar sua transcendência equivale a tentar frear as marés.

Durante meses foram debatidos, pública e abertamente com uma grande transparência, os artigos redigidos para a nova Carta Magna, o contrário do sucedido durante o processo de redação da constituição atual, elaborada na intimidade dos despachos da ditadura.

Foi um esforço executado por representantes de todos os setores, contra fortes campanhas de desprestígio e desinformação a partir dos círculos de poder mais afetados por este potencial giro de rota. 

Resgato um breve poema de Nano Stern, compartilhado no Twitter, porque reflete em poucas palavras o sentimento de muitos chilenos, dentro e fora de suas fronteiras:

“Quanto sangue, quantos olhos
quantas lutas, quantos sonhos
quantos desejos e empenhos,
quantos anos de despojos…

É tempo de abrir fechaduras
e andar um caminho novo;
eu digo e me comovo
porque chegou o dia:
com esperança, alegria e convicção, voto aprovo”. 

O que se sucedeu no tradicional referendo do último domingo (4) marca o futuro imediato, mesmo que a votação não tenha aberto a porta para a mudança. Pois essa maré continuará sua trajetória, canalizando as demandas do povo chileno por um marco jurídico capaz de consolidar um sistema mais equitativo, justo e definitivamente responsável; os fantasmas da Guerra Fria e a ameaças dos setores conservadores têm seu prazo marcado.

Um texto constitucional deve responder aos anseios de justiça e equidade.  

Carolina Vasque Araya, colaboradora da Diálogos do Sul, de nacionalidade chilena, a partir da Cidade da Guatemala.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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