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Michelle Bachelet diante de um Chile diferente

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Enrique Torres*

Michelle BacheletDepois das eleições primárias de junho, ficou evidente que a ex presidenta chilena Michelle Bachelet se consolida como candidata favorita para as eleições presidenciais de novembro próximo. Bachelet arrasou na disputa interna do pacto opositor Nueva Mahoría, ultrapassando com ampla vantagem seus adversários Claudio Orrego, da Democracia Cristã, José Antonio Gómez, do Partido Radical Socialdemocrata e Andrés Velasco, independente.

No que foi denominado tsunami eleitoral, com mais de 73% dos votos, a ex presidenta assegurou a legenda da aliança para enfrentar o candidato da direita que saiu vencedor nas primárias, Pablo Longueira e a candidatos de outros partidos e independentes que competirão em eleição direta para o Palácio de La Moneda. No entanto, Longueira, em decisão de última hora, renunciou a candidatura, acometido de depressão, decisão que provocou um terremoto político nas hostes dos partidos governistas, em busca de quem levará sua bandeira nas eleições.

Não há dúvida de que a campanha de Bachelet, com suas propostas, seduziu uma grande parte do eleitorado que foi as urnas nas primárias e lhe deu mais de um milhão e 500 mil votos, dos pouco mais de dois milhões do total recebido pelos candidatos da oposição.

Do outro lado, os candidatos da aliança de direita, Longueira, pela Unión Demócrata Independiente e Andrés Allamand, de Renovación Nacional, em conjunto, conseguiram 806 mil votos.

Segundo a revista Punto Final a disposição de Bachelet de lutar contra a desigualdade, a reformar a educação, a saúde, a previdência e o sistema tributário, acertaram em cheio o alvo das demandas de um setor majoritário da população.

Bachelet é candidata pelos partidos Socialista e pela Democracia, com apoio também dos comunistas, da esquerda Cristã o do Movimiento Amplio Social.

A ex presidenta, de 61 anos é  pediatra de profissão, filha da antropóloga Angela Jeria e ddo general Alberto Bachelet, que morreu de enfarte seis meses depois do golpe de estado de 11 de novembro de 1973, afetado pelas torturas que sofreu em mãos de seus subalternos por se opor a quartelada.

Depois do golpe Bachelet foi detida junto com sua mãe nos centros de reclusão da ditadura de Pinochet, até que em 1975 ambas foram expulsas do país. Depois de quatro anos de exílio na Austrália e Alemanha, retornou em 1979 ao Chile onde continuou seus estudos de medicina e se especializou em pediatria.

Depois da queda de Pinochet, Bachelet ocupou vários cargos públicos na área de saúde, frequentou cursos sobre estratégia militar. Durante o governo de Ricardo Lagos atuou como ministra de Saúde nos primeiros dois anos e depois ocupou a Ministério de Defesa, sendo a primeira mulher a ocupar essa pasta na história da nação.

Em março de 2006 foi também a primeira mulher chilena a assumir a Presidência da República, que ocupou até março de 2010, quando entregou a faixa para o sucessor Sebastián Piñera.

Em setembro desse ano foi designada diretora da ONU Mulher, uma agência das Nações Unidas criada recentemente para defender os direitos das mulheres e meninas no mundo, responsabilidade a que renunciou em março deste ano para regressar ao Chile e participar da campanha eleitoral com a intenção de voltar a ocupar o La Moneda.

Entre suas propostas programáticas defenda a educação pública gratuita para os cidadãos de baixa renda e uma reforma tributária que permitiria arrecadar uns 8.2 bilhões de dólares, que seria destinado a reformar o sistema de ensino com ênfase na qualidade e na gratuidade.

A reforma tributária anunciada por Bachelet inclui aumentar gradualmente de uns 20% a 25% os impostos às empresas, enquanto que o teto dos gravames para as pessoas baixaria de 40% para 35%.

Também é partidária de uma Assembleia Constituinte, que permita um caminho para dar fim a atual Carta herdada da ditadura de Pinochet. Bachelet disse que ainda não definiu o mecanismo para tal Assembleia, mas que não descarta nenhuma variante, e nesse sentido pediu à comissão para uma nova Constituição “que em suas propostas de conteúdo e de mecanismos nada fosse recortado e pensassem em todas as opções possíveis dentro da institucionalidade”.

A candidata da Nueva Mayoria também se mostrou favorável a descriminalização do aborto no Chile de maneira que se possa aplicar em situações especiais, tanto em casos de violações como por razões terapêuticas.

Bachelet insiste em que para levar adiante muitas das propostas de seu programa é necessário que as forças da oposição tenham maioria no Parlamento, e chama para que lutem para ganhar a batalha pelo poder legislativo.

“Queremos um parlamento que se empenhe pelas mudanças que o Chile requer e temos que trabalhar para isso. Há muito em jogo e é o momento da ação, da grandeza e da generosidade”, enfatizou minutos depois da vitória nas primárias.

A mais recente pesquisa sobre as eleições presidenciais, realizada pela Universidade do Desenvolvimento e divulgada em meados de julho, deu que se eleições fossem naquele dia Bachelet receberia 39% dos votos diante de 25% de Longueira, agora fora da corrida presidencial.

A pesquisa situou em terceiro lugar o candidato do Partido Progressista, Marco Enriquez Ominami, com 7%m seguido do independente Franco Parise com 6% e d Marcel Claude, do Partido Humanista com 2%.

A lei de inscrição automática e voto voluntário, que estreou nas eleições municipais de outubro de 2012, incrementou o padrão eleitoral de 8.1  milhões para 13.3 milhões de pessoas. Nessas eleições, a abstenção chegou a 60%. Nas primárias de 30 de junho votaram pouco mais de 3 milhões de eleitores.

Bachelet reconheceu recentemente em entrevista com o jornal La Tercera, que o Chile de hoje não é o mesmo que ela governou de 2006 a 2010. “Ha uma ampla maioria que apoia um projeto de centro-esquerda, que coincide com a proposta de que Chile entrou em novo ciclo econômico, político e social e que se deve continuar com o que vimos fazendo bem por muito tempo, mas são necessárias mudanças”.

Bachelet parece estar consciente de que se retorna ao Palácio de La Moneda, a rua, cenário de numerosas manifestações de protestos estudantis e operárias nos últimos anos, reclamará que cumpra com suas promessas.

*Prensa Latina de Santiago do Chile para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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