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Mídia hegemônica perde oportunidade de refletir sobre significado político de Rita Lee

Cantora brasileira eternizada na última segunda-feira (8) subverteu a ordem desde o primeiro momento em que se lançou ao mundo da música
Verbena Córdula
Diálogos do Sul
Salvador (BA)

Tradução:

Rita Lee era uma artista que, como poucas e poucos no cenário da música brasileira se insurgia contra o sistema. Ela escrachava valores burgueses como o casamento e o “bom gosto”, por exemplo, de uma forma muito peculiar. A música nacional mudou de parâmetro, e o rock, em particular, assumiu uma forma completamente “tupiniquim”. Havendo deixado este mundo no último dia 8, esperei que a mídia nacional dispensasse um tratamento de modo que a juventude, que não conheceu essa artista, pudesse ter uma dimensão razoável acerca dessa mulher e sua obra. Em vez disso, vi, majoritariamente, meros textos descritivos.

Rita Lee subverteu a ordem desde o primeiro momento em que se lançou ao mundo da música. Usar vestido de noiva para cantar rock, por exemplo, desafiava o sistema patriarcal como nunca, uma vez que o casamento de véu e grinalda representava a pureza, a delicadeza, a candura, entre outros valores, todo o contrário do que sugeria o tipo de música por ela cantado. Rita foi muito além, quando, em 1972, rasgou sua Certidão de Casamento em plena televisão, no programa da apresentadora Hebe Camargo, nocauteando mais uma vez o conservadorismo

Rita Lee, para sempre: mutante, Rainha do Rock e um dos maiores ícones da música brasileira

O país vivia uma ditadura civil-militar instaurada em 1964. Os Mutantes, liderados por Rita Lee tiveram sua canção “Independência” censurada, em 1974, porque “a letra em questão permite conotação política”.

Conforme essa canção, “A única linha reta no Universo é a que determina a não existência de linhas retas […] Lubrifiquemos nossas cabeças, tenhamos ideais elásticos […]”. Como vemos nessa parte da letra, a canção era um chamado à desobediência, à rebeldia, pois pedia para a sociedade romper com o silêncio e com a falta de liberdade impostas pelo regime ditatorial. 

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Foi com “Esse tal de Roque Enrow”, em 1975, que Rita Lee debochou da perplexidade de sua mãe (e das maioria da sociedade da época), que não aceitava uma jovem como “roqueira”. De fato, não era nada comum (até hoje, inclusive) mulheres liderando bandas de rock e fazendo sucesso. Transgressão total. 

Cantora brasileira eternizada na última segunda-feira (8) subverteu a ordem desde o primeiro momento em que se lançou ao mundo da música

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O fato de a mídia dominante não dar muita repercussão ao significado político de Rita Lee não é novidade

Em 1979, quando cantou “Todos os homens desse nosso planeta pensam que mulher é tal e qual um capeta […] Moça bonita, só de boca fechada; Menina feia, um travesseiro na cara […]”, Rita Lee pôs em evidência, de modo sarcástico, essa imagem da mulher construída pelo patriarcado. Nessa canção, chamada “Elvira pagã”, ela continua rompendo com os padrões estabelecidos pela sociedade burguesa. 

Rita Lee também fazia isso quando usava figurinos que carnavalizavam o chamado “bom gosto” tão reverenciado pela elite dominante brasileira; ou quando mexia com o purismo conservador. Por exemplo, em 1985, na apresentação que abriu o primeiro show dos dos Rolling Stones no Brasil ela apareceu com uma roupa na cor da pele e colada ao corpo, simulando uma nudez tatuada. Naquela mesma apresentação a cantora apareceu vestida de santa.

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A política brasileira também não ficou de fora. Quanto cantava “Viva Brazix, do jeito que tá, Pau-com-pedra, pernas-pro-ar; Dúvidas, dívidas ao Deus dará; Darks ditaduras, Viva Brazix, morrendo de dor, AIDS quem faz amor; Angra I, Angra II, III e depois Anjo exterminador […]”, na década de 1980, ela realizava  as primeiras críticas à eterna crise e ao descaso dos governos frente a questões importantes em nosso país. Uma letra muito atual, inclusive. 

A dimensão de Rita Lee não poderia ser expressada neste pequeno espaço. Desejei ver, na mídia nacional, uma série de materiais refletindo sobre essa rebeldia tão presente na obra dessa grande mulher artista, cujo significado para a nossa cultura é muitíssimo emblemático. No entanto, para a minha tristeza, encontrei muito pouco (considerando a imensa história por ela escrita durante sua trajetória). Rita Lee é, sem dúvida, um divisor de águas no que concerne à identidade musical brasileira, e, com certeza, permanecerá imortal, não apenas pela genialidade de sua obra, mas também pela coragem que sempre teve de expor a sua forma de enxergar o mundo, sempre por vieses muito antagônicos aos dominantes.  

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O fato de a mídia dominante não dar muita repercussão ao significado político de Rita Lee não é novidade, já que é muito mais interessante (e lucrativo em todos os sentidos) que a juventude continue com “as Anitas”, “as Ivete Sangalo” (somente para citar dois nomes de tantos) que, infelizmente, não ousam subverter a ordem dominante, mas, ao contrário, estão sempre buscando ajustar-se ela.

Verbena Córdula | Doutora em História e Comunicação no Mundo Contemporâneo. Professora Titular do Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Verbena Córdula Graduada em História, Doutora em História e Comunicação no Mundo Contemporânea pela Universidad Complutense de Madrid e Professora Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, BA.

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