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Mídia ocidental demoniza Rússia para favorecer interesses geopolíticos dos EUA

Brasil é um celeiro de espiões russos? A quem interessa o mundo bipartido? Para entender os rumos da Guerra na Ucrânia, entrevistamos André Martin
Amaro Augusto Dornelles
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Desde a segunda metade do século XX, dizia-se viver a era da informação. Poderosas agências de notícias como a United Press International (UPI), Agência France Press (AFP), a Associated Press (AP), entre outras, ditavam as regras no mercado internacional. Dominavam o noticiário a ponto de distorcer informações políticas e econômicas em benefício de grandes empresas e nações do hemisfério norte, lideradas pelos Estados Unidos.

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Com o avanço da indústria da comunicação, o poder de manipulação cresceu exponencialmente — como brasileiros puderam testemunhar com o golpe de Estado que derrubou a ex-presidenta Dilma Rousseff. Hoje, o mundo assiste passivamente à mídia comercial mostrar a “Guerra de Putin” sem colocar o contexto. Apesar de financiar o conflito, os Estados Unidos surgem como paladinos do povo da Ucrânia e da democracia.

No golpe de 1964, os EUA ensinaram nossos militares a execrar os radicais. Ora, só quem vai à raiz do fato pode entender o todo. Não só parte dele, como na guerra mostrada pelos meios de comunicação social. É o primado da contrainformação, embalada como “fake news” para mais fácil digestão. 

Para entender o que se passa nessa guerra — vital para a Casa Branca Suja de Sangue e o Kremlin — a revista Diálogos do Sul entrevista André Martin, professor de geopolítica na Universidade de São Paulo (USP). A partir de recentes declarações do presidente estadunidense, Joe Biden, sua interpretação é de que os EUA acreditam ser necessário destruir Rússia e China, que não se submetem aos EUA. 

Confira:

Amaro Augusto Dornelles: Ninguém pode negar que a economia capitalista patina em crise desde a virada da década. Os EUA tiveram a indústria praticamente paralisada em relação à chinesa. Pode haver algo melhor do que uma “boa guerra” para alimentar a indústria armamentista e garantir que o povo, cordato, aceite apoiar a guerra por patriotismo?
André Martin: Ianques tiveram o monopólio da bomba atômica durante alguns anos. Ali eles já acreditavam que se tornariam a única potência mundial: seriam os “donos do mundo”, mas esqueceram de combinar com russos e chineses.

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A mídia repete metodicamente, dia e noite, imagens e textos sobre sofrimento, morte, lágrima, arma e bomba. É a Guerra de Putin. Analistas dos EUA falam de espiões russos no Brasil nos últimos tempos. Em pleno século 21, somos submetidos a uma lavagem cerebral que demoniza a Rússia sem direito a refutar. O Brasil está cheio de espiões de Vladimir Putin?
Importante pergunta. Tem saído notícias sobre espiões da Rússia aqui. O Brasil seria um celeiro de espiões russos. É algo que fica muito próximo da chacota. Qual é o número de americanos trabalhando aqui? Como o país está, em termos de segurança; e a espionagem que os norte-americanos fazem em nosso país? Vale lembrar a captura do celular da presidenta Dilma Rousseff e toda espionagem feita na Petrobrás. Temos também a ‘tomada’ da Base de Alcântara. Não deixa de ser cômico, mesmo trágico. O Brasil tem uma característica curiosa que me faz até acreditar, de certo modo, que a partir daqui é possível enviar espiões a outros países. Como o povo brasileiro é muito misturado, qualquer um pode passar por brasileiro.

Darcy Ribeiro conceitua o brasileiro como o povo novo, resultado da miscigenação entre índio, branco, negro, amarelo…
Sim, sim, é por aí. Faço uma relação com a publicidade. A filha de uma amiga participou de um comercial como se fosse russa — e ela não é. A mãe, inclusive, tem traços indígenas. Mas curiosamente, na mistura com seu pai, deu um tipo parecido com o russo. 

Darcy Ribeiro tem toda razão: o Brasil tem um povo cósmico, Povo Novo. O fato de o povo brasileiro ser muito variado facilita, portanto, qualquer um se passar por ele, é algo a ser relevado. Agora, nesse caso específico dos russos, não teria por que eles usarem o Brasil. Na verdade, tem uma certa paranoia nisso. Justamente em função da guerra com a Ucrânia: é evidente que há um esforço muito grande dos EUA de atrair o Brasil para sua guerra por procuração contra a Rússia.

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Brasil é um celeiro de espiões russos? A quem interessa o mundo bipartido? Para entender os rumos da Guerra na Ucrânia, entrevistamos André Martin

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"Como começou esse conflito? Quem é o responsável pela guerra?", questiona André Martin

É a demonização da Rússia, como se fosse União Soviética para a direita raivosa: bipolarização à “la” Bolsonaro…
Qualquer líder que não se submeta aos EUA é apresentado como tirano, ditador que precisa ser derrubado. Aconteceu com Saddam Hussein, Muammar Gaddafi, Slobodan Milošević, Bashar al-Assad, Nicolás Maduro. Enfim, basta o líder ser patriota — não se submeter aos ditames de Washington — que ele passa a ser veiculado pela mídia como ditador que precisa ser removido do poder, para salvar o povo da tirania. 

Eles têm bastante apoio popular, como me referi acima. Não esqueçamos o que, aqui no Brasil, fizeram com Lula. De modo que, realmente é algo muito estranho. 

Até hoje não vi a mídia hegemônica sequer citar a retirada dos mísseis soviéticos de Cuba, em 1962. Aí no século 21, os EUA querem enfiar mísseis na fronteira da Ucrânia com a Rússia na marra…
Do ponto de vista teórico, essa pergunta é importante. Em geopolítica, é muito importante você analisar um conflito em busca da paz. Isso é vital: como começou esse conflito? Quem é o responsável pela guerra? Você mencionou 1962 — quando o mundo ficou à beira de uma guerra nuclear. Um pouco antes, houve a revolução cubana. Antes disso, os americanos colocaram seus mísseis na Turquia, fronteira com a URSS. Armar Cuba foi a resposta aos mísseis na Turquia, no Mar Negro.

Em conversa com seu ministro, Nikita Kruschev decidiu: “Vamos colocar mísseis na porta deles, vamos ver no que pode dar”, teria dito o primeiro-ministro da URSS. Foi uma operação complicada. Mas uma vitória de Kruschev, por garantir que os americanos não invadissem Cuba. Kruschev provou ter capacidade logística de se antepor aos americanos. Quando a situação ficou dramática para o lado dos EUA — muita pressão em cima de Kennedy — a URSS retirou os mísseis.

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A estratégia de Nikita foi correta naquela altura da Guerra Fria?
Acredito que Kruschev acertou, por garantir a soberania de Cuba. Mas tua pergunta anterior remete a quem começou primeiro? Aqui, na questão Rússia e Ucrânia, a gente pura e simplesmente tem a informação de que quem começou primeiro foi a Rússia. Não é verdade, inclusive, para ser bem preciso — é uma informação que foi sonegada nos meios de comunicação ocidentais.

A guerra, do ponto de vista russo, a decisão de intervir com a força militar a favor dos separatistas de Donbass é muito importante. Na verdade, a Ucrânia está em guerra civil desde 2014. Não se trata de anexação de território ucraniano. O país está dividido. E quem dividiu a nação? Foram os americanos. Jogaram a soberania da Ucrânia como dependente de uma política anti-Rússia. 

Ou seja, para a Ucrânia ser soberana, ela teria de ter uma política contra a Rússia. É isso que a Rússia não aceita. Agora, a pergunta que ninguém faz é porque os EUA fizeram a guerra logo agora, sendo que eles acabaram de sair derrotados depois de 20 anos no Afeganistão.

Revanche…
Boa resposta. Daí é um problema muito sério, revanche contra quem? Os talibãs do Afeganistão não têm nada a ver com os russos. Acho — talvez essa seja a pista — que foi porque eles perceberam que a derrota no Afeganistão os enfraquecia muito. É estranho, a nação mais poderosa do mundo é também a mais medrosa, sempre com medo de ser atacada. 

Isso é uma paranoia para justificar gastos absurdos com a indústria bélica. Resumindo: economia capitalista em crise. EUA com a indústria praticamente paralisada em relação à China. Nada como uma boa guerra para alimentar a indústria armamentista e garantir que o povo aceite o apoio à guerra por patriotismo. É isso, sempre mantêm um clima belicoso e isso vai piorar.

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Qual é a tua opinião sobre a posição do presidente Lula de condenar a guerra?
Olha, certamente o presidente está sendo instruído pelo chanceler Celso Amorim, que tem uma posição clássica, universalista, pacifista. Ele é muito propenso a acompanhar essas condenações retóricas. Não é um analista geopolítico. O balanço de forças inclui outras variáveis…

Com a experiência que ele tem, os cargos que ocupou não foram suficientes para ele considerar a geopolítica em suas análises?
Infelizmente, não. Essa é uma questão de falta de informação de todo o pessoal que estuda Relações Internacionais. Faltam geografia e geopolítica, eles não entendem teorias geopolíticas, desprezam a variável militar, assim como o jogo pesado da disputa econômica. Há uma espécie de confiança na cooperação, nos regimes internacionais.

Não sou contra a diplomacia, os acordos internacionais. Mas não me iludo. Tudo depende da correlação de forças efetiva. E uma correlação de forças efetivas no palco que é o planeta Terra, precisa da Geografia e da Geopolítica. Então vamos aos pingos nos is. O presidente não está errado do ponto de vista da diplomacia em buscar uma posição intermediária. Não brigar com ninguém, o Brasil não tem atrito com nenhum dos lados, em princípio.

Agora, se você quer um distanciamento e ajudar num processo de paz, precisa tomar alguns cuidados. Acho que acertamos quando o pedido que os alemães fizeram de munição foi repelido. Foi um aceno para a Rússia. Por outro lado, condenar retoricamente a ocupação de territórios é pró-forma, não fecha a porta para o outro lado.

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Agora, avançar na frase que Lula disse, [em 10/4], que ‘Putin não tem o direito de ocupar esse território’, não precisava chegar a tanto. Por duas razões: uma porque é totalmente irrealista. Idealista, muito bem. Mas depois que o sangue foi derramado não tem volta. 

Dois, trata-se de uma guerra civil. Do ponto de vista da Rússia, protegendo a população russa, não estão dando um passo além disso. Estão apenas protegendo a população de fala russa.

Mas eles bombardeiam cidades. Pelo menos as imagens mostram.
Essa é outra mentira que está sendo vendida. Mudou a guerra: agora é a Rússia que se protege. As pessoas não estão entendendo… A Rússia não quer avançar mais. É exatamente na linha de combate, eles estão apenas querendo garantir a fronteira da região de Donbass: quatro províncias da Ucrânia, com predomínio de etnia e fala russa, que nunca aceitou o golpe de Estado pró-EUA, de 2014, em Kiev.

Quem assumiu o governo foi uma troica (trinca) ligada, inclusive aos nazistas. Depois teve eleições. Aí chegou ao poder Volodymir Zelensky. Bastava simplesmente Zelensky recusar a entrada da Ucrânia na OTAN e aceitar a autonomia da região da bacia do rio Donbass, para que eles pudessem conservar a língua russa. Essa era a questão chave. 

Como Ucrânia e Rússia têm a mesma formação, o Donbass continuou sendo da Ucrânia. Esse era o acordo de Minsk, assinado na Bielorrússia (2015) — que foi quebrado unilateralmente por Zelensky. E agora sabemos — por meio da declaração da  ngela Merkel, ex-chanceler alemã — que o acordo de Minsk não foi para valer. Foi um pretexto, um refúgio criado no Ocidente para arrumar tempo para fortalecer o exército ucraniano.

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Isso foi uma grande facada nas costas da Rússia, e um episódio de grande repercussão nas relações entre oriente e ocidente. Principalmente entre Alemanha e Rússia — que ficaram no pior nível desde a guerra fria.

Qual é a verdadeira face da Rússia de Putin?
É preciso entender a Rússia, que pode reivindicar a fusão com a Bielorrússia, para início de conversa. Não seria ilegítimo. Fizeram plebiscito tanto na Crimeia quanto em Donbass, para onde russos migraram durante o período soviético. A região se industrializou, tem muitas fábricas, usinas, siderúrgicas — tudo construído pelos soviéticos. 

O Estado russo é regional, não nacional estrito senso. A Rússia é multiétnica, a Federação Russa confirma isso. A União Soviética mais ainda. Os soviéticos achavam que moravam todos em um único país: a URSS. O ucraniano se achava tão soviético quanto o russo. Não havia problemas quanto a isso. Mas foi se gerando uma animosidade por conta desse interesse americano que, se você for ver bem, ele já estava muito indicado desde a saída da Segunda Guerra Mundial, quando os ianques tinham o monopólio da bomba atômica. Ali eles já acreditavam que se tornariam a única potência mundial. Os donos do mundo.

Chegaram, inclusive, a ter um plano — mesmo depois de 1949, quando a URSS já tinha sua bomba atômica, tinham uma, os EUA, 200 — chegaram a planejar destruir a União Soviética. O general MacArthur apoiava isso. Embora Harry S. Truman tenha sido um presidente considerado de ultradireita, tem gente ainda mais à direita: acreditam que os EUA erraram ao deixar os vermelhos se fortalecerem. Se for ver por esse lado, Putin fala grosso porque está mais bem armado que os Estados Unidos.

Esse é outro mito: o da única potência militar. Mesmo naquela época, os americanos acharam descabida a iniciativa, não havia condições de levar a cabo. Além de tudo, ainda havia o risco de envolver Europa e Ásia na guerra. Por isso, acharam melhor manter a guerra fria. E não partir para uma guerra quente termonuclear. Não sei por que cargas d’água o Biden e seu grupo passaram a achar que uma guerra nuclear limitada seria uma boa ideia. Quebraria o mito segundo o qual com as bombas nucleares a guerra é impossível. Vejam até onde a coisa vai. Eles acreditam que, mais do que possível, é necessário destruir Rússia e China, que não se submetem aos EUA. Se assim for, estamos em guerra mundial.

Amaro Augusto Dornelles | Jornalista e colaborador da revista Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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