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Mídia sabia da iminente derrota no Afeganistão, mas preferiu não questionar Guerra ao Terror

Essa mesma mídia, agora, se mostra preocupada com as mulheres e meninas afegãs, e com aqueles que trabalharam com os ocidentais
Luis Gonzalo Segura
Carta Maior
Madri

Tradução:

A ocupação de Cabul por parte do Talibã em 2021, que marca uma mudança de rumos na política do Afeganistão, tem muitas semelhanças com a queda de Saigon em 1975, no Vietnã. Alguns poderiam dizer que talvez o Afeganistão seja o Vietnã do Século 21 para os Estados Unidos. E para o Ocidente.

Na verdade, as imagens de milhares de afegãos no aeroporto tentando pegar um avião para fugir do país lembram inexoravelmente a fotografia de dezenas de pessoas tentando embarcar em um dos últimos helicópteros existentes no Vietnã — no telhado do edifício Pittman.

No entanto, vale lembrar que em abril deste ano o atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, já havia alertado que ninguém seria evacuado do telhado de uma embaixada do seu país no Afeganistão — por anos, a icônica foto do edifício Pittman foi descrita como uma imagem da embaixada dos EUA em Saigon. “Não cabe uma comparação”, disse ele. E tem razão. As imagens de hoje são ainda mais sombrias do que as de meio século atrás, com pessoas desesperadas caindo depois de tentar se agarrar nas fuselagens dos aviões que fugiam da capital afegã.

Talibã, filhos dos Mujahidin, contra um governo indesejável

Eles foram alistados pela Casa Branca nos Anos 1980, mas com o passar do tempo, das armas e dos milhões de dólares estadunidenses e petrodólares, os Mujahidin se tornaram o Talibã. Ou melhor, os filhos dos Mujahidin se tornaram o Talibã. Não é uma metáfora, é literal: Mawlawi Matiulhaq Khalis, um dos líderes do Talibã, é filho de Mawlawi Mohammad Yunus Khalis, famoso por comparecer à recepção de Ronald Reagan na Casa Branca, na época em que eles eram chamados nos Estados unidos de “freedom fighters” (“lutadores pela liberdade”; e os irmãos Anas Haqqani, fundador da rede Haqqani, e Sirajuddin Haqqani, vice-líder supremo do Talibã, são filhos de Jalaluddin Haqqani, um líder mujahidin aliado dos Estados Unidos e financiado pela CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos) para lutar contra os soviéticos.

Do anticomunismo às Torres Gêmeas. Das Torres Gêmeas ao Vietnã do Século 21. O Vietnã do Século 21 é o atual desastre deixado no Afeganistão pela ocupação dos Estados Unidos e suas forças aliadas da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). 

Os estadunidenses queriam deixar o comando do Afeganistão nas mãos de pessoas como Atta Mohammed Noor, líder de grupos milicianos do norte do país e acusado de realizar torturas e abusos sexuais, ou como Abdul Rashid Dostum, acusado de sequestrar e abusar sexualmente de um oponente. Nada de mais. Infelizmente, os Estados Unidos e o Ocidente — ou seja, a OTAN — preferem delegar o poder no Afeganistão seguindo os mesmos critérios que utilizam no resto do planeta. Em vez de honestos, fantoches. Em vez de democratas, os amigos, mesmo que sejam monstros.

A surpreendente queda do Afeganistão…

Independentemente do caráter dos envolvidos, a questão é que a derrota do Ocidente no Afeganistão já era evidente, não há meses, mas si há anos. Porém, nenhum dos principais meios de comunicação se atreveu a explicar essa realidade, já que isso obrigaria a questionar a necessidade e as razões do fracasso da Guerra ao Terror contra o Iraque e o Afeganistão. No entanto, essa mesma mídia, agora, se mostra preocupada com as mulheres e meninas afegãs, e com aqueles que, sem ser militares, trabalharam com os ocidentais nos últimos anos, martirizando-os publicamente pelo desastre que vai acontecer, pelo desespero que assola o país.

Jornais europeus, apresentadores de rádio e de televisão passaram os últimos dias se perguntando: por quê? Se nossos países passaram anos investindo bilhões na formação de um governo sério — ou seja: fantoche, corrupto e violento — e na criação de um exército moderno — ou seja: uma quadrilha sem projeto que não serviria nem para ser uma guerrilha –, como pode o Afeganistão entrar em colapso? Oh Deus, não pode ser! Que tipo de cataclisma ou desgraça inesperada aconteceu?

… que não era tão surpreendente!

Sobre o tema:
Talibã foi patrocinado pela CIA na Guerra Fria e hoje tomou poder no Afeganistão

Pois bem, foi com esse tom que começaram as críticas ao acordo feito pelos Estados Unidos com o Talibã, em janeiro de 2019, para a retirada das suas tropas. Sim, com o Talibã!

No dia 30 de janeiro de 2019: um teletipo e problema resolvido! Foi assim que a mídia ocidental despachou o início do acordo entre os Estados Unidos e o Talibã no Afeganistão. Se consideramos o fato de que a partir de setembro de 2014 morreram mais de 45 mil membros das forças de segurança afegãs (militares do país treinados pelos Estados Unidos e pela OTAN para combater contra os insurgentes), o que significa uma média de 28 mortes por dia, é possível descrever a situação como “incontrolável”. O que fazer a respeito? Dividir o país como se fosse um queijo?

Naquele então, o governo afegão, com a ajuda do Ocidente, controlava apenas pouco mais da metade do território do país. As perdas e a instabilidade estavam aumentando. Portanto, já era claro, há mais de dois anos e meio, que a situação era insustentável. Como também era possível prever o que aconteceria no caso de uma retirada total das tropas ocidentais – ainda em 2019, após quase vinte anos de intervenção e já com uma retirada gradual dos militares ocidentais, as autoridades impostas pela ocupação havia perdido o controle de quase metade do território.

Para entender melhor como os meios de comunicação explicaram isso, vejamos um exemplo. Na Espanha terminaram assim as críticas ao anúncio da retirada total das tropas espanholas na região, em junho de 2020, há pouco mais de um ano:

10 de junho de 2020: para a Espanha, a Guerra do Iraque deixou, em números oficiais, 260 milhões de euros e nove soldados mortos. A guerra no Afeganistão custou 3,5 bilhões de euros e com soldados mortos. Números muito mais baixos do que outras estimativas, talvez mais próximos da realidade, mas ainda muito relevantes para justificar uma retirada total das tropas espanholas no Iraque e no Afeganistão, e que passaram quase despercebidas pela mídia espanhola. Quase 4 bilhões euros e 109 mortes mereciam mais do que uma matéria de meio de página.

A ausência de um debate na Espanha sobre o tema, ou mesmo de uma reflexão mínima sobre o assunto, não causa surpresa. Também foi assim a reação de toda a grande mídia ocidental sobre o que acontecia no Afeganistão: olharam para o outro lado. Não deram a mais mínima atenção à crise no Afeganistão, nem fizeram uma análise crítica.

Saiba Mais:
Talibã que retorna ao poder não é o mesmo dos anos 1990. Realidade e China se impõem

Tudo isso para evitar o debate sobre os objetivos das intervenções norte-americanas, tanto no Afeganistão quanto no Iraque. Se omitiram diante de uma ocupação que jamais se preocupou com a democratização. Se omitiram sobre a inexistência de armas de destruição em massa outrora usadas como justificativa. Se omitiram sobre o fato de que o homem acusado de ser o maior inimigo, Osama bin Laden, não estava no Afeganistão — mentira usada para explicar a ocupação — e sim no Paquistão, que nunca foi invadido.

O gasto e o desempenho dos Estados Unidos e da OTAN — trilhões de dólares e milhões de mortes, diretas e indiretas, além do desastre geopolítico —, o Estado Islâmico, a Síria, a instabilidade regional, os milhões de refugiados, a submissão, a falta de independência dos aliados, o próprio desastre social e econômico do Afeganistão, o futuro incerto e terrível que o país enfrentava antes da retirada, e que enfrenta agora que ela foi concluída. Todas essas questões foram ignoradas ou minimizadas.

Diante da narrativa que vemos, talvez fosse melhor calar do que apresentar esse inefável papel de surpresa, de mostrar a situação atual como uma hecatombe tida como imprevisível ou incalculável. Um desastre, na verdade, há muito já anunciado, e sobretudo silenciado pela grande mídia nos últimos anos, na mesma proporção em que foi exagerado nestes últimos dias. Com reações emotivas, tão convincentes quanto as de uma cena de reality show, ao estilo Big Brother, com essa teatralidade que representa muito bem os principais meios de comunicação destes tempos.

*Publicado originalmente em ‘RT News’ | Tradução de Victor Farinelli


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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