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Mordaça: Governantes precisam calar vozes e aplicam todo poder que têm para isso

A informação e, por conseguinte, a educação e a cultura são os piores inimigos do fascismo
Carolina Vásquez Araya

Tradução:

É preciso identificar o ponto de ruptura que levou as sociedades a perseguirem uma via de violência e ódio, de enriquecimento para alguns e miséria para todos os demais.

Os estratagemas dos círculos de poder de tipo fascista passam por cima dos direitos civis, esmagam os textos constitucionais, rompem o delicado tecido dos valores humanos e terminam por transformar as sociedades em enormes massas de seres temerosos do abuso e da violência institucionalizada. No final, ante esse ambiente de incerteza, as sociedades terminam por aceitar um novo estado de coisas onde sua voz não incide. As ditaduras de hoje têm um efeito psicológico esmagador, mas sobretudo um efeito letal na confiança a respeito dos sistemas democráticos. 

Em que momento e como se enfraqueceu a voz do povo? Como se permitiu semelhante nível de amedrontamento contra sociedades cujos objetivos parecem estar enfocados nas liberdades cidadãs? Nessa luta pelos direitos humanos é fácil observar como começam a se produzir certas deserções; por exemplo, políticos cujo discurso vai se transformando paulatinamente em uma ode ao ódio mediante o qual modificam a percepção cidadã sobre as possíveis soluções aos problemas de sobrevivência. Depois, essa cidadania desinformada e habilmente manipulada é classificada como vencida, sem escavar nas profundas causas que a levaram a ceder ante semelhante quantidade de mentiras.

A informação e, por conseguinte, a educação e a cultura são os piores inimigos do fascismo

Facebook / Reprodução
O controle dos meios, a censura sobre livros e qualquer médio de difusão de ideias se converte em uma prioridade

Nesse caminho vão caindo uma atrás da outra as propostas de tipo social, sob a mesma etiqueta utilizada em profusão durante a Guerra Fria. Ou seja, as política públicas dirigidas a uma maior inclusão das maiorias nas decisões de Estado, melhores orçamentos para os itens essenciais como saúde, moradia, educação, alimentação e cultura, maior participação das comunidades em decisões sobre projetos de exploração de recursos e, principalmente, uma presença mais ativas das mulheres na vida institucional e política, são vistos como retrocessos pelos setores mais poderosos. 

O fascismo cru e sem disfarces enquistado cada vez mais nos países deveria levar à reflexão sobre os motivos de semelhante caída dos direitos cidadãos. É imperativo perguntar-se por que as sociedades estão caindo na busca de sistemas repressivos e abertamente discriminatórios, porque talvez aí se encontre a resposta para identificar o ponto de ruptura que levou as sociedades a perseguirem uma via de violência e ódio, de enriquecimento para alguns e miséria para todos os demais. 

Nessa rota demencial as primeiras vítimas são o estado de Direito e a justiça. A partir desse ponto, quando esses regimes se consolidam graças aos seus métodos repressivos, voltam seu olhar para os setores mais débeis em termos de direitos e os anulam. É assim como o papel das mulheres nos círculos políticos e intelectuais começa a se estreitar até quase desaparecer, consolidando-se desse modo o velho padrão patriarcal, para cuja sobrevivência é essencial impor um sistema de domínio e submissão sobre a maioria da população. Nesse mesmo sentido, a infância e a juventude são consideradas os viveiros onde é fácil reproduzir uma ideologia afim às pretensões de impor e eternizar o sistema dominante. 

A informação e, por conseguinte, a educação e a cultura são os piores inimigos do fascismo. O controle dos meios, a censura sobre livros e qualquer médio de difusão de ideias se converte em uma prioridade para estes inimigos mortais da inteligência e das sociedades livres. Nossos países já viveram esses infernos e veem com horror como hoje regressam esses velhos fantasmas. 

*Colaboradora de Diálogos do Sul, da Cidade da Guatemala


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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