Pesquisar
Pesquisar
Refugiados ruandeses carregam seus pertences em direção à cidade de Goma, após a eclosão da guerra civil (Arquivo Nacional dos EUA - 03/08/1994)

“Mulheres foram protagonistas na reconstrução da paz em Ruanda”, afirma ativista Betty Mutesi

30 anos após genocídio, o papel da mulher no país africano mudou completamente; agora podem herdar terras, estudar e estão presentes nos órgãos de governo
Laura Prieto Gallego
elDiario.es

Tradução:

Ana Corbisier

Betty Mutesi é diretora regional da organização International Alert e especialista em justiça transicional e processos de paz. No 30° aniversário do genocídio de Ruanda, fala com elDiario.es deste país, onde é também cônsul honorária da Espanha desde 2009. “As mulheres desempenharam um papel protagonista na reconstrução da paz” em Ruanda, afirma a especialista, depois do começo em abril dos três meses de comemorações para recordar o genocídio, em que morreram entre 800.000 e um milhão de pessoas, a maioria de etnia tutsi. Grande parte dos mortos eram homens, e outros muitos fugiram do país ou foram presos.

“A vida da mulher em Ruanda mudou para sempre”, desde que o conflito as obrigou a ficar à frente do país. Assumiram tarefas que até aquele momento lhes eram negadas: se encarregaram dos cultivos, começaram a trabalhar e entraram nas escolas. Décadas depois, o resultado é que 60% dos lugares do Parlamento ruandês estão ocupados por mulheres, a porcentagem mais alta do mundo. As mulheres chegaram a ocupar cargos tão importantes como Recursos Minerais ou Assuntos Exteriores, sempre sob o controle férreo do presidente Paul Kagame, que está no poder desde 2003 e voltará a candidatar-se nas eleições de julho.

A especialista acredita que se avançou muito nestas três décadas, mas que ainda falta muito caminho a percorrer para lograr uma sociedade igualitária e, especialmente, para curar as feridas do passado. Uma das tarefas da organização a que pertence é oferecer terapia a vítimas do conflito e a seus filhos, que herdam os traumas do genocídio. Mas também trabalham com as famílias daqueles que cometeram os assassinatos e que, três décadas depois, arrastam a culpa e a vergonha.

Calcula-se que, nos próximos quatro anos, 350.000 condenados por crimes perpetrados durante o genocídio sairão das cadeias: “É necessário ter um processo de reintegração significativo nas famílias”, afirma Mutesi.

Laura Prieto Gallego – Que papel desempenhou a mulher ruandesa no processo de reconstrução da paz? 

Betty Mutesi – As mulheres desempenharam um papel protagonista na reconstrução da paz. Não só no Parlamento, onde são maioria, mas dentro do Governo, assumindo postos de poder relevantes. Lideraram programas de reconciliação e reparação, tanto governamentais, como de outras organizações; e participaram dos gacaca [um sistema de Justiça tradicional a que se recorreu depois do genocídio].

Depois do genocídio, milhares e milhares de homens morreram, foram presos ou fugiram do país. As mulheres ficaram sozinhas e tiveram que trabalhar em ofícios que antes eram de homens; então, o papel da mulher não se limitou à política e às novas leis, mas elas contribuíram para a economia das famílias. Não foi sua decisão, mas em um momento difícil demonstraram que são capazes, que têm força e que podem ser líderes. 

No dia a dia, como é o antes e o depois da vida das mulheres em Ruanda?

Ainda há preconceitos, claro, e muitas coisas para melhorar. Vivemos em uma cultura patriarcal e vai levar muito tempo para mudar a maneira de pensar dos homens e da sociedade. Mas creio que a vida da mulher em Ruanda mudou para sempre. Agora sua capacidade é reconhecida, podem trabalhar, têm voz e voto em sua comunidade… mudou a percepção que se tem sobre o que é ser uma garota e que coisas pode ou não fazer. 

A liderança das mulheres depois do genocídio provocou uma mudança de mentalidade nas famílias. As mulheres pouco a pouco ganharam influência e agora possuem suas próprias terras, trabalham nelas e não dependem de seus maridos. Agora é considerado normal que a mulher trabalhe, que vá para a universidade ou que seja ministra. Agora somos importantes em todos os âmbitos da vida. 

Não foi sua decisão, mas em um momento difícil demonstraram que são capazes, que têm força e que podem ser líderes

Esse empoderamento teria sido possível sem um marco legal que fixasse cotas para as mulheres nas instituições? 

Ruanda não é um país isolado do mundo e a globalização, os movimentos feministas estimularam melhoras. As mulheres foram influenciadas por eles. Mas tudo isso foi acompanhado por leis e normas em favor da igualdade. A Constituição, por exemplo, fixa 30% como mínimo de representação feminina no Parlamento, ainda que se ultrapasse esta porcentagem há anos. O fato de terem podido entrar na política significou fazer leis sobre os problemas que as afetam.

Calcula-se que cerca de 250.000 mulheres sofreram violência sexual durante o genocídio. E, segundo o Observatório da Violência, esse tipo de delito foi o que mais ficou impune. Ainda custa falar disso?

É muito difícil para as vítimas falarem de algo assim, sofreram muito. Muitíssimas mulheres foram brutalmente violentadas em 1994 e deram à luz crianças que não sabem quem são seus pais. Um estudo recente menciona 69% de crianças que nasceram nestas circunstâncias depois do genocídio. Elas têm sequelas psicológicas que seus filhos herdaram, junto à rejeição, ao estigma nas comunidades, e outras muitas coisas.

Estas mulheres foram rejeitadas em seus povoados e, às vezes, em suas próprias famílias. As crianças também sofreram o repúdio de suas mães e vizinhos devido à forma como foram concebidos, mas se está trabalhando nisso há anos com espaços para falar abertamente do passado. Trabalhamos com algumas destas famílias e os resultados foram bons. 

Em várias ocasiões, disse que ainda há que lutar contra o silêncio. É um silêncio dentro das casas, entre vizinhos, é medo de serem julgados? 

O silêncio está muito presente e são muitas as razões que há por trás disso. Primeiro é preciso entender que este silêncio tem efeitos negativos na vida das pessoas. Há uma necessidade de gerar confiança, inclusive nas escolas, onde se explica o que aconteceu, mas pode ser difícil fazer perguntas… há um certo medo, que pode vir do tipo de governança.

“Há desafios, evidentemente, como abordar o legado social, psicológico e econômico, não só do genocídio contra os tutsis, como de décadas de estereótipos étnicos, discriminação, violência e impunidade, liderados pelos governos precedentes ao genocídio”, afirma Betty Mutesi.

Nas comunidades também ocorre e fica difícil para nós desenvolvermos os programas de reconciliação que levamos a cabo em diferentes associações. No princípio custa que as pessoas se abram porque fazê-lo é reviver o trauma. O passado afeta o presente, há famílias que perderam muitos de seus membros e outras onde pesa uma grande culpa pelos assassinatos cometidos por seus familiares. 

Uma grande parte da população de Ruanda não viveu o genocídio, mas este está muito presente para eles. A senhora fala de trauma transgeracional, a que se refere?

Depois de um acontecimento como o genocídio de Ruanda, a dor se transmite de pais a filhos, inclusive a netos. Segundo o Barômetro de Reconciliação de Ruanda de 2020, as feridas emocionais não cicatrizadas atingem 27% da população. Convém lembrar como foi o genocídio, um genocídio que deixou quase um milhão de mortos em muito poucos dias, que ocorreu entre vizinhos e deixou um enorme choque psicológico. Esta é a origem do que chamamos trauma transgeracional.

Sabemos por outros estudos que 20% da população aproximadamente diz sofrer algum problema de saúde mental, entre eles, filhos de pais que foram vítimas ou perpetradores do genocídio. Os jovens, que são 70% do país, conhecem o genocídio pelo que lhes contaram em casa ou nas escolas. Seus familiares lhes contaram a agonia que sofreram ou, caso contrário, que não receberam um tratamento justo no sistema judiciário. Toda essa informação tendenciosa afetou realmente a população jovem. Por isso eles têm que ser o foco das políticas de paz; porque são o futuro. 

As organizações estão se dirigindo cada vez mais a eles. Creio que em um momento dado não lhes foi prestada a atenção necessária, mas que isto mudou realmente e se está tratando de dar-lhes apoio psicossocial em nível comunitário. Isto, ao mesmo tempo, faz com que aumente a consciência nos povoados para apelar a estas terapias. Neste verão, em que vai continuar a realização de atos em memória dos trinta anos do genocídio, vamos criar espaços focando no âmbito familiar, especialmente no caso das famílias com perpetradores nas prisões, onde o sentimento de culpa é herdado. 

O passado afeta o presente, há famílias que perderam muitos de seus membros e outras em que pesa uma grande culpa pelos assassinatos cometidos por seus familiares
Ruandesas no campo de refugiados de Kitali, após eclosão da guerra civil em Ruanda (Arquivo Nacional dos EUA – 03/08/1994)

Nos próximos anos sairão da prisão as pessoas com penas mais altas por genocídio. A sociedade ruandesa está preparada para este momento?

Os perpetradores com sentenças mais altas, entre vinte e trinta anos, estão saindo da cadeia. Vão sair nos próximos três, quatro anos. Para isso é necessário haver um processo de reintegração significativo na sociedade, mas também nas famílias.

Vai ser um desafio, mas que está sendo abordado de muitos âmbitos e entidades para evitar que haja efeitos negativos. Sã cerca de 35.000 pessoas que vão ter que integrar-se depois de terem sido acusadas dos crimes mais graves. Não creio que nenhuma sociedade esteja preparada para algo assim, mas se está fazendo um esforço e há um interesse generalizado em que dê certo. 

Continua latente o medo de que se reative o ódio entre etnias? 

Esse medo está sempre presente. Ainda há 8% de continuidade de uma ideologia do genocídio e de uma política divisionista, mas, segundo dados governamentais, a situação de reconciliação em Ruanda passou de 82,3% em 2010 para 94,7 em 2020.

Há desafios, evidentemente, como abordar o legado social, psicológico e econômico, não só do genocídio contra os tutsis, como de décadas de estereótipos étnicos, discriminação, violência e impunidade, liderados pelos governos precedentes ao genocídio. Já não somos de uma etnia ou de outra, somos ruandeses; estimulou-se muito esta mensagem, mas, como dizia, é preciso abordar as feridas que não cicatrizaram em sobreviventes e nos perpetradores e suas famílias. 

Ainda há uns 8% de continuidade de uma ideologia do genocídio e de uma política divisionista

Depois de trinta anos, o que aprendemos todos com o genocídio de Ruanda?

Aprendemos algo? É difícil dizê-lo, porque anos depois continua morrendo muita gente no mundo, na África e em outros lugares. Vivem situações parecidas em outros países neste momento, mas a esperança está em que ainda há pessoas que trabalham pela paz e sempre haverá, com melhores ferramentas do que agora. 

Com vistas ao futuro, quais são os desafios para manter uma paz duradoura e curar as feridas do genocídio? 

São muitos os desafios, começando com os níveis de pobreza, desigualdade e desemprego. Mais de 20% dos jovens da região não têm trabalho, em uma região onde proliferam os grupos armados. Outro dos desafios é precisamente este, as crises atuais na República Democrática do Congo e em Burundi, nossos países vizinhos, que influenciam nossa estabilidade, e há muita negatividade sobre o que está acontecendo ali. 

Por último, creio que é necessário melhorar em governança. A governança e o tipo de democracia atual dificultam os espaços abertos de diálogo e de liberdade para abordar os traumas de forma construtiva, sem medo da censura. A existência de elementos de bom governo está relacionada ao trabalho que ainda está pendente com os grupos mais afetados pelo genocídio, e o risco de continuar o trauma transgeracional.

elDiario.es


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Laura Prieto Gallego

LEIA tAMBÉM

PascualHernandezCUC
“Do genocídio praticado contra indígenas na Guatemala surgiu o termo palestinização”, afirma CUC
Peru-mulheres-indigenas-rio-maranon
Mulheres indígenas enfrentam petroleira para proteger Rio Marañón, no Peru
Cuba-bloqueio
EUA mantêm Cuba como patrocinadora do terrorismo para afogar projeto cubano de soberania
medicos-Cuba
Em 60 anos, médicos cubanos já socorreram 165 países e resistem à perseguição dos EUA