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Mulheres peruanas: O outro lado da história

Sara Beatriz Guardia

Tradução:

 

Edda O. Samudio A.* 

Sara Beatriz Guardia Sara Beatriz Guardia

A quinta e lúcida edição da obra Mujeres peruanas. El otro lado de la historia de Sara Beatriz Guardia (Quinta Edição,  Lima, CEMHAL, 2013) se enquadra nessa nova forma de trabalhar a história, a considerada nova história, que emerge na escola Los Annales, com um de seus mais destacados representantes: Fernando Braudel, nascidos nos albores do século passado.

Este historiador francês, o mais credenciado nos cenários acadêmicos do século XX, distancia-se dessa história tradicional, fragmentada, parcelada que qualificou, “… de curto fôlego”, para criar uma nova temporalidade fundamentada na estrutura, noção que cimentou a longa duração braudeliana.

Dessa maneira, Sara Beatriz Guardia, continuando essa linha diferente da história tradicional, com o inovador estudo da história das mulheres de uma perspectiva feminina, concretiza em 22 capítulos, o estudo desse outro lado da história, que alinhava cuidadosamente no plano temporal de longa duração. A autora, em seu percurso histórico esquadrinha fontes fundamentais para desvelar essa história do Peru, na qual as mulheres deixam de estar ocultas, ignoradas ou “invisibilizadas”, tornando-as protagonistas sociais e históricas. Assim, de forma diáfana, analisa o papel que teve esse outro lado no contexto das diversas estruturas econômica, social e política peruana conseguindo, com o protagonismo que teve na sociedade de cada momento, perpetuar a transcendência histórica das mulheres peruanas.

Mujeres peruanas. El otro lado de la historia 1A autora de Mujeres peruanas. El otro lado de la historia, estuda em um longo espaço de tempo a condição da mulher nas culturas pré-incaicas através das significativas descobertas arqueológicas de mulheres sacerdotisas e daquelas que tiveram um grande poder; para isso, acolhe a cronologia da civilização andina do reconhecido arqueólogo peruano Luis Guillermo Lumbreras. O capítulo seguinte é dedicado ao exame metódico sobre os papéis e o lugar das mulheres na sociedade hierarquizada que tipificaram o vasto Império dos Incas ou Tawantinsuyo, aos seus afazeres cotidianos que a autora consegue expor, com base nos inovadores conhecimentos dos bem elaborados estudos arqueológicos, nos relatos dos cronistas espanhóis e indígenas e nas valiosas contribuições que lhe proporcionaram os trabalhos de etno-história andina, de Antropologia Histórica ou Cultural da região.

Os sete capítulos seguintes, do II ao IX são centrados por Sara Beatriz Guardia na análise sistemática da informação oferecida pelas fontes documentais e biblio-hemerográficas da conquista, etapa que se iniciou com a chegada de Francisco Pizarro a Tumbes, em 1532, e do resto do período de dominação hispânica que abarca quase toda a época do vice-reinado, a partir de 1542, com a submissão do Império Inca e a criação do Vice-reino do Peru. O último desses capítulos contempla a repercussão do pensamento ilustrado no Peru oitocentista, ou seja, antes do ocaso do regime vice-reinol.

Sara Beatriz Guardia expõe de forma clara a maneira em que nessas centúrias de dominação hispânica, uma sociedade implantada, de Antigo Regime, caracterizada por sua ordem hierárquica, excludente e patriarcal, regida por um patrimônio, honra e prestígio que recaiam apenas sobre a mulher da elite, em que a submissão e a obediência tenderam a fortalecer a imagem da mulher submetida ao homem, destinada a uma vida de recolhimento, conventual ou de casamento; mulheres que não tiveram a possibilidade de conseguir os atributos para aceder à vida pública e, consequentemente, à condição de sujeito histórico e político. Certamente, para as mulheres dos outros setores da sociedade, que tiveram outro tipo de exclusão, as virtudes exaltadas pela elite não tinham sentido e tampouco o mesmo significado. A propósito, na obra se destaca a aliança que os conquistadores estabeleceram com as mulheres da elite Inca, circunstância que leva a refletir sobre a relação sexual violenta a que submeteram o resto da população indígena feminina.

Naquele cenário em que se conjugavam e se apoiavam os interesses temporal e espiritual, a autora mostra magistralmente o papel de mulheres fundadoras de conventos, instituições de recolhimento, Casas de Saúde ou farmácia gratuita para mulheres pobres, hospitais, e a inclusão de meninas em colégios para pobres, escolas de misericórdia e escolas particulares, instituições cuja criação responde às idéias ilustrativas de pululavam no ambiente citadino: surge a preocupação pela educação das meninas, a qual consistia em aprender a ler, escrever e alguns ofícios e destrezas; aprendizagens benéficas para seu papel de futuras esposas e mães.

Da mesma forma, a autora tira do obscurantismo o papel destacado que, como escritoras devotas, tiveram as monjas em sua clausura, durante os séculos XVII e XVIII e também o de algumas mulheres da aristocracia peruana.

Em outro capítulo, Sara Beatriz Guardia examina a participação das mulheres em levantes sociais, reclamando uma série de direitos, e dedica um extenso e completo capítulo a Micaela Bastidas, valente e indomável mulher, amante arrojada da liberdade, companheira fiel de Tupac Amaru e à insurreição de 1780, na qual, ademais, revela a destacada participação de cacicas e caudilhas, o impacto das idéias ilustradas no despertar da vida intelectual da sociedade peruana das últimas décadas do século XVIII que teve entre suas manifestações os artigos jornalísticos dedicados à vida da mulher, a sua feminilidade.

Nos cinco capítulos seguintes, Sara Beatriz Guardia se ocupa de revelar a presença da mulher na difícil etapa da incipiente e frágil existência republicana, desde o convulsionado período independentista até as últimas décadas do século XIX. Nessa primeira etapa, enfoca entre as heroínas peruanas e da América Latina, a conterrânea María Parado de Bellido, Juana Azurduy, combatente do Alto Peru; a equatoriana Rosa Campusano, lutadora pela causa patriota. Também entre as batalhadoras pela independência dedica páginas a Manuela Sáenz e destaca a figura de Francisca Subyaga Bernales de Gamarra, reconhecida como A Marechala e os escritos de Flora Tristán, mulher de linhagem peruana, nascida em Paris, a quem reconhece como uma das fundadoras do feminismo moderno e precursora das reivindicações femininas do movimento operário.

Da mesma maneira ressalta nesse período a inquietação pela educação que manteve a vocação de reforçar o tradicional papel de esposa e mãe. Na obra brilham mulheres na literatura peruana, que aparecem como diretoras de revistas e escritoras com artigos diversos e publicações dedicadas à educação feminina, ao clamor pelo direito de compartilhar a educação que se dava ao homem e por uma justa remuneração, posturas que confrontavam os poderosos setores retrógrados da sociedade peruana da época. Também resplandecem as criadoras de clubes literários, um verdadeiro despertar das mulheres para o mundo intelectual, exclusividade dos homens. Finalmente, Sara Beatriz Guardia, fecha a vida republicana com a participação valente das mulheres na Guerra do Pacífico, entre Peru e Chile  e na revolução democrática de 1895; algumas destacadas, enquanto muitas mulheres comuns, companheiras dos maridos, partilharam as vicissitudes das guerras, e também a morte.

Os últimos sete capítulos são abordados por Sara Beatriz Guardia no contexto de um Peru que se recuperava da Guerra do Pacífico e enfrentava a perda do salitre; um país com uma produção de açúcar, algodão e minérios que concorria ao mercado internacional, no qual se iniciava um pausado processo de industrialização que motivou o surgimento de uma classe operária e, consequentemente, reivindicação de direitos trabalhistas, protestos e greves; cenário no qual emergem os primeiros grupos femininos que lutam valentemente pelos direitos das mulheres operários.

Em 1914, a autora assinala a criação da Evolución Femenina, primeira organização feminista peruana integrada principalmente por mulheres de classe média, que teve como objetivo conseguir a incorporação ao trabalho e conquistar a igualdade jurídica, o que, de acordo com Sara Beatriz Guardia, motivou o debate sobre a emancipação da mulher, o direito ao voto, a educação e o acesso a cargos públicos. Também expõe que, através de algumas atividades, Evolución Femenina criou uma Escola-Oficina Moral e Trabalho para capacitar as mulheres, e depois a de Enfermeiras. Ademais, registra a luta desse organismo pela participação das mulheres nas Sociedades de Beneficência. E também destaca a nova organização de mulheres, “Feminismo Peruano”, fundada em 1924 e o aparecimento de várias escritoras peruanas em um meio controlado pelas vozes masculinas.

Entre 1917 e 1920, mostra Miguelina Acosta e Dora Mayer, dirigentes de “La Crítica”, periódico do anarco-sindicalismo, no qual se publicavam artigos relacionados com as pretensões das mulheres operárias e sobre a crise econômica experimentada por causa da Primeira Guerra Mundial.

Um interessante capítulo é dedicado a um dos mais importantes pensadores peruanos: José Carlos Mariátegui, ao significado de sua valiosa obra escrita, sua visão feminina, particularmente no período que ele denomina “Idade de Pedra” que contrasta com a que teve posteriormente, nos anos vinte, período em que fundou a revista Amauta, na qual plasmou sua postura ideológica ante a problemática do país.

Finalmente, a obra de Sara Beatriz Guardia se encerra com três artigos que propõem: “Mudar os paradigmas”, “Democracia. Também para as mulheres”, e o último, “História das mulheres” no qual estremece o significado da história das mulheres com a inquietude de que há ainda um longo caminho a percorrer. Eles e o resto do texto resenhado insinuam um universo de interrogantes e inumeráveis hipóteses.

Muito abreviei a resenha dessa extensa obra que, com uma extraordinária informação e um delicado olhar feminino de pesquisadora diligente, com perspectiva de gênero como fator essencial na reconstrução dos processos históricos de seu país, concretizou Sara Beatriz Guardia em  Mujeres peruanas. El otro lado de la historia. Obra única ao trabalhar um espaço de tempo de longa duração, desde esse rico mundo pré-hispânico até a atualidade. Nela, e como legado à posteridade, as mulheres são e não deixarão de ser objetos e sujeitos da história peruana. Sem dúvida, um maravilhoso aporte à historiografia feminina e à historiografia latino-americana.

É maravilhosa a possibilidade de encontrar em um livro como este a descrição da vida e da tarefa inadiável das mulheres peruanas… além do legado histórico que percorre no olho dos tempos…

* Edda O. Samudio A. é Professora Titular e Pesquisadora Emérita da Universidade dos Andes, Mérida, Venezuela. Sara Beatriz Guardia é da equipe de colaboradores de Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Sara Beatriz Guardia

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