O impacto das ações de Trump na Califórnia que prometeu proteger indocumentados

Dominique Santana e Maria Clara Galeano

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Após duras críticas sofridas nesta semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do partido Republicano, considerou que as mudanças nas normas para imigrantes terão que esperar. Assim, a construção de um muro na fronteira com México; a aprovação de uma lei de imigração mais rígida para reduzir o direito de obter a cidadania estadunidense e a política de separação de crianças e seus pais, no que depender do mandatário, deverão ser pausadas.

Isso porque o republicano espera que seu partido consiga eleger uma maioria conservadora nas eleições de novembro para só então votar as novas políticas na área: “Elejam mais republicanos em novembro e aprovaremos os melhores, mais justos e mais abrangentes projetos de lei de imigração de qualquer lugar do mundo”, tuitou Trump.

A tensão gerada pelo presidente em torno do tema tem feito com que estados estadunidenses que comportam muitos imigrantes vivam em constante conflito. Assim, a Califórnia, que se tornou um estado santuário, de proteção para imigrados em 2017, e que possui mais de três milhões de imigrantes, é vista pelo mandatário como uma ameaça e um incentivo à imigração de pessoas sem documentos.

No que diz respeito aos imigrantes que residem especificamente na Califórnia, Trump já se mostrou contra essa política instalada no estado que “protege” quem está irregular no país, principalmente após a aprovação da lei de estado santuário, chamada SB54, conhecida como “Ata de Valores da Califórnia” e sancionada em outubro do ano passado pelo então governador Jerry Brown.

Protesto em São Francisco, Califórnia, em defesa do direito dos imigrantes indocumentados | Foto: Kathy Drasky/Flickr/CC

A aprovação da lei, foi, inclusive, o gatilho para o processo que o governo federal estadunidense está movendo, desde o começo de março, contra a Califórnia. O motivador são as leis migratórias que restringem o poder das autoridades do Immigration and Customs Enforcement (ICE), o órgão de imigração e alfândega dos Estados Unidos, responsável por deter e mandar imigrantes de volta para seus países.

De acordo com a lei federal atual, a ICE é autorizada a prender e potencialmente deportar imigrantes que não estejam em situação legal no país, que estejam sob condenação de crimes ou respondendo a processos criminais, ou ainda que possam representar ameaças à segurança dos EUA.

O presidente interino do Senado da Califórnia Kevin De Léon, autor da lei SB54, declarou em entrevista à agência EFE, que “[a Califórnia] não participará de uma política movida pela prepotência”. Desde que Trump foi eleito, houve um aumento de quase 40% de detenção de imigrantes.

Por ser um estado santuário, a Califórnia proíbe que agentes municipais e estatais investiguem, interroguem ou prendam imigrantes dentro do estado.

Essa determinação entra em conflito com o pensamento da Casa Branca, reforçado pela ameaça do procurador-geral dos Estados Unidos, Jerry Sessions, de cortar verbas para territórios conhecidos como santuários que não colaborem com os atos das autoridades federais de imigração.

Em fevereiro deste ano, por exemplo, Trump ameaçou retirar as tropas fronteiriças e os agentes de imigração da Califórnia em uma tentativa de mostrar que o estado deveria cumprir as leis para a própria segurança. Para ele, caso a advertência fosse efetivada, a Califórnia se tornaria um “desastre criminal”. Além do mais, para ele, o estado não conseguiria se sustentar com a ideologia a favor dos imigrantes. “Deixemos que a Califórnia faça isso por si mesma, em dois meses suplicariam para que retornássemos”, disse.

Vulnerabilidade

A brasileira Bruna Lamounier mudou com a família para a Califórnia em abril de 2017. Seu marido, PH Lamounier, é treinador e recebeu uma proposta de um time escolar nos EUA. Atualmente, vivem bem, se estabilizaram, moram em uma residência e recebem alguma ajuda do governo, como convênio e escola pública.

Mas, no início, tiveram que ficar em um hotel, porque sendo imigrante sem documentação é praticamente impossível ter casa própria e um emprego registrado. Eles veem com estranheza as políticas anti-imigratórias de Trump. “Como fazia parte do México, aqui tem muito mexicano, todos falam espanhol. Não tem como decidirem tirar os imigrantes, eles são parte, uma grande parte que, além de tudo, constrói e ajuda o país”, diz ela.

É importante ressaltar que o território do estado da Califórnia era parte do México, como foi mencionado por Bruna. Com o fim da Guerra Estados Unidos-México (1846-1848) foi assinado o tratado de Guadalupe-Hidalgo. Assim, em 1848, a Califórnia e o Texas, entre outros estados, passaram a ser oficialmente parte dos Estados Unidos, e o México perdeu metade de sua extensão. Isso ajuda a explicar a quantidade de imigrantes mexicanos nessa área do país.

Eric Zuniga, por exemplo, tem ascendência mexicana e nasceu nos Estados Unidos porque seus pais foram imigrantes na década de 1970. Eles partiram em busca de melhores oportunidades de trabalho e de vida, se conheceram lá e formaram uma família. Na época, o presidente dos Estados Unidos era Ronald Reagan (1981-1989). “Eles receberam anistia por estarem lá desde antes de 1985, então foi mais fácil”, relata Eric.

O estudante considera que, na atual situação, as pessoas vivem inseguras e com medo devido às atitudes do presidente efetivo, além das outras medidas completamente nacionalistas e protecionistas que estão colocando em xeque a influência dos EUA como a maior potência mundial.

Mas, para ele, o principal problema da imigração é o racismo enraizado na sociedade. Além das intervenções que atacam os imigrantes, eles ainda enfrentam muita discriminação, principalmente baseada na cor da pele. Eric, no entanto, têm esperanças de que a Califórnia melhore em relação a isso, principalmente por “ser um estado santuário que vai ajudar as pessoas que precisam de proteção do governo”.

O fim do “sonho americano”

A imigração nos Estados Unidos sempre foi burocrática, mas agora tudo está sendo dificultado para que os cidadãos que desejam entrar no país desistam. No governo do democrata Barack Obama (2009–2017), algumas medidas foram tomadas para ajudar essas pessoas. Ele estabeleceu prioridades para os agentes e imigração, como combater o tráfico de drogas, era a favor da reforma migratória para que os indocumentados conquistassem a cidadania, entre outros.

Porém, com a gestão Trump, as coisas mudaram de rumo. A brasileira Juliana Grego se mudou com seu marido e sua filha para a Califórnia em 2017. Seus planos eram estudar e trabalhar. Anderson, mais especificamente, atua na área de publicidade e pretendia estudar cinema em Hollywood para se especializar. Mas, com a dificuldade de acesso aos hospitais, de conseguir um trabalho registrado e de arrumar uma moradia fixa, resolveram voltar para o Brasil. “Não queríamos ficar ilegais”, diz ela.

A insegurança constante quanto a moradia, educação e estabilidade são alguns dos fatores que fazem muitos imigrantes desistir da vida nos EUA e voltar a seus países. Quando há criança na família, o cenário fica ainda mais grave e o medo e a apreensão de viver em condição irregular acabam reduzindo a qualidade de vida e a determinação dos imigrantes de ficarem nos Estados Unidos.

Edição: Vanessa Martina Silva

* Produzido para a revista Diálogos do Sul em parceria por alunos da U. P. Mackenzie.

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