Nações Unidas

Plano de Trump contra Palestina só agrava instabilidade e violência no Oriente Médio

Projeto tenta legalizar o que é ilegal: a ocupação israelense, construção de assentamentos de colonos sionistas e confisco e anexação de terras árabes

Ibis Frade

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Havana (Cuba)

A maioria da comunidade internacional defende o direito do povo palestino de ter seu próprio Estado e viver livre da ocupação de Israel, mas os Estados Unidos se afastam cada vez mais do consenso e impõem sua agenda unilateral. 

Há poucas semanas o presidente estadunidense, Donald Trump, e o primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciaram o plano de paz para o Oriente Médio, cujas propostas diferem amplamente das resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral da ONU. 

Para as Nações Unidas, a solução de dois Estados permanece como a única alternativa para resolver o conflito na Palestina, enquanto a “iniciativa” de Trump tenta legitimar os assentamentos israelenses em território ocupado – considerados ilegais pela ONU – e deixar para o povo árabe um território hiper fragmentado.



Além disso, o plano também deixa de lado o antigo objetivo de criar um Estado palestino totalmente autônomo, proíbe o regresso dos refugiados e propõe anexar a Tel Aviv assentamentos judaicos na Cisjordânia e no vale do Jordão. 

Isto implicaria, caso se concretize o projeto de Washington, na formação de qualquer futuro Estado palestino, que a porção da Cisjordânia ficaria rodeada por Israel em todas as frentes.

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"A proposta pretende ainda consolidar a anexação pela força militar e a naturalização de um sistema de apartheid"

Oposição aos planos de Trump/Netanyahu

A Liga dos Estados Árabes, a Organização de Cooperação Islâmica e a União Africana se opõem de maneira clara a esse plano que permitiria a Tel Aviv anexar mais de 130 assentamentos de colonos israelenses.

Após conhecer o anúncio que Trump insiste em apresentar como o Acordo do Século, apesar de a parte Palestina não ter participado em sua criação, e se opõe rotundamente, o secretário geral da ONU, António Guterres, reiterou que a solução de dois Estado é a única forma de resolver o conflito da Palestina.


Também reafirmou o compromisso do organismo multilateral de apoiar palestinos e israelenses com base nas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral.

No princípio deste mês, ao participar na primeira reunião do ano do Comitê sobre o exercício dos direitos inalienáveis do povo palestino, Guterres alertou repetidamente sobre ações que erodiriam a possibilidade de um Estado palestino e que são contrárias ao direito internacional.

O máximo representante das Nações Unidas rechaçou a expansão e a aceleração das atividades ilegais de Tel Aviv de construção de assentamentos na Cisjordânia, incluída Jerusalém Oriental, assim como as contínuas demolições e confiscações de bens e desalojamentos de propriedades palestinas.

Nunca devemos esquecer o sofrimento humano que persiste em todo o território palestino ocupado, incluída a difícil situação dos dois milhões de pessoas que vivem na Faixa de Gaza em condições extremas, sublinhou o diplomata português.

Por sua parte, o Conselho de Segurança da ONU dedicou uma reunião em 7 de fevereiro a abordar o chamado Acordo do Século, sessão da qual participou o presidente palestino, Mahmoud Abbas.

O titular árabe rechaçou nessa reunião o plano de paz para o Oriente Médio de Trump e denunciou sua ilegalidade.

"Tal projeto tenta legalizar o que é ilegal: a ocupação israelense da Palestina, a construção de assentamentos de colonos sionistas e o confisco, e a anexação de terras árabes", ressaltou Abbas.

"Esse projeto ou qualquer parte dele não pode ser considerada uma referência internacional para as negociações entre palestinos e israelenses", asseverou o líder Palestino.

Resoluções internacionais e negociações

Abbas assegurou também que "a Autoridade Palestina está preparada para iniciar de imediato negociações com Israel sob o patrocínio do Quarteto (composto pelos Estados Unidos, a Rússia, a ONU e a União Europeia) com base em resoluções internacionais, mas isto só seria possível se Tel Aviv demonstrasse um real interesse na paz", sublinhou.

"Porém, o plano de Trump nos parece ser um presente para a ocupação de Israel, busca transformar nossa pátria em acampamentos fragmentados e anular os direitos dos palestinos", denunciou o líder árabe.

"A proposta pretende ainda consolidar a anexação pela força militar e a naturalização de um sistema de apartheid", finalizou Abbas.

Diplomata israelense reafirma posicionamento do Governo Sionista

Já o representante permanente de Israel na ONU, Danny Danon, considerou que a proposta de Abbas sobre o diálogo não é séria e defendeu a ação de Tel Aviv nos territórios palestinos ocupados, que são amplamente rechaçadas pela esmagadora maioria da comunidade internacional.

Numerosos analistas internacionais consideram que a aplicação do plano de Trump inviabilizaria à solução de dois Estados, única alternativa possível segundo a ONU e muitas outras instâncias internacionais.

Após 70 anos de existência e reconhecimento do Estado de Israel, a criação e o reconhecimento do Estado Palestino é um dos temas ainda pendentes nas Nações Unidas.

Após mais de 50 anos de ocupação ilegal por parte de Tel Aviv e de violenta repressão ao povo palestino, a situação na Faixa de Gaza e na Cisjordânia piora a cada dia para a população civil, que é despojada de seus territórios ancestrais e sofre a escassez produzida pelos bloqueios israelenses.

"Estado Observador" e favorecimento aos sionistas

Desde 2012, a Palestina é reconhecida como um Estado Observador não membro da ONU graças a uma resolução da Assembleia Geral, adotada com 138 votos a favor, 41 abstenções e nove votos contra.

A maioria da comunidade internacional concorda em que é Tel Aviv quem deve acabar com a colonização dos territórios palestinos para avançar à paz, e que só uma solução que assegure a criação de dois estados poderá trazer estabilidade à região.

Uma postura diametralmente oposta assume o atual chefe da Casa Branca, que desde sua chegado ao poder tem dirigido sua política para favorecer ainda mais a Israel.

Exemplo desta situação, foi a decisão unilateral tomada por Trump no final de 2017, de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e mudar para essa cidade a sede da embaixada estadunidense.

Não satisfeito, logo a seguir, Trump cortou de forma abrupta a "ajuda" de centenas de milhões de dólares que os EUA destinava à Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos e determinou o fechamento do escritório de representação da Organização para a Libertação da Palestina em Washington.

Neste contexto, o denominado Plano do Século apresentado por Trump é apenas mais um dos múltiplos golpes desferidos contra os palestinos e só tem causado mais instabilidade, mais violência e enfrentamentos na região.


*Ibis Frade, Correspondente de Prensa Latina nas Nações Unidas.

**Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

***Tradução: Beatriz Cannabrava


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