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Mutilação genital feminina: como Nigéria luta para combater prática persistente do país

Discriminação, violência contra mulheres e meninas e estereótipos de gênero dificultam o progresso em direção à igualdade de gênero
Sangita Swechcha
Global Voices
Lagos

Tradução:

Na Nigéria, 20 milhões de meninas e mulheres foram submetidas à Mutilação Genital Feminina (MGF). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), “a MGF envolve a remoção parcial ou total da genitália feminina externa ou outra lesão aos órgãos genitais femininos por razões não médicas”. 

Globalmente, uma em cada 10 meninas ou mulheres que vivenciam a MGF está na Nigéria. O país tem significativas disparidades de gênero na política, economia e educação.

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Práticas discriminatórias, violência contra mulheres e meninas, e estereótipos de gênero dificultam o progresso em direção à igualdade de gênero.

A MGF e outras formas de violência de gênero tornaram-se crimes puníveis com a lei de proibição de violência contra a pessoa na Nigéria em 2015. Entretanto, a prática continua por diversas razões.

Em junho, Sangita Swechcha entrevistou o Dr. Chris Ugwu, diretor-executivo da Society for the Improvement of Rural People (SIRP) (Sociedade para melhoria das populações rurais) uma organização da sociedade civil que trabalha para acabar com a MGF por meio de mudanças sociais e comportamentais na Nigéria.

Discriminação, violência contra mulheres e meninas e estereótipos de gênero dificultam o progresso em direção à igualdade de gênero

Imagem da SIRP
"O que estamos fazendo é levar esse conhecimento para várias comunidades", explica o Dr. Chris Ugwu

  

Global Voices (GV): Por que a MGF é praticada e como afeta a saúde e o bem-estar das meninas e mulheres?
Dr. Chris Ugwu: Na Nigéria, os lugares com maior taxa de prevalência da MGF são o sudoeste e o sudeste. Há muitas razões pelas quais a MGF é praticada na Nigéria. Variam desde razões culturais e até a contenção do apetite sexual ilícito de mulheres e meninas no país. Entretanto, vamos nos ater a algumas razões pelas quais é praticada em Enugu, no sudeste da Nigéria. No estado de Enugu, a MGF é normalmente praticada por causa do sistema patriarcal, que garante o domínio masculino sobre as mulheres. É uma maneira pela qual os homens dominam e se impõem perante as mulheres.

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Outro motivo é que a MGF também é frequentemente considerada uma obrigação religiosa/cultural, por exemplo, o rito de passagem para a idade adulta, o corte genital feminino como parte da cerimônia para receber o nome, etc. Na maioria das comunidades do estado de Enugu, a MGF é geralmente realizada no oitavo dia após o nascimento, para coincidir com a cerimônia em que a criança recebe seu nome. Este é um evento festivo com presentes e bebidas. As duas cerimônias estão interligadas. Descobriu-se também que as mães com poucos recursos não podem se opor abertamente à mutilação de suas filhas porque isso também significaria a não realização da cerimônia em que a criança recebe seu nome. Tudo isso contribuiu para o crescimento desta prática no estado de Enugu.

Dr. Chris Ugwu: Algo que tem ajudado é nossa estratégia, que envolve o uso do diálogo aberto e imparcial

Qual tem sido o efeito da MGF na educação de mulheres e meninas na Nigéria?
Nunca é demais realçar os efeitos da MGF na saúde das mulheres. Isso ocorre porque o procedimento causa dores insuportáveis, infecções, sangramento excessivo, incontinência urinária, complicações no parto, traumas e, às vezes, até a morte. Além disso, tem influência na educação das meninas. A MGF serve como precursora do casamento precoce para as meninas. Isso significa que elas têm que abandonar a escola para tomar conta da sua família. Invariavelmente, afeta suas chances de conseguir empregos bons e bem remunerados no futuro.

A pesquisa da SIRP mostra que 95% dos entrevistados nunca ouviram falar que a MGF se tornou um crime punível na Nigéria. O que você tem a dizer sobre isso?
Isso é algo que não nos orgulhamos aqui na Nigéria porque, sem esse conhecimento, temos visto famílias e comunidades encorajadas a continuar com a prática. É realmente muito desanimador. Então, o que estamos fazendo é levar esse conhecimento para várias comunidades aqui na Nigéria. Fazemos isso há mais de três anos e continuaremos a fazê-lo. Atualmente, estamos implementando o projeto para pôr um fim na MGF em Akwuke, com o apoio da Feed the Minds (Reino Unido). Nesse projeto, garantimos que os membros da comunidade tenham conhecimento sobre a Lei de Proibição de Violência contra as Pessoas (Lei VAPP) do estado de Enugu, que proíbe a prática de MGF na Nigéria.  

Você tem muita experiência com o trabalho em comunidades locais. Como a sociedade local está mudando em relação à prática da MGF?
É tão bonito ver a sociedade mudar. Isso ocorre porque agora estamos vendo famílias e comunidades mudando suas mentalidades e atitudes sobre essa prática. Já estão denunciando e proibindo de maneira aberta e pública. Até o momento, vemos isto em algumas comunidades como Awgu, Okpanku e Oduma aqui no estado de Enugu. Algo que tem ajudado é nossa estratégia, que envolve o uso do diálogo aberto e imparcial. Isso garante que tenhamos uma discussão aberta, imparcial e construtiva com vários membros da comunidade.

Qual a sua estratégia para acabar com a MGF na Nigéria e quais medidas de prevenção você está implementando?
Nossa estratégia está fundamentada nos 6 elementos da UNICEF para a eliminação da MGF. Esse enfoque é complexo e envolve o uso de diálogo aberto e imparcial, a aceitação da comunidade, da mídia, das leis e, claro, da próxima geração.

Atualmente, estamos implementando um projeto para a eliminação da MGF em 12 meses na comunidade Akwuke, no estado de Enugu, na Nigéria. Já realizamos muitos treinamentos, oficinas, programas de rádio e começamos a ver alguns resultados positivos. Esperamos criar uma mudança com impacto duradouro.

Sangita Swechcha | Global Voices
Tradução: Helena Giordano


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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