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“Na esperança do povo, hoje a saída é Lula”, diz Frei Betto, em entrevista

Para o religioso, período em que BolsoNero, como ele diz, está na Presidência da República é uma entre outras “pequenas derrotas” que necessitam de muita luta política para serem superadas
Pedro Camarão
Fundação Perseu Abramo
São Paulo (SP)

Tradução:

Frei Betto não se deixa abater pela política destruidora do governo Jair Bolsonaro e, também, não se abala com a postura desprezível que o presidente tem. O período em que BolsoNero, como ele diz, está na Presidência da República é considerado como uma entre outras “pequenas derrotas” que necessitam de muita luta política para serem superadas.

Frade dominicano, jornalista e escritor, autor de 69 livros, Carlos Alberto Libânio Christo é um militante incansável. Diante da profunda tensão social gerada pela divisão política no Brasil, Frei Betto se disfarça de “bolsominion arrependido” para conseguir dialogar com quem votou em Bolsonaro. Esse espírito que parece inabalável, se deve a um axioma que carrega como lema para a vida: “Vamos guardar o pessimismo para dias melhores”.

O derretimento da popularidade de Bolsonaro é sinal da possibilidade de novos tempos, mas Betto alerta que a esquerda não pode se iludir. A decepção de parcelas da sociedade com o atual presidente se deve à condução política desastrosa, mas não significa alteração na forma como esses grupos enxergam a realidade e o país.

Para o religioso, período em que BolsoNero, como ele diz, está na Presidência da República é uma entre outras “pequenas derrotas” que necessitam de muita luta política para serem superadas

Reprodução: Facebook
O ex-presidente Lula lidera todas as pesquisas de intenção de voto para as eleições de 2022

Assim, a nova ascensão do ex-presidente Lula é resultado da referência que está na memória popular sobre o período em que ele governou. Ele afirma que, para o povo, “a saída é Lula”. E entende que os protestos contra Bolsonaro são fundamentais para o momento que o Brasil atravessa e chama atenção para a importância de retomar o trabalho de base e o diálogo com grupos que se afastaram.

Isso é considerado fundamental para Betto porque é a única maneira para que governos progressistas e populares possam ter o que ele chama de “efetivo poder”. Ao analisar o cenário político na América Latina, ele aponta sobre o período em que líderes populares estiveram a frente da maior parte dos países latino-americanos, que a falta de capilaridade acabou permitindo o surgimento de figuras neofascistas de extrema-direita. A volta ao poder tem em si o desafio político de fazer algumas coisas de maneira diferente.

Nesta entrevista à Focus Brasil, Betto ainda relembra conversas com Fidel Castro, o trabalho realizado em Cuba e o que precisa ser feito para que a esquerda se esquive do discurso maniqueísta inventado por igrejas evangélicas neopentecostais. Algo que ele considera fundamental para acessar grupos religiosos.

Focus Brasil — O Brasil vem de um período muito conturbado, de muita tensão em função da conjuntura. Tivemos um período de muito ódio ao PT, Lula e à esquerda. E, de repente, pesquisas de opinião mostram uma rejeição crescente contra Bolsonaro, um representante de tradições brasileiras como o patrimonialismo, o machismo, a misoginia, o preconceito. A parcela que apoiava o Bolsonaro até outro dia está acordando para essas questões ou trata-se apenas de um descolamento momentâneo, de uma desilusão com essa figura, mas sem mudança alguma de valores, de forma de pensar ou enxergar a realidade? 

Frei Betto — Considero que o povo brasileiro, como nação integrada no sistema capitalista, é conservador e tende à direita. O fato desse povo ter votado em Bolsonaro não me surpreende. O que me surpreende é o fato desse povo ter votado quatro vezes em candidatos do PT. Isso, sim, é surpreendente e explicável por toda uma história de 40 anos que precede a chegada de Lula à Presidência, em 2003. É um povo sofrido. Muito sofrido por causa da brutal desigualdade econômica. O índice de miséria é gritante. Hoje são 19 milhões de brasileiros oficialmente em situação de fome. Não é nem de insegurança alimentar. É de fome. São 105 milhões de brasileiros que ganham menos de um salário-mínimo! Então, tudo isso leva as pessoas a procurarem uma saída. Hoje, a saída é Lula, na esperança do povo, segundo as pesquisas. Isso não significa que esse povo se tornou consciente, nem que se tornou crítico ao BolsoNero, como costumo chamá-lo – porque Nero, ao incendiar Roma, ficou tocando lira nas arcadas do palácio, exatamente como faz esse cidadão aí.

Acontece que esse povo esperava uma melhoria de vida que não veio, e não virá. A situação só se agrava, a política econômica é absolutamente desastrosa. Então, as pessoas querem sair do sufoco. Elas podem não ter senso crítico, mas têm memória de que, durante os governos do PT, a situação era melhor. Você ia à feira com R$ 20 e voltava com a sacola cheia. Hoje, isso é impossível. O salário mínimo era corrigido anualmente acima da inflação. Enfim, havia uma série de direitos sociais assegurados, o que não acontece agora. Então, creio que essas pessoas não estão, propriamente, adquirindo consciência crítica. Querem é sair do sufoco.

Atribuo essa não consciência crítica à esquerda, na qual me incluo. Nós nos afastamos do trabalho de base. Na medida em que alçamos instâncias de governos — municipal, estadual e federal — fomos nos afastando desse trabalho corpo a corpo que fazíamos nos anos 1970, 80 e 90, através das Comunidades Eclesiais de Base, do sindicalismo, das ONGs, dos núcleos do PT espalhados por todos os rincões do Brasil, de movimentos populares como o MST. Fomos nos afastando.

O MST ainda permanece junto às bases populares. Também o MTST permanece mais organicamente vinculado aos setores mais pobres da população. Mas nós, militantes de esquerda, fomos nos afastando, até por necessidade de quadros nas administrações públicas. Esse afastamento abriu um vácuo ocupado, progressivamente, pelas igrejas evangélicas fundamentalistas, pelo narcotráfico e pelas milícias. Então, creio que, agora, qualquer projeto de governo tem que incluir, necessariamente, um retorno ao trabalho de base. Porque não vamos libertar o Brasil se o povo não o fizer. Quer dizer, o protagonista tem que ser desse povo organizado e mobilizado.

Enquanto o Bolsonaro vai derretendo, o ex-presidente Lula surge como franco favorito para voltar à Presidência. Existe a questão da memória que você já mencionou, mas gostaria de saber, especificamente, a sua leitura sobre essa ascensão do Lula depois de tudo o que enfrentou, acusado de corrupção, vítima de uma campanha difamatória pesada por anos, 580 dias preso… Lula parece que atravessa grupos sociais, barreiras entre esses grupos. 

Somos uma Nação que carece de referências de lideranças. Temos muitas lideranças históricas, mas que, infelizmente, não estão na memória popular. A única grande referência, hoje, na memória popular, é o Lula. Não há outra grande referência. Poderia citar outros, como Francisco Julião, Marighella, Lamarca, Tiradentes etc. Mas nada disso está na memória do nosso povo. Essas figuras históricas se apagaram por força de uma cultura neoliberal que 

como age atualmente a Fundação [Cultural] Palmares —, procura cada vez mais “clandestinizar” essa memória nacional que poderia impulsionar o povo a assumir o seu protagonismo histórico. Mas o Lula se manteve no noticiário, até mesmo pela narrativa negativa contra ele. Ou seja, de qualquer maneira, ele é uma referência, a favor ou contra, mas o nome dele nunca saiu do noticiário.

Na medida em que a Lava Jato desmoronou, as pessoas viram que não dava mais para confiar naquela narrativa. Essa narrativa favoreceu muito a eleição do Bolsonaro, porque se há algo que pega muito nas camadas mais sofridas da população é a questão moral. Não é só o moralismo. O pobre brasileiro é hegemonicamente moral, ético. Aquela coisa do lixeiro que, no lixão de Vitória, encontrou dinheiro num saco de lixo e devolveu ao banco. Ou o caso do taxista de Brasília que encontrou US$ 20 mil no banco traseiro do seu carro e devolveu ao sujeito que tinha vindo do exterior fazer uma cirurgia.

O discurso moralista toca muito a população brasileira. Mas na medida em que se comprovou que toda a acusação ao Lula e ao PT era uma grande armação, esse povo, decepcionado, hoje se volta de novo para o Lula, e isso o fortalece. Agora, é preciso transformar esse retorno, esse apoio, em algo consistente. E isso significa fazer um trabalho político. Eis o desafio que temos pela frente.

Você não vê esse Golpe de 2016, que derrubou a Dilma, interditou o Lula e que quis garrotear o PT, como uma conspiração que transcende o território nacional? 

Sem dúvida alguma. A entrevista recente do Guido Mantega é muito esclarecedora, porque ele aponta que o processo de sabotagem ao governo da Dilma se inicia, justamente, no momento em que os bancos públicos desafiam a concorrência com os bancos privados, por liberar créditos mais facilitados e uma série de outras medidas tomadas que reduziram o exorbitante lucro dos bancos privados. E aí, evidentemente, entrou a sabotagem da elite brasileira associada ao capital internacional. Sem dúvida alguma. A Casa Branca não tem o menor interesse que, na América Latina, haja governos favoráveis à Venezuela, favoráveis a Cuba, próximos da China. A geoestratégia deles é, justamente, desmobilizar esses governos, sabotá-los. Hoje, através de golpes brancos, não mais de golpes armados cometidos até os anos 70. A estratégia agora é outra. E, através desses golpes brancos, afastar qualquer um que não venha a favorecer a total hegemonia da Casa Branca no mundo, especialmente na América Latina, que eles sempre olharam como seu quintal.

Vale a conhecida piada: “Por que nunca teve golpe nos EUA? Porque lá não tem embaixada americana”. Se bem que quase o [Donald] Trump consegue. Teve vontade, não precisou de embaixada americana. A própria Casa Branca intentou forjar ali um golpe. Mas o fato é esse. Creio que houve uma orquestração internacional [no golpe contra o Brasil]. Só que, hoje, essa elite mundial está dividida frente ao Brasil. De um lado, porque um setor dela não quer colocar capital em nosso país, sente grande insegurança política e econômica, tem medo de perder o seu dinheiro. E, de outro lado, esse setor também é sensibilizado pela questão ambiental. A questão ambiental ganha hoje muita força, e isso leva a um afastamento crítico do Brasil, por causa do desmatamento, dos incêndios criminosos, do contrabando de madeira, enfim, todo o desmantelamento da questão ambiental que temos visto nesse governo. Tudo isso obriga a elite nacional e internacional — não desassocio as duas, pois estão intimamente ligadas —, a buscarem o que a mídia chama de terceira via. Quer dizer, prefeririam encontrar um candidato que não fosse nem Bolsonaro, nem Lula. É muito difícil, em tão pouco tempo, se construir esse candidato. Claro que pode acontecer, como em 2018. Pode aparecer um arrivista, um avatar, alguém com grande prestígio midiático. Pode acontecer, não descarto essa possibilidade. Mas, visto de hoje, não há alternativa senão o entendimento com o processo que indica a terceira eleição de Lula.

E os protestos que estão sendo convocados contra o Bolsonaro? É o momento de ocupar as ruas? 

Estive nos dois. E estarei no terceiro. Escrevi um texto sobre isso: “Todos às ruas”. Considero fundamental nossa mobilização. Nós, a esquerda, não soubemos trabalhar os protestos de 2013. Ficamos perplexos quando ocorreram e, lamentavelmente, eles foram capitalizados pela direita, e não pela esquerda. Hoje, esses protestos exigem também duas atitudes nossas. Primeiro, saber como canalizá-los para uma organização política mais consistente. Ou seja, não basta apenas o protesto, é preciso ter propostas. Tenho enfatizado isso. E essas propostas ainda não surgiram nessas mobilizações. E isso é de fundamental importância, porque toda vez que encontramos uma manifestação “contra”, ela pode ser arrebatada facilmente por um oportunista, por um avatar. O segundo fator — e já chamei a atenção do [Guilherme] Boulos —, no fim da última manifestação em São Paulo um pequeno grupo de mascarados quebrou uma agência bancária. A única maneira de a direita tentar desmobilizar as nossas manifestações é, justamente, convocar seus arruaceiros para criar um temor de que participar de protestos é correr o risco de ser apedrejado, ferido ou levar um tiro.

Vai ser preciso uma atuação muito rigorosa daqueles que organizam a manifestação para evitar essas infiltrações de direita. Repare que, sempre que ocorrem, são filmadas pela mídia, mas curiosamente a polícia não toma ciência delas, ignora. E quando está presente protege, não interfere. A gente nunca vê esses arruaceiros sendo presos, punidos. Creio que é muito importante ficarmos alertas. Eles vão tentar tirar o caráter pacífico das manifestações e imprimir um carimbo de atuação violenta, e essa atuação violenta, realmente, espanta muitos setores da população e pode enfraquecer as manifestações. Precisamos criar uma rede de proteção e, ao mesmo tempo, de antídoto a essa possível tentativa de transformar o protesto em violência e quebradeira.

Falando um pouco sobre América Latina, vimos que a direita chegou ao poder em alguns dos países latino-americanos, mas agora a esquerda e a centro-esquerda estão voltando. E observamos em muitos desses países levantes populares muito contundentes. Gostaria que você comentasse sobre esse quadro político na América Latina. 

Nas últimas décadas, podemos tipificar quatro grandes ciclos de políticas de governos latino-americanos. O primeiro, foi o das ditaduras militares e elas fracassaram, não só do ponto de vista de não perdurarem, mas fracassaram do ponto de vista econômico, social, de prestígio. Tivemos o segundo ciclo, a emergência das candidaturas presidenciais de corte messiânico-neoliberal: Alberto Fujimori, no Peru; [Rafael] Caldera, na Venezuela; García Meza, na Bolívia; Carlos Menem, na Argentina; Fernando Collor, no Brasil, etc. E esse tipo de política também fracassou. Todos esses candidatos foram acusados de corrupção, estão presos, como o Fujimori, ou tiveram que renunciar antes de serem depostos, como o Collor. Enfim, um fracasso total. Aí vem o terceiro ciclo, o dos governos progressistas: Hugo Chávez, Lula, Pepe Mujica, Evo Morales, o casal Kirchner, Rafael Correa, Mauricio Funes, em El Salvador, etc. Tudo isso mostrou que, decepcionados com aquela política messiânica-neoliberal, que só favorecia um pequeno setor da elite, o povo então decidiu votar em candidatos progressistas de raízes populares.

Esses governos não conseguiram se transformar em efetivo poder. Estivemos no governo, mas não tínhamos o poder em mãos. Não soubemos aproveitar o período de governo para criar uma grande capilaridade de organização popular. Isso foi feito em alguns países, como na Venezuela, mas nos demais os nossos governos democráticos populares, progressistas, não lograram organizar os setores populares dentro de uma consciência crítica, de uma mobilização permanente, reforçando os movimentos populares, os movimentos identitários, os sindicatos, as ONGs progressistas. Isso é algo que ficamos devendo. Isso abriu a possibilidade do surgimento de candidatos neofascistas e de golpes de Estado, como os golpes na Dilma e no Evo Morales, as tentativas de golpe na Venezuela, a sequência de presidentes derrubados no Peru, as manifestações no Chile e na Colômbia. Ou seja, hoje há uma enorme insatisfação com esses avatares que surgiram depois dos governos progressistas prometendo fazer um governo melhor do que aquele que o antecedeu. E isso levou a uma grande decepção.

Então, esse é o momento, sim, de uma volta dos governos progressistas e populares. Tudo sinaliza nessa direção. É o caso do prestígio do Lula nas atuais pesquisas, o candidato da esquerda vencendo no Peru, o candidato do Partido Comunista no Chile como preferencial nas futuras eleições, tudo isso sinaliza a volta dos governos progressistas, mas não vamos no iludir. Ou seja, ao voltar temos que assumir outra plataforma de governo. Não podemos repetir a mesma receita adotada no passado. Algumas, sim, como reforçar as políticas sociais, o salário dos trabalhadores, manter a inflação ao nível bem baixo — existe uma série de medidas que merecem ser repetidas. Mas o trabalho político precisa ser feito. Não podemos apenas pensar no benefício econômico, temos que pensar na organização e na mobilização políticas. Isso é fundamental para se ter uma Nação realmente organizada em função do projeto de uma sociedade melhor.

Num debate recente que realizamos na Fundação Perseu Abramo sobre socialismo, nas suas considerações, você declarou que se considera um cristão-marxista. Existe essa lógica de guerra cultural em que tentam colocar a esquerda brasileira como anticristã. Como você acha que a gente pode e deve sair dessa armadilha da turma neopentecostal que parece ter leitura errada do Cristianismo? 

Não podemos permitir que determinados valores simbólicos para o povo brasileiro sejam apropriados pela direita. Cito um exemplo: insisto que, nas nossas manifestações, usemos a bandeira do Brasil. Não podemos permitir que os símbolos pátrios, tão arraigados no inconsciente coletivo, fiquem apropriados pela direita. Isso vale para outro valor inestimável para o nosso povo,  a religião. A lógica mais elementar de uma empregada doméstica, um morador de rua, um sem-terra, um sem-teto, quando você pergunta o que pensam da vida, do mundo, do destino, seguramente darão uma resposta tecida em categorias religiosas. Temos que, não só respeitar essa esfera, como nos aproximar dos setores progressistas e esclarecidos que existem em todos os segmentos religiosos. Possivelmente, nos últimos anos, temos abandonado esse diálogo.

No caso da Igreja Católica se explica por que houve um refluxo das Comunidades Eclesiais de Base. Porque atravessamos 34 anos de pontificados conservadores: João Paulo II e Bento XVI. Agora, com o papa Francisco, há uma revitalização dessas pastorais populares. Mas, de qualquer forma, as forças políticas precisam voltar ao diálogo permanente com os segmentos religiosos. É a pergunta que fiz para Fidel, em 1980. Eu estava com o Lula no primeiro aniversário da Revolução Sandinista, e passamos uma madrugada inteira na casa do vice-presidente da Nicarágua, Sergio Ramirez, conversando com Fidel. E lá pelas tantas perguntei a ele: “Comandante, como é a relação da Revolução Cubana com a Igreja Católica?” Eu sabia qual era a relação, mas queria ouvir da boca dele. E falei: “Antes que o senhor responda, digo que há três hipóteses: a primeira, a Revolução persegue a Igreja Católica. Se é assim, ela presta um bom serviço ao imperialismo, à política dos EUA. A segunda, a Revolução é indiferente à Igreja Católica. Se é assim, ela transforma a Igreja Católica em antessala de saída de Cuba daqueles que querem dar as costas à Revolução. E a terceira, a Igreja Católica é reconhecida pela Revolução como um dos entes políticos da sociedade cubana e com quem é preciso manter um diálogo permanente”. Fidel admitiu: “Você tem razão, reconheço o nosso equívoco. Temos que voltar a dialogar”. Daí se iniciou o meu trabalho em Cuba de, justamente, fazer essa ponte de retomada do diálogo entre Igreja Católica e Revolução.  Dediquei-me a isso 10 anos, de 1981 a 1991.

Há pastores, padres, imãs, rabinos, umbandistas, pais e mães-de-santo, absolutamente progressistas. Mas muitas vezes não encontram canais de diálogo com os setores de esquerda. Precisamos manter esses vínculos, é muito importante. Não só em épocas eleitorais. Eles precisam ser integrados mais amplamente, não no partido, integrados dentro dessa grande corrente progressista que abarca partidos, sindicatos, ONGs, movimentos identitários e também movimentos religiosos, porque a religiosidade tem sido muito inteligente e demoniacamente utilizada pelo imperialismo. Vemos aí todo o fenômeno do neopentecostalismo fundamentalista, das igrejas eletrônicas, todo o processo de submissão do nosso povo mais pobre trocando a liberdade pela segurança. Essa troca se faz através do discurso ou sermão, que muitos padres e pastores fazem, no sentido de que você precisa abdicar da sua liberdade de consciência para aceitar a palavra da autoridade como palavra de Deus. Assim, muitos se submetem, principalmente porque esses pastores e padres pregam mais o inferno do que o céu. Ou seja, incutem o medo como forma de levar as pessoas a trocarem a liberdade pela segurança. E segurança é sempre o outro que pode me dar. A liberdade eu posso exercer, ela é minha. Mas segurança sempre é garantida pelo outro e, nesse caso, o outro é o BolsoNero, é o fascista, a milícia, o pastor ou o padre que dirige a minha consciência.

Logo após a eleição do Bolsonaro, adotei uma tática em alguns setores populares quando, por exemplo, ia comprar alguma coisa num mercadinho ou entrava num táxi. Em vez de advogar que o eleitor de BosoNero deveria ter votado no Haddad, eu dizia: “Estou profundamente arrependido de ter votado no Bolsonaro”. E começava a dar as razões. O gerente do mercadinho ou o taxista inevitavelmente dizia: “E, eu também votei nele”. Mas aí se abria para o diálogo, porque não estava dialogando com um petista fanático, alguém que ele dissesse: “Esse aí é do diabo”… Não. Estava dialogando com alguém que cometeu o mesmo erro que ele cometeu. Ou, às vezes, ainda não estava convencido do erro [até aquele momento]. Até hoje adoto essa tática, que funciona muito bem. Isso cria uma insegurança no raciocínio daquele “bolsominion”, que até então estava convencido e, agora, já começa a ter o “pé atrás”. Portanto, precisamos voltar ao diálogo com segmentos religiosos, devido à importância política que sempre tiveram.

Lembro-me do debate do [Karl] Marx com o [Mikhail] Bakunin. Bakunin atacou a Internacional Comunista por negar o ateísmo. E Marx não quis que a Internacional mantivesse vínculos com o grupo de Bakunin por que este “decretava o ateísmo como dogma para seus membros” [Carta de Marx a Bolte 23/11/1871, in Marx, Engels Werke, vol. 33, pp 329 e 402].

Marx nunca pregou o ateísmo no movimento comunista. Isso é coisa do Lênin e outras influências. Em outras palavras, o Marx diz sobre Bakunin: “Não vamos entrar nesse fundamentalismo”. O Partido Comunista Brasileiro — me lembro dos diálogos, na prisão, com Diógenes Arruda Câmara, que foi dirigente e, por muitos anos, do Birô Político —, nos quais ele me dava razão quando eu criticava o partido por exigir que todo militante, ao ingressar, assinasse uma ficha e se declarasse ateu. Eu dizia que isso era de uma burrice estonteante. Como, num país tão religioso como Brasil, exigir que alguém, primeiro, abdique da sua fé para, depois, assumir uma militância política? Principalmente se se trata de uma pessoa do meio popular. Ora, se ela está assumindo a sua militância política, tomara que a sua fé seja impulsionadora dessa militância.

Mesmo no movimento comunista, nos anos 1980, em Cuba, muitos comunistas jamais tinham ouvido falar do livro do Engels O Cristianismo Primitivo, que louva os primeiros cristãos como pioneiros do comunismo, e como eles atuaram para derrubar o Império Romano. Na esquerda, muitas vezes, por causa da influência neopositivista que vem do movimento comunista europeu, há uma atitude antirreligiosa que só favorece a direita. Não estou pedindo que ninguém seja religioso, mas ser antirreligioso, num contexto de América Latina hoje é, indiretamente, fazer o jogo da direita.

Você vem de uma longa luta política no Brasil, passou pelo período tenebroso da ditadura, veio a abertura, parecia que tudo estava indo muito bem, mas agora vivemos um milhão de retrocessos simultaneamente. Até recentemente, você, no Twitter, chamou a atenção para o aumento da concentração de riqueza no Brasil. Fora isso, o Brasil volta ao Mapa da Fome, o número de pobres e miseráveis se multiplica a cada dia. Qual é a sensação de ver tantos retrocessos?

Tenho um axioma que rege meus passos: “Vamos guardar o pessimismo para dias melhores”. Ou seja, me recuso a abdicar da esperança, da utopia. Os quatro anos de prisão, e a militância que antecedeu esse período, me ensinaram a olhar a história como permanente conflitividade. Creio que o importante, ainda que eu não vá participar da colheita, é morrer como semente. Portanto, realmente não me deixo abater, que é o que eles querem. Não somatizo essas pequenas derrotas, como a eleição do BolsoNero. Não me permito abater, não vou deixar de fazer o meu trabalho de base, de escrever as coisas que escrevo, de falar o que falo por causa disso. O pior é quando a gente começa a introjetar a autocensura, o medo, enfim, e achar que não é o momento, não é oportuno. Se todo mundo agir assim, realmente, eles vão passar o trator por cima. Por isso, é muito importante a gente não se desalentar e nem semear esse desalento aos demais. É preciso sempre manter viva a esperança.

O primeiro livro da Bíblia, o Gênesis, fala de Abraão, “esperava contra toda esperança”. Este é um versículo bíblico. E Dom Helder Camara sempre falava: “Precisamos, cada vez mais, suscitar minorias abraâmicas”. Ou seja, aqueles que esperam contra toda esperança. E é a minha postura. Faço parte dessa minoria abraâmica que acredita, sim, que a história inevitavelmente caminha para uma sociedade socialista, até por razões aritméticas. O planeta não tem futuro se não houver partilha dos bens da natureza e da produção humana. Fora disso, vamos para a barbárie total, agora agravada pela questão ambiental, que não faz distinção entre ricos, classe média e pobres. Outra bandeira, que a esquerda cometeu o erro de chegar tarde nela, é a questão ecológica. Recordo do Chico Mendes até ridicularizado em setores da esquerda como alguém de um idealismo que não tinha pés na terra, e hoje a gente faz a autocrítica e reconhece como ele foi um ousado pioneiro heroico dessa bandeira.

É muito mais fácil conscientizar uma criança pela questão ambiental do que pela questão explicitamente política. Por aí se pode começar um trabalho pedagógico muito importante. É preciso falar a linguagem que as pessoas falam, que as pessoas entendem. Não podemos chegar numa comunidade popular com o Manifesto Comunista. Temos que chegar com a Bíblia ou com perguntas sobre a situação que a dona Maira e o seu João ali vivem, as dificuldades que passam, a questão do desemprego, do salário, do saneamento. Em educação popular a gente trabalha com duas ferramentas, pela ordem: saca-rolhas e chave de fenda. Primeiro, escutar o povo, deixar que o povo explicite suas dificuldades, seu sofrimento, os limites da sua sobrevivência. E, a partir daí, apertar, os eixos, porque essa narrativa do sofrimento leva à consciência crítica se soubermos usar também a chave de fenda. É muito importante voltarmos a esse trabalho de base.


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